Uma questão de fé

31 Julho, 2008

Um amigo do interior de São Paulo me enviou uma correspondência eletrônica contendo um artigo , muito interessante, sobre oração. O articulista argumentava que orar é como estar com alguém querido num lugar aprazível, onde momentos de conversa franca e profunda alternam-se com significativos momentos de silêncio, e não essa prática moderna que transforma Deus no garçom que nos atende nesses lugares, uma vez que a oração se tem transformado num mero desfilar de pedidos, a maioria de cunho pessoal.

O texto, muito bem escrito, parecia sugerir que há formas adequadas de orar e de promover a comunhão com o Eterno. Acontece, porém, chamei a atenção de meu amigo, que não há formas seguras de orar, isto é, não é possível saber como o Altíssimo está julgando ou recebendo nossas orações. Deus olha para o coração. É um olhar só dele. Jesus ilustra isso contando-nos a história do publicano e do fariseu: um desfila suas qualidades, outro confessa seu estado de pecado. Jesus esclarece que o confessor desce justificado, enquanto que o outro sequer estava falando com o Pai, pelo contrário, falava de si para si mesmo. O que fazer, então? Precisa-se compreender que, na relação com a Trindade, tudo é pela fé. A gente segue as recomendações divinas e, pronto. Caso contrário, nós vamos nos tornar prisioneiros das sensações, sejam elas quais forem, podem ser as mais histriônicas ou as mais compenetradas, com cara de compreensão do mistério do encontro. São só sensações. O justo vive pela fé.

O que Deus diz sobre oração? Sigamo-lo. Se você está sofrendo ore, disse Tiago. Se está ansioso ore, lançando sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de você, disse Pedro. Ore sem cessar, disse Paulo. Ore em secreto, disse Jesus. Ore em nome de Jesus, disse o próprio Senhor. E isso não é um toque de mágica, é a certeza de que seja qual for a oração e o seu motivo, Deus só a recebe por causa do sacrifício de Jesus. Não tem a ver nem com a quantidade, nem com a intensidade. Só somos recebidos pelo Altíssimo por causa do sacrifício de Cristo. E só podemos falar com a Trindade se o fizermos sob o apadrinhamento de Jesus, só seremos recebidos se deixarmos claro que estamos ousando chegar até o Trono Eterno por causa do favor de Jesus, e que sabemos que só podemos ser recebidos por que o sacrifício de Cristo resolveu a pendência que os céus, com justiça, tinha contra nós. A oração não se sustenta em nenhuma forma, das mais populares às mais rebuscadas, das mais vulgares às mais recheadas de espiritualidade, de qualquer espiritualidade. Oração é uma questão de fé em Jesus, na eficácia de seu sacrifício.

Ariovaldo Ramos

A Teologia da Ternura

O Deus da revelação cristã... rende quase invisível sua transcendência: se revela ocultando-se, e se oferece como um Deus de piedade e dileção, em uma forma tão humana a ponto de assumir em si a 'carne' do mundo.

Belém e Nazaré representam, deste ponto de vista, uma novidade absoluta na história do auto-revelar-se de Deus à humanidade. Um evento de graça cuja única razão é o amor de benevolência.

Da sua parte, a cruz proclama que a última palavra de Deus não é uma palavra de condenação, mas de 'com-paixão', de amor gratuito que salva; é esta a palavra que inaugura o tempo da Igreja e expressa sua forma; é dessa que brota a ternura dos cristãos, a qual os transforma - por graça - 'memória inquieta' e 'profecia viva' de um modo novo de conceber a vida, liberando-os das lógicas do poder e do domínio e colocando-os naquelas da gratuidade e do serviço.

Se fiéis 'ao escândalo da cruz' (Gl 5.11), os cristãos são como 'estrangeiros' e 'sem-terra' entre os povos. Sua identidade não é compreensível senão como configuração ao seu Senhor crucificado e como testemunha viva da ternura de Deus para com os últimos, os abandonados e os excluídos.

Carlo Roccochetta - em "Teologia da Ternura - um evangelho a descobrir" - Editora Paulus, p. 285.

Favoritismo Olímpico

Um beijo

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior...Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto...

Olavo Bilac

Combater a pobreza ou combater o casamento gay?

26 Julho, 2008

Por que o crente é tão obcecado com questões ligadas à moralidade sexual? Há tantas coisas relevantes que poderiam ser usadas como bandeira da cristandade, há tantas questões urgentes — combate à pobreza, defesa do meio-ambiente etc — , e os cristãos, em geral, ficam o tempo todo combatendo o casamento gay, o aborto, o divórcio. De onde vem essa obsessão?

Não só no Brasil, mas entre os cristãos em todo o mundo, esse é um debate importante. Jim Wallis, um ativista cristão entrevistado na edição de maio da ChristianityToday, garante que as questões sociais são muito mais importantes do que as preocupações provincianas da maioria da cristandade. Não há como comparar essa idéia fixa de se ocupar da moralidade sexual com a seriedade do combate à pobreza. A pobreza está para o nosso século como a escravidão para o século 18, sustenta Wallis.

A tese é sedutora. Especialmente porque já chega com a garantia da aprovação geral. Quem é contra o combate à pobreza? Num campus universitário não é difícil imaginar qual bandeira teria trânsito mais fácil.

Contudo, há um problema. Paulo escreveu a Timóteo que a igreja é a trincheira da verdade (1Tm 3.15). Cabe aos cristãos a defesa firme daqueles valores que representam o evangelho e que estão sendo assaltados pela cultura secular. Para não se conformar à pressão cultural do seu tempo, isto é, do seu século, a igreja deve afirmar com maior veemência justamente aqueles princípios que estão sendo negados pelo mundo. Isso corresponde ao que alguns pensadores cristãos chamam de mandato cultural da igreja.

É óbvio que os cristãos devem ter uma preocupação social. Essa é uma verdade trivial que não tem a menor necessidade de ser enunciada. Mas não é neste ponto que a igreja sofre um ataque virulento (talvez o mais grave da sua história no campo das idéias). Na questão da pobreza, o mundo e a igreja estão de acordo e não há disputa alguma. A esse respeito não há bandeira a se levantar e o que se deve fazer é arregaçar as mangas. Agora, no que diz respeito aos valores da família, da moralidade sexual e da defesa da vida, é gravíssima a pressão cultural que sofremos e é aqui que devemos centrar as nossas forças intelectuais.

A tarefa evidentemente não é fácil, justamente porque a impopularidade desses valores é crescente. Quem ousar sair em defesa dos princípios judaico-cristãos em relação ao casamento e ao aborto, por exemplo, terá de conviver com rótulos que preferimos evitar. Não há nada mais desagradável para um ser pensante do que ser taxado de fundamentalista ou reacionário.

Apesar disso, não será essa pressão que nos autorizará a focar nossas energias para defender apenas aquelas teses que são simpáticas aos olhos do século atual. A defesa das nossas convicções tem um preço — por vezes muito alto. Conta a história que, no século 16, Henrique VIII — para poder divorciar-se em paz e se casar com Ana Bolena — resolveu tornar-se o chefe da igreja da Inglaterra. Encontrou, porém, firme oposição do seu Lord Chanceler, o católico Thomas More. More foi preso e corria risco de vida por sua obstinação, razão por que sua filha resolveu visitá-lo para demovê-lo. Após alertá-lo para o fato de que suas idéias poderiam literalmente lhe valer a cabeça, fez questão de lembrá-lo que muitos nobres, ilustres como ele, haviam renunciado às suas convicções e aceitado a posição do rei. Thomas More foi lacônico: “Não carrego minha consciência à custa dos outros”.

A cristandade vive um momento crítico, rigorosamente uma encruzilhada. Resta saber se nos acomodaremos àquilo que o mundo pensa ser relevante, ou se aceitaremos a missão que Paulo passou ao seu dileto discípulo: de posicionar firmemente a igreja como a última barricada da verdade.

João Heliofar de Jesus Villar, 45, é procurador regional da República da 4ª Região (no Rio Grande do Sul) e cristão evangélico.

Uma bem diferente

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

Mário Quintana

"SEUTIAGRAHO"

Problemas pastorais

21 Julho, 2008


Amigos, amigos; nada à parte

(Marcos 2.1-12)

A cura do paralítico de Cafarnaum

Jesus está em Cafarnaum, Sua base operacional. Ele foi para aquela cidade provavelmente porque, em Nazaré, não havia fé e é exaustivo realizar qualquer coisa onde não existe fé, mesmo para Jesus Cristo.

Ele mudou então de cidade e muita gente O procurou para ouvi-Lo, para ser curado.

Dentre os que rumaram para Cafarnaum havia um grupo carregando um jovem paralítico na esperança de o colocarem em contato com Jesus. E Jesus, vendo a fé daquele jovem e de seus amigos, o curou.

Que bom que este homem tinha amigos...

O que teria acontecido se aquele moço paralítico não tivesse amigos? Qual teria sido a sua situação? Ele estava estirado num leito. Não tinha como locomover-se, nem como chegar onde Jesus estava. Como fazê-Lo saber da sua situação?
Mas ele tinha amigos...
E que bom que ele os tinha!

Você alguma vez já precisou de um amigo e este lhe faltou? Você alguma vez já precisou de amigos e não achou um único sequer? Eu me lembro da história de um homem que ligou para um pastor pedindo ajuda: "Pastor, eu tenho 53 anos e estou numa situação muito difícil. A esta altura da vida eu fiz uma lista dos meus amigos e só achei dois!".

Há certas coisas, e certos momentos da vida, que a gente não vai conseguir fazer ou alcançar, sem a ajuda de amigos. Não tem jeito, simplesmente não dá pra fazermos tudo sozinhos. Além do que, a solidão é uma péssima companheira...

Mas, que bom que aquele homem tinha amigos. Quantos amigos você tem? De quantas pessoas você é amigo? Quantas pessoas podem contar com você? Com quantas pessoas você pode contar?

Que bom que os amigos dele eram "parteiros"...

Mas, amigos podem ser "parteiros" ou "coveiros". Sabemos que os parteiros ajudam crianças nascer, a virem à luz, enquanto que, os coveiros, as enterram.

Aqueles amigos acreditaram na possibilidade. Sim, porque, o que adiantaria ao jovem paralítico ter amigos que não acreditassem em sua cura? Talvez, ele até tivesse amigos que ficassem ao seu lado, distraindo-o na sua angústia, o que já não é má coisa.

Mas, seus amigos, o levaram a Cristo, porque acreditaram na possibilidade. Eles foram amigos "parteiros". Eles acreditaram que a vida daquele homem podia ser mudada. Eles acreditaram que Jesus Cristo podia mesmo fazer o milagre.

É muito difícil viver com alguém que nunca acredita nas nossas potencialidades, que são eternos "coveiros" das nossas idéias, dos nossos sonhos, possibilidades...

Esses amigos são maridos, filhos, pais, esposas, dizendo para seus respectivos cônjuges, filhos, ou pais: "Você não pode! Você não vai conseguir! Nem adianta tentar!". Pergunta: Como você é como amigo? Como você é como esposo? Como você é como pai, mãe, filho ou filha?
Você é do tipo "parteiro" ou faz o estilo "coveiro"?

Quando as pessoas chegam a você elas são estimuladas, ou você acaba de enterrá-las? É muito difícil viver com gente assim, é muito difícil conviver com gente que diz: "Não dá! Não dá, não dá... Olha, você não vai conseguir!".

Isso mata as pessoas e mata grandes idéias ainda em seu nascedouro. Mata possibilidades no nascedouro. Quanta gente talentosa não desenvolveu seu talento porque, a primeira pessoa a quem demonstrou o seu potencial resmungou: "Ah, isso é bobagem! Não perca tempo com isso não... É besteira!", e um talento maravilhoso morreu ali. Uma possibilidade maravilhosa morreu ali.

Quantas pessoas se casaram esperando ser felizes e se viram dia-a-dia, anuladas por maridos ou esposas que só criticam: "Nem tente, que não dá! Bobagem, esquece... É perda de tempo! Isso não vai dar certo!"?

Que bom que esse homem tinha amigos dispostos a carregá-lo...

Há momentos na vida que precisamos ser carregados e, se não o formos, morreremos no meio do caminho. Questiono outra vez: Que tipo de amigo você é?

As pessoas sabem que podem contar com você para carregá-las? Você é dos tais "parteiros" que todo mundo gosta de ter por perto? Aquele sujeito que gosta de estar sempre incentivando: "Vamos lá! É isso aí! Nós vamos conseguir! Deus é bom e joga no nosso time!" ?

Que bom que ele recorreu aos amigos...

Quantos de nós estão sofrendo sozinhos?

A solidão é uma péssima companheira. A solidão é como o silêncio. E o silêncio só é bom quando, entre sons, comunica; quando é uma breve pausa entre sons, porque, se for eterno, é o silêncio da morte.

O silêncio é maravilhoso quando nos ajuda a apreciar melhor os sons que ouvimos, quando, recobra em nós, a capacidade do ouvir.
Mas, o silêncio é muito triste quando representa a interrupção de todas as nossas atividades.
O silêncio é ótimo quando representa renovação e, muito triste, quando é o anúncio do fim.

A solidão também é assim. Ela é ótima quando é uma pausa entre encontros, mas, quando é resultado de um desencontro absoluto, ela se torna a pior das companheiras. E como é triste estar só!

Que bom que aquele moço recorreu aos amigos...
Quanta gente há, nestes dias, tentando se virar sozinha, achando que vai dar um jeito... Deus não criou o homem assim. Aliás, a segunda coisa que Deus disse sobre o homem foi: "Não é bom que ele esteja só".

Deus não criou os seres humanos para a solidão e nem mesmo Ele é um ser solitário mas, triúno, como Pai, Filho e Espírito Santo. Deus é a comunhão de três grandes amigos, e criou os seres humanos à Sua imagem e semelhança para que eles também experimentem a comunhão da amizade e cheguem, guardadas as devidas proporções, à unidade.

Não é bom que o homem esteja só. Mas, quanta gente sozinha há! Quanta gente há se julgando super-homem. Ora, super-homens não existem! Nietzsche dizia que o homem devia buscar superar-se a si mesmo e tornar-se um super-homem. Saiba que ninguém consegue ser o super-homem que Nietzsche preconizou. Ninguém consegue andar nos passos de Zaratustra, seus passos são muito tortuosos.

Todos precisamos de amigos, todos precisamos de ajuda porque, há momentos que a nossa fé, por melhor que seja, é insuficiente para nos levar à presença de Jesus Cristo. Não que precisemos de uma fé especial para chegar à presença de Cristo. Não é isto! Uma fé do tamanho de um grão de mostarda já faz muito.

É que a nossa fé é do tamanho da nossa esperança e quando a nossa esperança se desvanece e a fé vai embora com ela, aí não dá mesmo para chegarmos à presença de Jesus Cristo sozinhos.

E que bom que esses amigos sabiam o que fazer...

Aqueles homens sabiam a quem levar o amigo enfermo. Sabiam que deviam levá-lo à presença de Jesus Cristo.

Ser amigo é acreditar nas possibilidades que o outro tem a partir dos seus talentos, dos seus dons, das suas inclinações.

Ser amigo é acreditar na possibilidade do outro quando este é posto na presença de Deus. É acreditar que se for levado à presença de Jesus Cristo, Ele irá ajudá-lo de tal maneira que todos os seus dons, todas as suas capacidades, serão restauradas; tudo o que ele tem de melhor virá à tona, todo o seu talento emergirá e, ao invés dele ser carregado, ele é que vai sair de lá carregando.

Porque, fé, é crer nas possibilidades que existem, quando vamos à presença de Jesus Cristo.

É por isso que o livro de Hebreus diz que quem se aproxima de Deus precisa crer que Ele existe e que Ele se torna galardoador daqueles que O buscam.

Deus é assim. Quando você Lhe entrega um pedaço de madeira quebrada, Ele a devolve inteira, como se esta nunca tivesse tido sequer uma lasquinha, quanto mais uma fratura.

Deus é assim. Quando você leva a Ele um pavio que está se apagando, Ele o devolve como uma labareda. E uma labareda que incendeia pela eternidade!

Que bom que os amigos daquele moço paralítico sabiam onde levá-lo, como ajudá-lo e se dispuseram a carregá-lo.

Que bom que esses amigos não sonegaram os seus dons...

Sim, por que há amigos que se dispõem a ir com a gente até um determinado ponto, mas, quando se dão conta de que nos ajudar de verdade terão que dispor dos seus dons, da sua capacidade, do seu trabalho, do seu sacrifício, eles param.

Aqueles amigos, quando viram a multidão, com gente "saindo pelo ladrão" - tanta gente que não havia nem lugar para sentar - poderiam ter dito para o moço: "É companheiro, vai ficar para a próxima. Todas as portas estão fechadas", e fechadas por outras pesoas, por gente, o que é muito pior.

Porque quando as portas estão apenas trancadas, sempre se pode derrubá-las. Às portas, às janelas, seja qual for o obstáculo. Mas, quando gente decide atrapalhar, quando gente decide ser o problema, a obstrução do caminho, daí só Deus mesmo! Porque, lidar com gente não é fácil... Deus que o diga!

Eles poderiam ter dito ao paralítico: Olha, quando Jesus voltar à cidade, a gente chega antes. Quando Ele entrar na casa a gente já vai estar lá.

Que bom que eles não pensavam assim! Que bom que eles dispuseram seus dons, seus talentos, seu recursos para ajudar o amigo.
Que bom que eles se dispuseram ao sacrifício, que bom que eles disseram: "Já que não tem uma porta aberta, vamos fazer uma! E vamos fazer no teto, porque o único jeito de fazer porta fácil é no teto". É só arrancar a cobertura e, naquele tempo, nem telha era.

Você é um amigo assim? Disposto a abrir portas onde elas não existem? Você é um amigo assim? Pronto a dar do que você sabe, e tem, para criar portas? Afinal, há tanta gente que só precisa de uma porta aberta!

Você é assim?
E você tem amigos assim?

Que bom que os amigos daquele moço eram do tipo que abriam portas. E que garotada boa, eficiente! Um teve a idéia, outro já foi providenciar a corda, um terceiro ficou lá com ele dizendo: "Calma que nós estamos dando um jeito. Você vai chegar lá!".

Aí, o mais magrinho deles deve ter subido ao telhado, por causa da fragilidade do teto. E os outros, sempre trabalhando em equipe e com a mesma motivação, conseguiram prendê-lo bem, içá-lo, depois, com todo o cuidado, descer o leito na presença de Jesus.

Que bom que eles colocaram os seus talentos, seus dons, seus recursos, em favor daquele amigo necessitado!

Você sabia que Deus nos dá dons, talentos e recursos para isto?

Há tanta gente necessitada... É por isso que você tem tantos dons!

Não sei porque "cargas d'água", Deus resolveu fazer com que eu e você, de vez em quando, tivéssemos um experiência como a d'Ele.

É como se Ele dissesse: "Eu vou lhe dar uma grande oportunidade. Eu vou fazer você experimentar a alegria que Eu experimento. Eu vou deixar você fazer o papel de Deus para alguém. Eu vou lhe dar tantos recursos, que quando as pessoas baterem à sua porta, você vai poder fazer como Eu. Você terá a chance de abençoá-las e irá descobrir o que sinto quando abençôo você.

Você vai descobrir o que é que motiva o meu coração a abençoá-lo. Vai descobrir a alegria de agir como Eu ajo. Vou lhe dar uma oportunidade de agir como Deus na vida de alguém, mas não o Deus judicioso que você gostaria de ser, não! Essa qualidade pode deixar comigo, que sou misericordioso e sei como fazê-lo. Como você não o é, melhor você não experimentar isto.

Mas, que coisa chata! É justamente isso que a gente quer experimentar o tempo todo! Essa capacidade divina de fazer cair fogo do céu e dizimar os nossos adversários.

Esse é o poder que a gente quer experimentar todos os dias - a capacidade divina de julgar, de dizer: "culpado!". É desse poder que a gente gosta.

Mas aí Deus diz: "Não. Não vou deixar! Você não tem a misericórdia que Eu tenho e quem não conhece a misericórdia, jamais conhecerá a justiça, porque não há justiça onde não há misericórdia. Não há justiça onde não há amor. Não há justiça onde não há perdão. Então, deixe isto comigo. Mas vou te dar uma outra chance. A chance de ser abençoador. Você vai experimentar o que eu experimento!".

Que bom que os amigos desse moço agiram como se soubessem disso, que agiram como se aquele obstáculo fosse a grande oportunidade que tinham de experimentar, ainda que um pouquinho, o que significa ser um Deus abençoador.

E aquele grupo de amigos levou o moço à presença de Jesus. Ora, na presença de Jesus, tudo é festa! Quem precisa ser perdoado, o será; quem precisa ser curado, o será. Jesus reagiu à fé do moço e dos seus amigos.

Fé genuína é assim: arregaça as mangas. Quem crê, arregaça as mangas. Quem crê que é possível transformar uma vida, vai ao encontro da vida. Por isso Tiago diz que fé tem que ter obras, senão, é morta.

E Jesus viu a fé desses meninos e disse para o moço: "Filho, perdoados estão os teus pecados!". As pessoas ficaram bravas... Muita gente fica brava quando há perdão. Há uma grande disposição nos seres humanos de condenar, acusar, exterminar, matar. Há quem ache que perdão sempre, é demais.

E Jesus o perdoou...

Porque é assim... As vezes a luta do nosso amigo só vai ser vencida se ele for perdoado. E o perdão cura!

Há alguém precisando de seu perdão? Perdoe-o para que ele possa andar de novo.
Há alguém a quem você precisa pedir perdão? Então, se apresse em pedi-lo para que você possa andar de novo.

Jesus pega nossa maior fraqueza e a transforma no nosso maior troféu...


A cama era a marca da derrota daquele homem. Quem é o sujeito? É aquele que não sai da cama. Ele não tem alternativas, só pode ficar sobre a cama, e agora, depois do encontro com Jesus, quem é o sujeito? E aquele que carrega sua cama!

Antes, ele era carregado sobre ela, agora, é ele quem a carrega sobre os ombros porque Jesus Cristo age assim. Ele pega sua maior fraqueza e a transforma no seu maior troféu.

Eu não me canso de contar a história de um amigo do "Jovens da Verdade" que foi ladrão. Ele tinha diversas passagens pela prisão e um dia teve um encontro com Jesus, se converteu. Ele tornou-se uma das pessoas mais honestas que conheço. Você poderia entregar o que tivesse de mais valioso em suas mãos que estaria seguro. A sua fraqueza tornou-se o seu maior troféu!

Vale a pena acreditar nas possibilidades que as pessoas têm quando são colocadas na presença de Jesus Cristo. Gosto de pensar que esses amigos representam a Igreja de Jesus Cristo. Porque Ele a fundou para ser uma nação de amigos. Uma nação de gente que se carrega mutuamente.

Jesus Cristo não fundou Sua Igreja para ter uma nação de juizes. Jesus Cristo fundou Sua Igreja para ter uma nação de sacerdotes. E o sacerdote é, antes de tudo, um amigo. Ninguém pode ser sacerdote se, antes, não for um amigo.

É lamentável ver que, nos nossos dias, muitos que se chamam (ou são chamados) de "sacerdotes" são tudo, menos, amigos. São tudo, menos gente com quem se pode contar. É impossível alguém ser sacerdote se, antes, não for aquele que carrega, aquele que leva o outro a ser perdoado.

A Igreja de Jesus Cristo tem esse chamado: a amizade.

Sua esposa sabe que casou com um amigo? Seus esposo sabe que casou com uma amiga? Seu filho sabe que tem um pai que é amigo, uma mãe que é amiga?

Seu pai sabe que tem um filho que é amigo, uma filha que é amiga, com quem ele sempre pode contar e que sempre vai ver as coisas de um lado positivo, e sempre vai ser um estímulo?

O sonho de Deus é ter um mundo de amigos. O sonho de Jesus Cristo é ter uma Igreja de amigos.

Que o meu sonho e o seu sonho seja o de "ser amigo", porque há coisas que a gente não faz sem amigos. Há lugares que a gente não vai sem amigos, há coisas que a gente não alcança sem amigos. O sonho de Deus é uma Igreja de amigos, um mundo de amigos...

Eu queria desafiá-lo a buscar ser amigo de alguém. Quero desafiar você, que está sozinho, a pedir amigos à Deus. Quero desafiá-lo a abrir o seu coração e a colocar os seus dons à disposição dos amigos. Queria desafiá-lo a ser alguém que se dispõe a ser amigo, que pede ajuda aos amigos - que pede ajuda -, não, que os explora.

Um "mundo de amigos", é isso que a Igreja de Jesus Cristo tem de ser, foi isso que Jesus Cristo veio construir na Sua cruz e na Sua ressurreição: Ele veio trazer aos homens a paz e a amizade n'Ele.

Ariovaldo Ramos

Lindo Nome

19 Julho, 2008

Ó Vós que sois!

O Eclesiástico vos chama de Onipotência; os Macabeus, de Criador; a Epístola aos Efésios, de Liberdade; Baruc, de Imensidade; os Salmos, de Sabedoria e Verdade; João, de Luz; os Reis, vos chamam de Senhor; o Êxodo, de Providência; o Levítico, de Santidade; Esdras, de Justiça; a criação vos chama de Deus; o homem, de Pai; mas Salomão diz que sois Misericórdia, e é este o mais belo de todos os vossos nomes.

Victor Hugo em "Os miseráveis"

Apóstolos


fonte: Blog do Jasiel Botelho

É curioso notar

É curioso notar que o homem que não teve infância, ao mesmo tempo forte e viril como um adulto e nu e vulnerável como um recém-nascido, é um referente adequado da nossa condição mesmo antes de dar o primeiro passo inequívoco em direção ao seu conflito.

Na contradição do homem que nasceu maduro tornamo-nos capazes de enxergar o papel da infância na nossa própria história; podemos intuir, se ainda não o fizemos, que a criança que fomos moldou em grande parte a pessoa que somos. Diante dos nossos próprios conflitos agimos segundo a instrução ou a criatividade dessa criança primordial, e o primeiro homem carece dessa referência.

Deve ficar claro que a geração fora do tempo de Adão e seu fracasso em gerenciar a abundância estão intimamente ligados; ambos são, ainda, emblemas de aspectos fundamentais da nossa própria condição. Neste sentido, a narrativa explica que descendemos todos de alguém que nunca chegou a se resolver emocionalmente.

Nós mesmos lutamos incessantemente para nos ajustarmos à circunstância que representou para o primeiro homem um problema. Para todos a idade adulta – o rótulo de adulto – chega antes que nos sintamos inteiramente preparados para ele. Sem a reconciliação da infância permanecerá para sempre presente impensável e ameaça desconcertante.

Essa lição da figura de Adão será de todas a mais evidente: quem não é criança jamais chegará à maturidade. Não é de admirar que Jesus dirá que para entrar no Reino é preciso ser como criança; o primeiro homem teve de demonstrar que ser homem não basta.

Paulo Brabo

Qual é a felicidade possível

18 Julho, 2008

A felicidade é um dos bens mais ansiados pelo ser humano. Mas não pode ser comprada nem no mercado, nem bolsa, nem nos bancos. Apesar disso, ao redor dela se criou toda uma indústria que vem sob o nome de auto-ajuda. Com cacos de ciência e de psicologia se procura oferecer uma fórmula infalível para alcançar “a vida que você sempre sonhou”. Confrontada, entretanto, com o curso irrefragável das coisas, ela se mostra insustentável e falaciosa. Curiosamente, a maioria dos que buscam a felicidade intui que não pode encontra-la na ciência pura ou nalgum centro tecnológico. Vai a um pai ou mãe de santo ou a um centro espírita ou freqüenta um grupo carismático, consulta um guru ou lê o horóscopo ou estuda o I-Ching da felicidade. Tem consciência de que a produção da felicidade não está na razão analítica e calculatória mas na razão sensível e na inteligência emocional e cordial. Isso porque a felicidade deve vir de dentro, do coração e da sensibilidade.

Para dizer logo, sem outras mediações, não se pode ir direto à felicidade. Quem o faz, é quase sempre infeliz. A felicidade resulta de algo anterior: da essência do ser humano e de um sentido de justa medida em tudo.

A essência do ser humano reside na capacidade de relações. Ele é um nó de relações, uma espécie de rizoma, cujas raízes apontam para todas as direções. Só se realiza quando ativa continuamente sua panrelacionalidade, com o universo, com a natureza, com a sociedade, com as pessoas, com o seu próprio coração e com Deus. Essa relação com o diferente lhe permite a troca, o enriquecimento e a transformação. Deste jogo de relações, nasce a felicidade ou a infelicidade na proporção da qualidade destes relacionamentos. Fora da relação não há felicidade possível.

Mas isso não basta. Importa viver um sentido profundo de justa medida no quadro da concreta condição humana. Esta é feita de realizações e de frustrações, de violência e de carinho, de monotonia do cotidiano e de emergências surpreeendentes, de saúde, de doença e, por fim, de morte.

Ser feliz é encontrar a justa medida em relação a estas polarizações. Dai nasce um equilíbrio criativo: sem ser pessimista demais porque vê as sombras, nem otimista demais porque percebe as luzes. Ser concretamente realista, assumindo criativamente a incompletude da vida humana, tentando, dia a dia, escrever direito por linhas tortas.

A felicidade depende desta atitude, especialmente quando nos confrontamos com os limites incontornáveis, como, por exemplo, as frustrações e a morte. De nada adianta ser revoltado ou resignado, Mas tudo muda se formos criativos: fazer dos limites fontes de energia e de crescimento. É o que chamamos de resiliência: a arte de tirar vantagens das dificuldades e dos fracassos.

Aqui tem seu lugar um sentido espiritual da vida, sem o qual a felicidade não se sustenta a médio e a longo prazo. Então aparece que a morte não é inimiga da vida, mas um salto rumo a uma outra ordem mais alta. Se nos sentimos na palma das mãos de Deus, serenamos. Morrer é mergulhar na Fonte. Desta forma, como diz Pedro Demo, um pensador que no Brasil melhor estudou a “Dialética da Felicidade”(em três volumes, pela Vozes): ”Se não dá para trazer o céu para terra, pelo menos podemos aproximar o céu da terra”. Eis a singela e possível felicidade que podemos penosamente conquistar como filhos e filhas de Adão e Eva decaídos.

Leonardo Boff

Nem de brincadeira!

Outros conselhos (in)viáveis

Suspeite de quem sabe mostrar ares de piedade. Algumas pessoas aprenderam a arquear as sobrancelhas para baixo para mostrar que são puras. Elas são perigosíssimas. Prefira quem é mais solto, mais debochado, menos ciente de suas virtudes; os gasosos são melhor companhia que os circunspetos, que caminham com chumbo nos pés.

Evite sentar na roda de quem exige rigor semântico até na hora da conversa fiada. É intolerável estar perto de quem vive a corrigir os outros. Quando alguém diz que vai à igreja, ele dispara: “a igreja somos nós, não um prédio”; quando alguém confessa que anda desanimado, tem de escutar: “mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças”. Que horror!

Apure rigorosamente todo relato de milagre. Prefira ser cético que simplório. A verdade não deve temer análises, questionamentos, suspeitas. Mas dê um passo adiante. Pergunte-se também pelas motivações. Queira saber os porquês por detrás dos relatórios de eventos fantásticos. Os exageros, os prodígios forçosos, os números “evangelásticos”, em sua esmagadora maioria, só se prestam a alimentar os músculos financeiros de algum narcisista, instituição ou agência missionária; todos ávidos para alcançar os primeiros lugares no reino de Deus.

Saiba que por trás de todo rigor moralista existe uma mente sórdida. Anote: os mais inflexíveis contra a homossexualidade lutam contra as suas próprias tendências homo-eróticas. Quem se exaspera contra os “pecados da carne” é escravo da lascívia - Jesus os chamou de sepulcros caiados. A rigidez puritana não abrandou o fogo da libido, só a adoeceu. As taras mais grotescas, como sadismo, masoquismo, pedofilia e zoofilia se proliferaram em ambientes austeros e probos. Não tenha medo dos que advogam uma sexualidade lúdica e menos insalubre.

Fuja, acovarde-se, dê o fora, encontre um escape, faça qualquer coisa, mas evite os "tapetes azuis" do poder. Se for nomeado síndico, presidente de honra da quermesse ou venerando líder da igreja, saiba que os perigos são avassaladores contra a sua alma. Abra mão de títulos. Placas de bronze ou de acrílico, diplomas e medalhas não passam de confetes, semelhantes aos do carnaval, que perdem qualquer significado na quarta-feira de cinza. Quando lhe chamarem de senhor ou senhora repita o chavão: “Senhor, só o lá de cima”; “Senhora, só a mãe de Jesus”. Depois caia na gargalhada como se tivesse contado uma grande piada.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

Mário Quintana