Não devemos deixar

28 Junho, 2008

Não devemos deixar que nos cegue o cisco da proibição, como terá cegado nesta mesma página os nossos protagonistas – pois o que particulariza a condição de Adão e Eva não é a falsa eloquência do que não devem fazer, mas a formidável extensão de suas liberdades.

Pelo que sabemos o homem podia pular de penhascos, comer manga com leite, fazer xixi de porta aberta, engendrar enxertos inéditos nas plantas do jardim. Era livre para fazer esculturas na areia, dormir reclinado no peito de tigres, cavalgar rinocerontes, receber a massagem de todas as cascatas.

Podia cuidar do jardim sob o sol da manhã, cantar na chuva à tarde, dar nome às estrelas na noite e amar sobre a relva em todos os intervalos. Todas as florestas eram virgens, todos os oceanos inexplorados e mesmo os picos mais baixos aguardavam serem escalados.

Não ouçamos portanto a mentirosa sedução da proibição, porque nesta história o ser humano é, incrivelmente, livre para fazer qualquer coisa. Num certo sentido o conflito singular desta trama não reside na arbitrária proibição que imprime aos protagonistas, mas no embaraço da liberdade de que desfrutam.

A narrativa dos primórdios em Gênesis não é uma parábola sobre os perigos da tentação; é uma história sobre os percalços do gerenciamento da abundância.

Paulo Brabo

Fragmento 4

O interrogatório do homem que saiu de casa de-
pois da hora de recolher começou há quinze dias e
ainda não acabou

Os inquiridores fazem uma pergunta em cada
sessenta minutos vinte quatro por dia e exi-
gem cinqüenta e nove respostas diferentes para
cada uma

É um método novo

Acreditam que é impossível não estar a resposta
verdadeira entre as cinqüenta e nove que foram
dadas

E contam com a perspicácia do ordenador para
descobrir qual delas seja e a sua ligação com as
outras

Há quinze dias que o homem não dorme nem
dormirá enquanto o ordenador não disser não pre-
ciso de mais ou o médico não preciso de tanto

Caso em que terá o seu definitivo sono

O homem que saiu de casa depois da hora de
recolher não dirá por que saiu

E os inquiridores não sabem que a verdade está
na sexagésima resposta

Entretanto a tortura continua até que o médico
declare

Não vale a pena

José Saramago

Surpresas


Exercício de paciência

O noviço indagou do mestre como exercitar a virtude da paciência. O mestre submeteu-o ao primeiro dos três exercícios: caminhar todas as manhãs pela floresta vizinha ao mosteiro.
Disposto a conquistar a paciência e livrar-se da ansiedade que o escravizava - a ponto de ingerir alimentos quase sem mastigá-los, tratar os subalternos com aspereza, falar mais do que devia -, durante nove meses o noviço caminhou por escarpas íngremes, estreitas fendas entre árvores e cipós, pântanos perigosos, enfrentando toda sorte de insetos peçonhentos e bichos venenosos.

Nove meses depois o mestre o chamou. Deu-lhe o segundo exercício: encher um tonel de água e carregá-lo nos braços todas as manhãs, ao longo dos cinco quilômetros que separavam o rio da fonte que abastecia o mosteiro. O noviço tampouco compreendeu o segundo exercício; mas, julgando a sua desconfiança sintoma de impaciência, resignadamente aplicou-se na tarefa ao longo de nove meses.

Chegou o dia do terceiro e último exercício: atravessar, de olhos vendados, a corda que servia de ponte entre o abismo em se encravava o mosteiro e a montanha que se erguia defronte. Com muita reverência, por temer estar ainda tomado pela impaciência, o noviço indagou ao mestre se lhe era permitido fazer uma pergunta. O velho monge aquiesceu. "Mestre, qual a relação entre os três exercícios?"

O mestre sorriu e seu rosto adquiriu uma expressão luminescente: "Ao caminhar pela floresta, você aprendeu a perder o medo da paciência. Soube vencer meticulosamente cada um dos obstáculos e não se deixou intimidar pelas ameaças. Agora sabe que, na vida, o importante não é disputar na pressa quem chega primeiro. O que vale é chegar, ainda que demore mil anos. Observou também a diversidade da natureza e dela tirou a lição de que nem todas as coisas são do jeito que preferimos."

"Ao trazer água do rio, você fortaleceu os músculos do corpo e aprendeu a servir. A impaciência é a matéria-prima da intolerância, do fundamentalismo, do desrespeito, da segregação. A paciência exige humildade, generosidade, solidariedade."

O noviço compreendeu, mas ainda uma dúvida pairava em sua mente. O mestre o percebeu. "Agora você quer saber por que atravessar de olhos vendados a corda que nos serve de ponte, não é?", indagou o velho monge. E acrescentou: "Com a paciência impregnada em seus pés que trilharam a floresta inóspita; a força impregnada em seus braços, que aprenderam a servir; agora você fará o exercício da fé. Não poderá enxergar, mas confiará que a corda permanecerá sob seus pés. Não poderá apoiar-se, mas se entregará à certeza de que seu corpo é como a água que você trazia: movimenta-se, mas não cai. Não poderá fugir ao abismo que se abre abaixo, mas andará convicto de que, do outro lado, há a montanha sólida a esperá-lo e acolhê-lo. Assim é o Pai de Amor quando nos dispomos, na escuridão da fé, a ir ao encontro Dele."

Após uma pausa de silêncio, o mestre completou: "Sem fé não há tolerância; sem tolerância, impossível a paciência." O noviço dilatou os olhos como que assustado. "O que foi?", indagou o velho monge. "Mestre, os fundamentalistas não são pessoas de muita fé? E não se caracterizam pela intolerância?"

O mestre sorriu de modo suave e replicou: "Os fundamentalistas não têm fé, que é confiar incondicionalmente em Alguém. O que têm é pretensão; confiam apenas em si mesmos. Eles são o objeto da própria fé. Ao atravessar o abismo, você estará percorrendo o itinerário que conduz do seu homem velho ao seu homem novo. E o fará para o bem dos outros. E confie, Alguém o conduzirá pela mão, livrando-o de todos os riscos."


[Autor, em parceria com Leonardo Boff, de "Mística e Espiritualidade" (Garamond), entre outros livros].

Frei Betto

Assim faço teologia

26 Junho, 2008

Faço teologia no ritmo da poesia. Procuro gerar esperança. Acredito que só a verdade poética salvará o mundo. Já se perguntou se era possível sentir o poema “fervilhando em larvas numa terra prenhe de cadáveres”. Eu respondo que sim! Enquanto Deus falar, passarão céus e terra, mas suas palavras não passarão. O universo engravidou de beleza no “fiat” primordial. Desde então, todo o ser humano carrega o segredo alquímico das aquarelas, o tom afinado das sinfonias, a chave misteriosa dos enigmas existenciais e o eureca sagrado da revelação do Espírito.

A maldade perdura. Multiplicam-se os ímpios e ressuscitam estruturas demoníacas. Mesmo assim, artistas, estivadores, lavadeiras de beira de rio, médicos, violinistas, filósofas, sacerdotes, cantores de churrascaria, psicólogas, não cedem ao atropelo dos traficantes, dos mercadores internacionais de fuzis, dos cafetões ou dos que enriquecem com a mão de obra infantil. Neles repousa o nascer do amanhã celestial que ainda não alvoreceu.

O caminho do perverso não prevalecerá para sempre; seus grilhões não resistirão ao dobrar dos sinos das catedrais; cada badalar proclamará a resiliência da luz que enfrenta as ásperas trevas. A bondade é um fermento, a mansidão um ácido e a integridade um aríete, que destruirão o castelo da maldade.

O mundo se contorce com a banalização da morte, mas o perfume do amor continua a espalhar-se. Soldados intercedem por seus subalternos. Mães imploram por filhas aflitas. Cegos pedem ajuda na beira da calçada. Na cruz, ladrões prenunciam o paraíso.

Sete mil profetas continua em pé; sem capitular, não se negam ao martírio. Neles reside a iniciativa heróica e deles vem o brado que antecipa o grande dia quando a terra, sem gemer, acolherá o santuário de Deus.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

O Espírito chega antes do missionário

25 Junho, 2008

Um dos efeitos do processo de mundialização - que vai muito além de sua expressão econômico-financeira – é o encontro com todo tipo de tradições espirituais e religiosas. Instaurou-se um verdadeiro mercado de bens simbólicos no qual os vários caminhos, doutrinas, cerimoniais, ritos e esoterismos são oferecidos para atender à demanda de um número crescente de pessoas, geralmente, fatigadas pelo excesso de materialimso, racionalismo, consumismo e superficialismo de nossa cultura convencional.

Por detrás deste fenômeno há uma busca humana a ser entendida e também a ser atendida. O espiritual e o místico, à revelia das predições dos mestres da suspeita como Marx, Freud e Nietzsche, estão voltando com renovado vigor. Eles revelam uma dimensão esquecida do ser humano, vista pelos modernos, mais como expressão de patologia do que de sanidade. Hoje, entre os estudiosos das ciências da religião, ela está resgatando sua cidadania. Tem seu assento na razão sensível e cordial que não substitui mas completa a razão científico-calculatória. Nela se elaboram os grandes sonhos e surgem as estrelas-guias que dão rumo à nossa vida. A religião desvela o ser humano como projeto infinito e lhe brinda o objeto adequado que o faz descansar: o Infinito.

Os cristãos têm especial dificuldade no diálogo com as religiões. Sustentam a crença de que são portadores de uma revelação única e de um Salvador universal, Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado. Em alguns, esta crença ganha foros de fundamentalismo, dizendo, sem atalhos, que fora do Cristianismo não há salvação, repetindo uma versão de cariz medieval. Outros, a partir da própria Bíblia e de uma reflexão teológica mais profunda, sustentam que todos os seres humanos, também o cosmos, estão permanentemente sob o arco-iris da graça de Deus. Para os primeiros onze capítulos do Gênesis, nos quais não se fala ainda em Israel, como “povo eleito”, todos os povos da Terra, são povos de Deus. Isso permanece válido até os tempos atuais.

Ademais, dizem as Escrituras que o Espírito enche a face da Terra, perpassa a história, anima as pessoas a praticarem o bem, a viverem na verdade e a realizarem a justiça e o amor. O Espírito chega antes do missionário. Este, antes de anunciar sua mensagem, precisa reconhecer as obras que este Espírito fez no mundo e prolongá-las.

O Cristo não pode ser reduzido ao espaço palestinense. Ao assumir o homem Jesus de Nazaré, o Filho se inseriu no processo da evolução, tocou a realidade humana e ganhou uma dimensão cósmica. Coube ao teólogo franciscano Duns Scotus na idade média e a Teilhard de Chardin nos tempos modernos apontar que o Filho está presente na matéria e nas energias originarias e que foi densificando sua presença na medida em que se realizava a complexidade e crescia a consciência até irromper na forma de Jesus de Nazaré. Esta individuação não diminiu seu caráter divino e cósmico, de forma que pode irromper, sob outros nomes e sob outras figuras que revelam em suas vidas e obras a cercania do mistério de Deus. Para evitar certa “cristianização”do tema, podemos falar, como o fazem grandes tradições, da Sabedoria/Sofia. Ela está presente na criação, na vida dos povos e especialmente nas lições dos mestres e sábios. Ou se usa também a categoria Logos ou Verbo que revela o momento de inteligibilidade e ordenação do universo. Ele não fica uma Energia impessoal mas revela suma subjetividade e suprema consciência.

Estas visões ancoram nossa vida num sentido bom que nos permite suportar os avatares desta cansada existência.

Leonardo Boff

A reforma ortográfica vem aí.

Hoje veremos mais algumas regras de acentuação gráfica que não serão afetadas pela reforma ortográfica.

3ª) Oxítonas – Só recebem acento gráfico as terminadas em:
a(s) – sofá, atrás, maracujá, babás, dirá, falarás, encaminhá-la, encontrá-lo-á;
e(s) – café, pontapés, você, buquê, português, obtê-lo, recebê-la-á;
o(s) – jiló, avô, avós, gigolô, compôs, paletó, após, dispô-lo;
em, ens – além, alguém, também, parabéns, vinténs, ele intervém, tu intervéns.

Observações:
Não recebem acento gráfico as oxítonas terminadas em:
i(s) – aqui, saci, Parati, anis, barris, adquiri-lo, impedi-la;
u(s) – bauru, urubu, Nova Iguaçu, Bangu, cajus, expus;
az, ez, oz – capaz, talvez, atroz;
or – condor, impor, compor;
im – ruim, assim, folhetim.

4ª) Monossílabas – Só recebem acento gráfico as palavras tônicas (substantivos, adjetivos, verbos, pronomes, advérbios, numerais) terminadas em:
a(s) – pá, gás, má, más, ele dá, há, tu vás, dá-lo, já, lá;
e(s) – fé, ré, pés, mês, que ele dê, ele vê, vê-los, tu lês, três;
o(s) – pó, dó, nó, nós, cós, vós, pôs, pô-lo.

Observações:
a) Não recebem acento gráfico os monossílabos tônicos terminados em:
i(s) – ti, si, bis, quis;
u(s) – tu, cru, nus, pus;
az, ez, oz – paz, fez, vez, noz, voz;
or – cor, for, dor;
em, ens – bem, sem, trens, ele tem, ele vem, tu tens, tu vens.

b) Não recebem acento gráfico os monossílabos átonos:
artigos definidos: o, a, os, as;
conjunções: e, mas, se, que;
preposições: a, de, por;
contrações: da, das, no, nos;
pronome relativo: que.

c) A palavra QUE recebe acento circunflexo, quando substantivada ou no fim de frase:
As crianças tinham um quê todo especial.
Procurava não sabia o quê.
Ele viajou por quê?

Palavras que só admitem uma pronúncia, mas deixam dúvidas.
(marcamos a sílaba tônica, para reforçar a pronúncia culta)

1. ACÓRDÃO (acordo judicial)
2. ACORDÃO (aumentativo de acordo)
3. AMBROSIA
4. ARGUI (ele = presente do indicativo)
5. ARGUI (eu = pretérito perfeito do indicativo)
6. QUI (cor)
7. CAQUI (fruta)
8. CIRCUITO
9. CLIRIS
10. CLÍTORIS (pedra)
11. ESTRAGIA
12. FILANTROPO
13. FLUIDO (substantivo)
14. FLUÍDO (particípio do verbo FLUIR)
15. FORTUITO
16. GRATUITO
17. IBERO
18. ÍNTERIM
19. TEX
20. MAQUINARIA
21. MAQUIRIO
22. MISTER (necessário)
23. MOLITO
24. NOBEL
25. OCEANIA
26. ÔNIX
27. RECORDE
28. RUBRICA

fonte:
Blog do Professor Sérgio Nogueira

O leão, a pastora e o futebol

24 Junho, 2008

O texto abaixo foi extraído do Blog Oficial da Ana Paula Valadão



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“Olá amados,

Nos últimos dias temos visto Deus agir de maneira tremenda em Recife, e por toda a parte, nos preparando para o que Ele irá fazer nos dias 4 e 5 de julho sobre aquela terra e sobre toda a nossa nação.

No fim de semana aconteceu ali o Seminário de Intercessão, e nas palavras dos guerreiros que participaram, foi um dos mais marcantes dos 36 que já passaram por esse Brasil a fora. Ao preço de dores de parto, um enorme peso espiritual foi quebrado, houve muitas libertações de vidas e da atmosfera da cidade, e o Senhor tem revelado profeticamente a Sua glória para aquele lugar.


Enquanto o seminário acontecia, no Chevrolet Hall a cidade celebrava uma das maiores festa de S. João do Nordeste. Mas cremos que estaremos ali tomando posse do terreno do inimigo. Acreditamos que esta nação será conhecida pelas festas ao Rei Jesus! Na madrugada de domingo para segunda, depois do seminário, os noticiários publicaram a morte do fundador do “Galo da Madrugada”, o maior festival da cidade, que já chegou a reunir 3 milhões de pessoas pelas ruas do Recife. Ficamos boquiabertos. Ele faleceu de uma cirurgia no joelho.
Outro evento importante foi ver essa semana, o Sport Club do Recife se tornar o campeão do Campeonato do Brasil! Os jogadores, muitos crentes, glorificavam a Deus e até declararam na mídia que esta vitória foi o cumprimento das promessas do Senhor.


Creio que também não é coincidência ver na bandeira do Recife, um leão segurando uma cruz. Deus tem Seus planos e estratégias e não é em vão que estaremos indo ali exatamente nesta hora.”

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A pastora-do-leão-de-quatro voltou... aliás, ela continua com a cabeça no leão... ou seria o leão na cabeça? Enfim, a pastora parece ter gostado da idéia de colocar na internet o seu diário pessoal. O interessante é que apenas comentários a favor são publicados. O que houve com o contraditório?

Depois de imitar, segundo ela, um leão no palco que mais parecia uma pessoa procurando sua lente de contato pelo chão, Ana Paula Valadão continua a criar coerências que apenas sua mente e a de seus fãs acham normais; as quais só posso concluir que devem agitar a alma de Freud, esteja lá onde ela estiver.

No último texto que comentei dela, tentei comentar cada parágrafo, o que não me foi possível tendo em vista tamanho disparate presente. Neste gostaria apenas de comentar dois pontos, uma vez que não há em mim nenhum apreço por tal literatura (se pudermos chamar a isto de literatura).

Depois de se vestir como uma guerreira, a pastora-do-leão-de-quatro encontrou com outros “guerreiros” e todos com “dores de parto” quebraram o peso espiritual que pairava sobre a cidade de Recife e, ainda, se preparam para entrarem no “terreno do inimigo” chamado São João. Coitado do “seu” João! Será que alguém falou com ele que há um monte de “guerreiros” querendo invadir seu território?

E como não poderíamos esquecer, de maneira alguma: Eis o leão aparecendo novamente. O futebol, um esporte profano, teve sua transformação para um “evento importante”, e isso porque o Sport (aquele time que tem o leão como mascote) venceu o Corinthians e se consagrou campeão da Copa do Brasil. Assim ela enche a bola dos jogadores do Sport dizendo que Deus havia cumprido uma promessa. Aí, fico eu pensando daqui: e os jogadores evangélicos corintianos? Não tinha promessa nenhuma para eles a não ser a do vice campeonato? Putz.

Outro fator delirante da pastora-do-leão é o último parágrafo apresentado acima: “Creio que também não é coincidência ver na bandeira do Recife, um leão segurando uma cruz.” Coincidência realmente não é, mas o que não é mesmo é a referência que nas entrelinhas ela quis insinuar ou afirmar existir pelo fato do leão segurar a cruz na bandeira da cidade do Recife. Leia com bastante atenção a maneira como o site da Prefeitura do Recife (http://www.recife.pe.gov.br/pr/simbolos.php) descreve a bandeira municipal: “Através da Lei 11.210, de 15 de dezembro de 1973, a municipalidade recifense instituiu uma bandeira para a cidade, composta de símbolos que se referem a fatos memoráveis da história do Recife. A bandeira do Recife é retangular e tem por base três colunas verticais, sendo que as laterais são em azul e a central em branco, reportando às cores da bandeira do Estado de Pernambuco, do céu brasileiro e da paz. A força e a fé, ideais almejados pelo ser humano, são representados pela frase em latim Virtus et Fides.

Símbolos de fé, força e esperança completam o visual da bandeira do Recife. São eles: a cruz, representando a colonização portuguesa, que trouxe o cristianismo para o Brasil; o leão neerlandês coroado, em amarelo, remetendo ao escudo de armas de Maurício de Nassau e ao Leão do Norte, apelido adquirido por Pernambuco pelo seu potencial histórico de lutas e, por fim, o sol e a estrela, ambos em amarelo, aludindo ao nosso astro maior e à representação da república brasileira, considerada originária das terras pernambucanas, através do movimento de 1817.”

Brincadeiras a parte, o lado mais sombrio do texto desta menina-do-leão fica por conta do comentário ridículo e descabido sobre a morte do fundador do Galo da Madrugada, o sr. Enéas Freire. Ele conseguiu transformar o Galo da Madrugada no maior bloco carnavalesco do mundo, segundo o próprio Guinness Book. Enéas morreu aos 86 anos de parada cardiorespiratória.

Repare que a pastora-do-leão-de-quatro logo após falar sobre a morte do Sr. Enéas, escreve as palavras: “outro evento importante”. Haja estômago para ler tanta baboseira vindo de uma única pessoa e que, infelizmente, adoece milhares de pessoas pelo mundo afora. Há de se ter, ao menos, o mínimo de respeito para com as pessoas, inclusive pelos familiares daqueles que se foram.

Mas Deus gravita ao redor da Sra. Valadão-filha realizando todos os caprichos e mimos que ela deseja: um Personal God criado em algum lugar de uma mente empobrecida e ensandecida pelos desvarios de uma religião.

Riva Moutinho

Ovelha cuidando de pastor


fonte: Blog do Jasiel Botelho

Salvos da perfeição

23 Junho, 2008

DEUS DE TÃO PERFEITO conheceu a plenitude do tédio. De tão cercado pelo idêntico a si mesmo, incapaz de dizer por que hoje não é apenas um reflexo de ontem, sem jamais ter sonhado com um outro dia, enfadado com a previsibilidade de um mundo impecável, inventou o amor. Ou seria, preferiu amar?

A invenção do amor, ou dos amigos, é o encontro com o imperfeito e aqui está a sua grandeza. Nada se compara ao êxtase da imaginação, à adrenalina do inusitado, ao ciúme diante do livre amante, à ardência do anseio pelo melhor, ao sabor fugidio do fugaz, à satisfação de um mundo transformado, ao descanso gostosamente dolorido diante do que não mais é caos. Sensações próprias da vida imperfeita, do que está para sempre para ser, dos que sempre podem desejar uma outra coisa. Dos humanos.

Logo depois de inventar o imperfeito, Deus conheceu a lágrima da frustração. A dor mais feliz que espíritos livres sentem. Viu as costas dos que mais amou. Duvidou sem desistir, o Criador chorou mais uma vez. Desta lágrima descobriu o perdão. Lágrima esquentada com afeto e graça.

Mal compreendido pelos amigos, inimigos tolos, pecado, recobriram-no de ídolo. De tão cansados do incerto, angustiados por tanta liberdade, os amigos inventaram ídolos, pretensos profetas e arrogantes senhores do futuro, sacerdotes e magos de um deus acuado, cristos milagreiros da mesmice ressurreta. Inventaram a religião, vestiram-se de absoluto.

Deus, que do absoluto fugiu em desespero, que inventara o imperfeito, imperfeito se fez. Inventou-se entre os incertos. Aperfeiçoou a imperfeição. Humanizou-se entre humanos. De tão impreciso, despido das forças do absoluto, igualmente inapreensível, excepcionalmente frágil, tão vivo e tão morto, descortinou o absoluto como quem desnuda o que é mau. Imperfeito, salvou-nos da perfeição.

Elienai Cabral Junior

G M O S

O menino e a Dona Irahy

Cheguei na floricultura Floríssima e lá encontrei uma senhora – já não era jovem, cabelos brancos, ereta, sorridente. Ela me olhou com uma interrogação curiosa no rosto: “O senhor, por acaso, é o Rubem Alves?” “Sou sim”, respondi. “Mas que coincidência feliz. Eu estava mesmo à sua procura...” Ditas estas palavras ela me mostrou uma folha de caderno. “Meu nome é Irahy. Por muitos anos eu preparei crianças para o exame de admissão, na minha casa. E agora – tenho 93 anos – estou organizando minhas coisas – álbuns de fotografia, coisas dos alunos. E encontrei, entre as coisas que guardei, essa redação de um menino de 10 anos. Acho que o senhor gostará de ler...” Peguei o pepel e comecei a ler: “Um amigo é alguém que gosta de você. Você pode ter muitos amigos... uns garotinhos ... umas garotinhas... um gato... um cão... ou até um ratinho branco. A árvore é uma amiga diferente. Não fala. Mas você sabe que é sua amiga pois lhe dá maçãs, cerejas, peras e até um galho para seu balanço. O riacho é um tipo especial de amigo. Gorgoleja e respinga água em você. Refresca seus pés e deixa você ficar ao seu lado, quando quer ficar sozinho. O vento canta-lhe doces canções à noite. Está em todo lugar, por isso está sempre com você. Quem são seus amigos? Às vezes você passa com pressa e pensa que não tem amigos mas você nem vê seus amigos. Mas você tem que esquecer a pressa e ver quando alguém lhe dá um sorriso, ou quando um cachorro abana-lhe o rabo com força. Todos têm amigos. Uns têm muitos, outros, só dois ou três. Mas todos têm pelo menos um amigo. Como encontrou o seu? Data: 27 de novembro de 1972. Assinado: Marcos Nopper Alves.” Minha alegria foi dupla. Primeiro, porque o menino de dez anos que escreveu sobre os amigos é meu filho. Aos dez anos aflorava nele uma alma de escritor. Tanto assim que a da. Irahy guardou sua redação. A segunda alegria é pela da. Irahy. Uma mulher que fez o que ela fez merece que dela se diga: “É uma educadora de verdade porque ama as crianças”. O fato é que há, espalhados pelo Brasil, uma infinidade de educadores anônimos que fazem o seu trabalho com competência e alegria. O que faz um educador não são as teorias pedagógicas que moram na cabeça mas o simples fato de amar as crianças. Veio-me agora uma definição de educador que nunca pensei: “Educador é qualquer pessoa que ama uma criança. Porque quem ama uma criança ensina-lhe o caminho (e vai junto...)”. Assim fez a Da. Irahy... Queria sugerir que aqueles que foram seus alunos lhe enviassem cartas contando das boas memórias do tempo que passaram juntos! Na verdade, penso que ela bem merece uma medalha – e fica aqui a sugestão à Câmara dos Vereadores. E, por favor, não se equivoquem com os seus 93 anos: ela está enxutíssima!

Rubem Alves
, em seu Quarto de Badaluques XVII

Tá por fora!!! (De moda e futebol...)

20 Junho, 2008

Para ser de Deus

Para ser de Deus, necessário é amar o silêncio, dar ouvidos às estrelas e ensurdecer aos tambores marciais – para ser de Deus.

Para ser de Deus, necessário é desatar o nó da gravata, soltar os ombros e relaxar o nervo gripado. Para viver amedrontado, ninguém precisa temer um vigia incontestável.

Para ser de Deus, necessário é se juntar por dentro – seja lá como for. Não exorcizar sombras, admitir erros e tratar as ambigüidades como dádivas.

Para ser de Deus, necessário é não se punir por achar que o amado se melindra com facilidade. Caminhar com quem se quer bem traz dor e alegria, mas sempre deixa o sabor de que valeu a pena. O Todo-poderoso tudo sabe, mas insiste em emprestar seu ombro e está preparado para continuar amigo mesmo desapontado.

Para ser de Deus, necessário é saber cortar as unhas de velhinho, participar de mutirão, andar a pé, cantar parabéns, chorar em corredor de hospital, comer buchada em casa de matuto e beber água na cabaça.

Para ser de Deus, necessário é curtir uma nostalgiazinha, a saudade marota que insiste em não morrer. É preciso não segurar o fio da meada da tristeza para que passeie solta pelos salões do coração. Tem que aprender a celebrar as ausências irreconhecíveis.

Para ser de Deus, necessário é que as preces sejam poucas e vagarosas, emudecendo para a conversa ser sublime, numa intimidade tão secreta quanto um código militar.

Para ser de Deus, necessário é gostar de vinho tinto, de cântico gregoriano, de Bach, do Chico Buarque, do Catulo da Paixão Cearense, de caldo de cana, de banho de chuva, de tarde fria, do Martin Luther King, de cocada e do Machado de Assis.

Para ser de Deus, necessário é manter-se permeável ao lampejo da estrela e sensível à sístole e à diástole do pulmão universal. Tem que bailar no vai-e-vem das marés e cavalgar na calda dos cometas.

Para ser de Deus, necessário é retalhar arco-íris, temperar maná e perfumar incenso.

Para ser de Deus, necessário é manter-se humano, pois tudo isso não adianta de nada se nesta perigosa e sublime aventura não perceber seu rosto numa criança.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

Uma janela impossível?

Dá a Ele ou Dá Nele?

19 Junho, 2008

Jesus ensinou que a quem tem a esse se lhe dará ainda mais, pois, algo [corpo ou qualquer forma de existência] sempre exerce força de atração ou é atraído por outro algo equivalente ou de natureza semelhante.

Ora, tal princípio vai das essências de todas as formas de existência, passando em nossa dimensão pelas partículas subatômicas, construindo o átomo, os corpos, as massas, as energias, indo às estrelas, galáxias e mundos diversos.

Isto também tem seus correspondentes no chão da terra em todas as dimensões do que chamamos existência humana.

Sim! O belo chama o belo, o poderoso atrai mais poderosos, as inteligências magnetizam outras inteligências; assim como dinheiro chama dinheiro, pobreza clama por miséria, alegria convoca bom humor, e tristeza faz seres tristes gravitarem em torno de nós.

Por isto também é que se pode observar o seguinte fenômeno geral:

Uma pessoa vem e nos narra que todas as coisas boas lhe estão acontecendo em cadeia. E, por tal razão, ela está feliz. Anos depois, se tanto, algo se desequilibra na mente daquela pessoa, ou em suas emoções e afetos, e, então, coisas são mudadas, e, a mesma pessoa começa a ver que tudo passa a se desconstruir em cadeia, e de modo súbito, como um prédio que levou anos para ser construído, mas que cai do dia para a noite ou em meros instantes.

O segredo, segundo Jesus, é manter o coração amante do amor e da fé, pois, tragédias acontecem a todos, e, acidentes, são possibilidades na existência de qualquer um. No entanto, aquele que se mantém em fé e amor, esse sempre terá as bases fundamentais do poder que atrai tudo que é bom, pois, amor atrai bondade, alegria, paz, justiça, verdade, e fé em tudo o que Deus chama vida.

Ora, aquilo que é, segundo Jesus, é coisa que os olhos não vêem como objeto de toque dos sentidos, mas sim é coisa que não se vê, e que é pertinentes à fé e ao amor.

Isto não significa que o mal não visite aquele que carrega tais tesouros invisíveis, mas sim que aquele que tem em seu cerne o poder de gravidade e de magnetismo do amor, esse sempre terá poder para continuar, e, além disso, pela sua natureza, sempre atrairá mais realidades da mesma natureza da dele para junto de si mesmo.

Assim, a quem tem algo bom, coisas boas começarão a ser atraídas por aquele poder “magnético”. Mas aquele que carrega nada, ou o que é mal, a esse até o que pensa ter lhe será tirado, posto que esteja carregando o anti-ser, e, desse modo, atrairá somente aquilo que não é, ficando preso ao ciclo do nada e do vazio.

Pense nisto!

Nele, que é

Caio Fábio

Tratando a língua

A reforma ortográfica vem aí

Hoje veremos o que não muda nas regras de acentuação gráfica com a reforma ortográfica.

ACENTUAÇÃO GRÁFICA

Posição da sílaba tônica:
Proparoxítona (sílaba tônica na antepenúltima): pálido;
Paroxítona (sílaba tônica na penúltima): palito;
Oxítona (sílaba tônica na última): paletó.

Uso dos acentos gráficos:

- Regras básicas (nada muda com a nova reforma ortográfica):

1ª) Proparoxítonas – TODAS recebem acento gráfico:
máximo, cálice, lâmpada, elétrico, estatística, ínterim, álcool, alcoólico…

Observações:
déficit (forma aportuguesada) ou deficit (forma latina = sem acento gráfico);
habitat; sub judice (formas latinas);
récorde (usual, mas sem registro nos dicionários e no Vocabulário Ortográfico da ABL) ou recorde (forma registrada).

2ª) Paroxítonas – Só recebem acento gráfico as terminadas em:

ã(s) – ímã, órfã, ímãs, órfãs;
ão(s) – órfão, bênção, órgãos, órfãos;
i(s) – táxi, júri, lápis, tênis;
us – vírus, bônus, ânus, Vênus;
um, uns – álbum, álbuns, fórum, fóruns;
ons – íons, prótons, nêutrons;
ps – bíceps, tríceps, fórceps;
R – éter, mártir, açúcar, júnior;
X – tórax, ônix, látex, Fênix;
N – hífen, pólen, próton, elétron;
L – túnel, móvel, nível, amável;
ditongos – secretária, área, cárie, séries, armário, prêmios, arbóreo, água, mágoa, tênue, mútuo, bilíngue, enxáguem, deságuam…

Observações:
Não recebem acento gráfico as paroxítonas terminadas em:
a(s) – bola, fora, rubrica, bodas, caldas;
e(s) – neve, aquele, cortes, dotes;
o(s) – solo, coco, sapato, atos, rolos;
em, ens – nuvem, item, hifens, ordens;
am – falam, estavam, venderam, cantam.

Palavras com dupla pronúncia (com ou sem acento gráfico)
Em negrito, está a forma preferencial:

Vejamos alguns exemplos que já aparecem nas mais recentes edições de nossos principais dicionários e no Vocabulário Ortográfico publicado pela Academia Brasileira de Letras.

ACROBATA ou ACRÓBATA
AUTÓPSIA ou AUTOPSIA
BIÓPSIA ou BIOPSIA
BIOTIPO ou BIÓTIPO
BOEMIA ou BOÊMIA
CATÉTER ou CATETER
CRISÂNTEMO ou CRISANTEMO
DUPLEX ou DÚPLEX
HIEROGLIFO ou HIERÓGLIFO
NECRÓPSIA ou NECROPSIA
ÔMEGA ou OMEGA
ORTOEPIA ou ORTOÉPIA
PROJÉTIL ou PROJETIL
TRIPLEX ou TRÍPLEX
XÉROX e XEROX

fonte:
Blog do Professor Sérgio Nogueira

Entre "Leões e Cordeiros"

18 Junho, 2008

Esta mensagem até poderia ter partido de um dos milhares de púlpitos cristãos espalhados pelo mundo, tanto pelo teor apocalíptico quanto pelo tom retórico e desafiador. Afinal, é, a meu ver, o tipo de exortação mais afinado com os propósitos do evangelho: uma tomada de consciência pessoal que se revela em um movimento para fora, em direção à coletividade. O compromisso de negar-se e voltar-se para o outro.

No entanto, talvez para minha vergonha (e/ou para vergonha de muitos), não ouvi a frase que me cativou os sentidos em púlpitos ou sermões televisivos. Tampouco a li em livros. Trata-se do ponto chave de um filme, reconhecidamente um produto da indústria cultural, pleno de paradoxos e intrinsecamente ambíguo.

O filme em questão é o recém lançado “Leões e Cordeiros” (Lions for Lambs, Estados Unidos, 2007), dirigido pelo já septuagenário Robert Redford e estrelado por Meryl Streep, Tom Cruise e pelo próprio diretor. O tema central é a guerra ao terror perpetrada pelo governo dos Estados Unidos. A trama se divide em três narrativas inter-relacionadas: em Washington, uma jornalista (Streep) entrevista um jovem senador republicano (Cruise) cotado como sucessor de George W. Bush; em uma universidade da Califórnia, um professor idealista (Redford) tenta convencer um estudante (o estreante Andrew Garfield) a direcionar seu potencial para causas mais nobres; no Afeganistão, dois soldados (Michael Penã e Derek Luke) lutam pela vida após uma tentativa frustrada de conquistar uma montanha infestada de talebãs.

Os soldados são o fio condutor da estória. Ex-alunos e discípulos “espirituais” de Redford, eles são parte de um esquadrão enviado em uma missão suicida por conta de uma nova estratégia de guerra elaborada pelo jovem senador. Este tenta convencer a jornalista a noticiar o fato como o golpe derradeiro sobre o terrorismo, apesar das desconfianças e do ceticismo dela. A decisão da jornalista é crucial para a decisão do estudante. E assim o ciclo se encerra. Ou quase isso.

“Leões e Cordeiros” não se reduz ao mero entretenimento. Antes, desafia. Não é uma obra memorável no que diz respeito à técnica cinematográfica — poderia muito bem ter sido produzido para a TV. As imagens até auxiliam, mas não dizem lá muita coisa. São as palavras que incomodam. São elas que nos fazem pensar.

Mais do que desferir um golpe certeiro no governo reacionário de Bush, o filme tenta revolver as próprias entranhas do nosso modus vivendi ocidental, embebido em um pragmatismo simplista, um idealismo hipócrita e um pseudo-cristianismo. O filme perscruta os valores e as motivações que movem e alimentam a nossa sociedade e apresenta o resultado de sua análise: somos seres cauterizados, movidos por necessidades que julgamos essenciais e imprescindíveis, mesmo quando não o são. Vivemos em uma sociedade em que reina um tipo de ideologia de classe-média cujo veneno nos entorpece. Buscamos o sucesso financeiro, o consumo desenfreado, o status e o ócio. Não temos tempo para valores do espírito. Não temos, e por vezes nem queremos, esforço de tipo algum. Não queremos agir. Não temos uma missão.

O filme de Redford, tratando de questões específicas da experiência norte-americana, fala do todo, das mais variadas esferas da existência contemporânea. O filme expõe as conseqüências do individualismo moderno e retoma a discussão a respeito do consumismo. Ele atualiza para a ficção a perspectiva que já vinha sendo tratada de forma magistral pelo documentarista Michael Moore (“Tiros em Columbine”, “Roger e Eu”, “Fahrenheit 11/9”). Para Redford, o problema da sociedade atual está intimamente relacionado com o consumismo. E este ponto o filme aborda muito bem. O objetivo da sociedade como um todo seria o de consumir, e consumir cada vez mais. Nossa política, nossa economia e nossa ideologia estariam voltadas tão somente para a satisfação desta necessidade voraz. Despertando o nosso consumismo, nos tornaríamos seres inertes (algo como dar muita comida para uma pessoa já obesa e assim evitar que ela tenha forças para se mover com liberdade). Certamente, esta é uma percepção interessante.

Desde o universitário que se torna descrente e se entrega à curtição, até a jornalista que reluta em denunciar e ir contra a maré, com medo de perder uma carreira de sucesso e tranqüilidade, são as motivações que, definindo a ação, engendram o problema e subvertem a ética. Para o filme, o consumismo entorpece. E se entorpece, gera letargia. E se gera letargia, aniquila a ação e extermina o esforço. E sem esforço, não pode haver vida.

Por se tratar de um filme mais panfletário do que propriamente analítico, “Leões e Cordeiros” nos propõe como solução um retorno à ação, à valorização do esforço, à tentativa de gerar e fortalecer a esperança. Que cada leitor assista ao filme e tire suas próprias conclusões. Mas que as tire. Que se envolva. Que reflita. Em suma, que se esforce.


Eugenio Petraconi é jornalista e membro da Igreja Batista da Redenção, em Belo Horizonte, MG. www.petraconi.com

É isso aí...

Cultive essa amizade

17 Junho, 2008

Jo 20.1-18

Você já esteve numa situação em que não consegue entender o que está acontecendo, e tudo à volta não faz sentido?

Penso que era assim que Maria estava se sentindo. Ela fora embalsamar o corpo de Jesus e encontrou o túmulo vazio, concluiu que o haviam roubado, pois, nada mais fazia-lhe sentido.

Você já esteve numa situação em que não consegue enxergar nada e, depois que a coisa passa, percebe que tudo estava na "cara"?

Dois anjos apareceram para Maria e, depois, o Senhor, e ela não os reconheceu. Ela fora buscar um corpo a ser embalsamado, não estava pronta para encontrar um Deus para ser adorado. Foi derrotada por sua expectativa.

Acho que é assim... A gente fica tão preso na crise que não consegue ver nada que a contradiga; e, aí pode, a exemplo de Maria, vir a chorar diante de algo que nos devia fazer vibrar. Ela não viu a ressurreição por pensar que a morte era a última palavra.

Salvou-a o fato de Jesus (que ela pensava ser o jardineiro) tê-la chamado pelo nome, pois, ao invés de se espantar que um desconhecido soubesse seu nome (o que seria lógico), reconheceu o Mestre. Certamente, não por ouvir seu nome, mas, pela forma como este fora dito, só Jesus o pronunciava daquela forma. Sua comunhão com Jesus a salvou de ser derrotada pela aparente crise.

Só a comunhão com Cristo pode levar-nos a reconhecê-Lo em meio a crise. Só o Senhor pode conduzir-nos para além do limite que equivocadas expectativas impõem, e salvar-nos de sermos derrotados pela crise. Cultive essa amizade; ela o fará ver tudo a partir da ressurreição.
Crise e Cristo.


Ariovaldo Ramos

Do bom uso do relativismo

Hoje pela multimídia, imagens e gentes do mundo inteiro nos entram pelos telhados, portas e janelas e convivem conosco. É o efeito das redes globalizadas de comunicação. A primeira reação é de perplexidade que pode provocar duas atitudes: ou de interesse para melhor conhecer que implica abertura e dialogo ou de distanciamento que pressupõe fechar o espírito e excluir. De todas as formas, surge uma percepção incontornável: nosso modo de ser não é o único. Há gente que, sem deixar de ser gente, é diferente. Quer dizer, nosso modo de ser, de habitar o mundo, de pensar, de valorar e de comer não é absoluto. Há mil outras formas diferentes de sermos humanos, desde a forma dos esquimós siberianos, passando pelos yanomami do Brasil até chegarmos aos sofisticados moradores de Alfavilles onde se resguardam as elites opulentas e amedrontadas. O mesmo vale para com as diferenças de cultura, de língua, de religião, de ética e de lazer.
Deste fato surge, de imediato, o relativismo em dois sentidos: primeiro, importa relativizar todos os modos de ser; nenhum deles é absoluto a ponto de invalidar os demais; impõe-se também a atitude de respeito e de acolhida da diferença porque, pelo simples fato de estar-aí, goza de direito de existir e de co-existir; segundo, o relativo quer expressar o fato de que todos estão de alguma forma relacionados. Eles não podem ser pensados independentemente uns dos outros porque todos são portadores da mesma humanidade. Devemos alargar, pois, a compreensão do humano para além de nossa concretização. Somos uma geosociedade una, múltipla e diferente.

Todas estas manifestações humanas são portadoras de valor e de verdade. Mas é um valor e uma verdade relativos, vale dizer, relacionados uns aos outros, auto-implicados, sendo que nenhum deles, tomado em si, é absoluto.

Então não há verdade absoluta? Vale o every thing goes de alguns pós-modernos? Quer dizer, o "vale tudo"? Não é o vale tudo. Tudo vale na medida em que mantém relação com os outros, respeitando-os em sua diferença. Cada um é portador de verdade, mas ninguém pode ter o monopólio dela. Todos, de alguma forma, participam da verdade. Mas podem crescer para uma verdade mais plena, na medida em que mais e mais se abrem uns aos outros.

Bem dizia o poeta espanhol António Machado: "Não a tua verdade. A verdade. Vem comigo buscá-la. A tua, guarde-a". Se a buscarmos juntos, no dialogo e na cordialidade, então mais e mais desaparece a minha verdade para dar lugar a Verdade comungada por todos.

A ilusão do Ocidente é de imaginar que a única janela que dá acesso à verdade, à religião verdadeira, à autêntica cultura e ao saber crítico é o seu modo ver e de viver. As demais janelas apenas mostram paisagens distorcidas. Ele se condena a um fundamentalismo visceral que o fez, outrora, organizar massacres ao impor a sua religião e, hoje, guerras para forçar a democracia no Iraque e no Afeganistão.

Devemos fazer o bom uso do relativismo, inspirados na culinária. Há uma só culinária, a que prepara os alimentos humanos. Mas ela se concretiza em muitas formas, as várias cozinhas: a mineira, a nordestina, a japonesa, a chinesa, a mexicana e outras. Ninguém pode dizer que só uma é a verdadeira e gostosa e as outras não. Todas são gostosas do seu jeito e todas mostram a extraordinária versatilidade da arte culinária. Por que com a verdade deveria ser diferente?

Leonardo Boff

Dunga, unga...

Calmaria e vendaval

Choro e canto, mato e morro
Corro entre o bem e o mal
Sem querer faço da vida
Calmaria e vendaval
Passarinho e águia brava
Brisa mansa e temporal

Vendo o dia se apagando
Vejo a noite amanhecer
Passo o tempo procurando
Quem me possa responder
Como é que tem quem vive
Sem ninguém por quem morrer

Um caminho a gente encontra
Só questão de procurar
Se uma reta está no céu
Uma curva está no mar
Só não se acha saída
Quando a morte vem levar

Vinícius de Moraes

A terapia contra a inveja

14 Junho, 2008

Quem se alegra com os que se alegram e chora com os que choram, esse é próprio em tudo o que faz, pois, pelo amor, abraçou a realidade; e o fez sem medo, sem inveja, sem amargura, sem rancor, e sem competição. Somente o amor verdadeiro produz essa segurança para ser.

Há pessoas que são capazes de chorar com os que choram, mas não são capazes de se alegrar com os que se alegram. No entanto, para todo aquele que se alegra com a alegria que a outros visitou, o chorar com os que choram é natural.

E por que quem é capaz de se alegrar com a bondade que sobre outros pousou como alegria é também capaz de chorar com os que choram, sendo que o oposto—chorar com os que choram—não necessariamente faz a pessoa ser capaz de se alegrar com os que se alegram?

Ora, é que é mais fácil para os inseguros serem humanos e amigos na tristeza dos outros—realidade que a todos nivela nesta existência—, do que na alegria desses, posto que a tristeza é algo de que todos têm farta experiência nesta vida, mas da alegria verdadeira poucos têm experiência. Assim, chorar com os que choram é mais fácil para qualquer um do que se alegrar com os que se alegram, visto que chorar com os que choram é identificar-se com o que é certo (o sofrimento), mas se alegrar com os que se alegram é ter a capacidade de celebrar o raro, o inusitado e o que não é natural neste mundo de dores.

Todo aquele que é capaz de se alegrar com os que se alegram é também capaz de chorar com os que choram, porém, nem todo aquele que é capaz de chorar com os que choram é também capaz de se alegrar com os que se alegram.

Afinal, quem terá inveja da dor dos doídos? Mas da alegria dos alegres muitos têm grande inveja!

Assim, se você deseja desenvolver boas coisas dentro de você, aprenda a alegrar-se de coração com os se alegram, e, assim, você ficará livre de toda inveja.

Há, todavia, aqueles que “amam” você quando você está sofrendo, e que o “odeiam” quando você está feliz.

Ora, todo aquele que assim sente, é um invejoso em estado de luta permanente contra a sua inveja; daí viver em conflito, e de tal modo, que chorar com os que choram é a dádiva de um certo “melhor do seu coração”; e que acontece, inconscientemente, como camuflagem da inveja que o impossibilita de se alegrar com os que se alegram.

Para o invejoso, mais difícil do que suportar todas as coisas, todos os sofrimentos e todas as privações da vida, é agüentar ver a bondade da graça de Deus se manifestar como alegria no coração de alguém que não seja o dele.

O invejoso é capaz de se vestir de solidariedade quando vê o sofrimento; afinal, para ele, o ser solidário na dor é uma virtude de afirmação sua. No entanto, se alegrar com os que se alegram é uma afirmação feliz acerca da bondade de Deus sobre um outro. E disso somente os que não têm inveja no coração são capazes.

Assim, conforme se vê, a inveja é uma merda, e sábio é todo aquele que de seu próprio coração varre toda inveja para sempre. Mas para que isto aconteça é preciso que a pessoa aprenda a se alegrar em ser quem é, pois, somente assim ela não terá inveja da felicidade de ninguém.

Pense nisto!

Cáio Fábio

Eleições

A poesia-teologia de João da Cruz

12 Junho, 2008

Sou um apaixonado por poesia, acho que já deu pra notar. Quando primeiro comecei a rabiscar minhas canções, no entanto, percebi o quanto estava longe de ser poeta. O tempo, por sua vez, como um autêntico cupido, encarregou-se de aproximar-me de minha paixão.

Minhas primeiras melodias tinham como letras adaptações de temas e de textos bíblicos. Mais adiante, alguns parceiros mais experientes e competentes emprestaram seus talentos para juntos escrevermos melodia e letra.

E foi assim, até que pelos idos dos anos de 1990, trabalhando em uma instituição bancária, descobri uma biblioteca repleta de livros de poesia dos grandes nomes de nossa literatura que podiam ir e vir, pelas agências, pelo malote. Pronto: semana sim, semana não, eu tinha um novo livro nas minhas mãos e podia mergulhar nas águas profundas da imaginação e das novas descobertas.

Depois de alguns meses de leitura, comecei a escrever poesia compulsivamente. Nos guardanapos dos restaurantes, no trem do metrô, no ponto de ônibus. Desde então, atrevo-me não a chamar-me de poeta, mas a dizer que minhas canções têm poesia.

E, como para todo aprendiz de poeta que se preze, João da Cruz (1542-1591), agraciado com o título de Patrono dos Poetas Espanhóis, é nome obrigatório em minha prateleira.

Dedicaria minha admiração e respeito perenes a João só pelo título que lhe foi concedido. Ele, no entanto, foi muito mais que um célebre poeta.

Sua vida dedicada à fé e seus escritos repletos de poesia da mais alta qualidade e de um conteúdo belo e perturbador têm influenciado milhares de pessoas em todo o mundo. Na Índia e no Oriente ele é conhecido como "iogue por excelência". Entre os jovens rebeldes e a geração dos angustiados existenciais, ele é visto como um caminho de superação do relativo. Os monges o procuram como o mestre que, com competência, aponta o caminho para o mergulho no eterno. Líderes de várias religiões encontram nele uma referência, uma sabedoria que explica os muitos fenômenos do espírito humano, que se aventura em busca da transcendência.

Experimentei recentemente um exemplo claro da influência de João da Cruz sobre a cultura espanhola. Minha mulher (doutoranda em arquitetura) e eu fomos almoçar com o professor Horácio Capel, geógrafo espanhol em visita a São Paulo.

Natural de Málaga, professor na universidade de Barcelona, orientador de mais de 80 teses de doutorado e licenciatura, doutor honoris causa por duas universidades e autor de mais de 300 publicações, o professor Capel mostrou-se uma pessoa de rara doçura e sensibilidade. No meio de nossa conversa, mencionei minha paixão pela obra de João da Cruz. Para minha surpresa, o renomado professor citou de cor um de seus versos mais conhecidos:

¿Adónde te escondiste,
Amado, y me dejaste con gemido?
Como el ciervo huiste,
habiéndome herido;
salí tras ti clamando, y eras ido.

No exemplo de vida de João, observa-se a síntese ideal entre contemplação e atividade, vida interior e vida exterior. João é um místico e um poeta que fala de teologia.

João, a exemplo de Teresa, destaca em sua obra o interior da alma como sendo o lugar de encontro entre aquele que busca e Aquele que se faz conhecer. Em oposição ao êxtase, em João valoriza-se o “ênstase”, o entrar dentro de si, despojar-se de si cada vez mais e, nesse despojamento, conseguir-se a total liberdade do corpo e a completa nudez do espírito.

É como a imagem da janela e do sol. Deus é como o sol, que se dá a todos indistintamente. Cada um de nós, por sua vez, é como uma janela. Alguns possuem uma cortina muito grossa que não permite que o sol entre. Uns têm a janela suja, outros a janela empoeirada. Outros ainda têm na janela uns vãos que permitem ao sol entrar só aos pedaços. Limpar a janela não muda a sua natureza. Na janela que está limpa, no entanto, o sol entra com plena liberdade, de modo que ao olhar em sua direção só vemos a luz do sol. A janela já não importa mais.

João da Cruz pertence àquele grupo de homens que, ultrapassando as fronteiras do tempo e da religião, tornaram-se patrimônio da humanidade. E permanecem simples poetas, cujas poesias são citadas de cor, por anônimos, em mesas de restaurante.
Singelos e maravilhosos poetas.

Jorge Camargo

A farinha da tua panela não se acabará

11 Junho, 2008

O profeta Elias estava em algum lugar onde era alimentado pelo que lhe traziam os corvos e bebia da água das torrentes do Querite. Havia seca na terra e Deus o enviou a uma viuva em Sarepta* dizendo que ela o sustentaria. Lá ele encontrou uma mulher em grande dificuldade que não tinha senão um bocadinho para uma última refeição dela e do filho. Quando ela anunciou isso ao profeta, sua resposta foi: Assim diz o Senhor: A farinha da tua botija não faltará, até ao dia em que o Senhor fará chover sobre a terra. Ela alimentou o profeta e sua casa durante muitos dias. A farinha da panela nunca acabou, nem faltou o azeite, como Deus havia dito.

Agora pouco, um homem tocou a campanhia aqui de casa. Ele é um entregador de avisos de cobrança da cia. fornecedora de luz. É um cara cheio de maldade e ultrapassa suas funções de mensageiro. Não é sua primeira visita. Antes de ir embora, fez questão de dizer que o caminhão da cia. virá entre hoje e amanhã para cortar a luz e arrancar o poste com relógio e tudo. Sem dúvida uma visita bem diferente da recebida pela amiga viuva de Serepta.

Esse Elias era mesmo um cara arretado. Além de gostar de grutas, uma peculiaridade que me cativa em uma pessoa, ele não ameaçou a mulher. Tão pouco disse a ela para tratar de sair e ir trabalhar, como se ela fosse uma mentecapta incapaz de pensar algo tão óbvio nessas situações de dureza. Cumpriu o mandato de Deus apenas, foi lá para ser sustentado por ela conforme Deus o orientara. Ele sabia que a providência seria daquele que o enviara. Sua presença naquela casa seria apenas abençoadora, não lhe caberia julgar ou suprir, apenas cumprir. Ele não levou a comida, ajudou-a a receber o que viria dos celeiros divinos.

Gosto da frase que está no versículo 14: “até o dia em que o Senhor fará chover sobre a terra.” Nós não sabemos quando uma situação dessas encontrará sua guinada. Muitas vezes somos chamados a levar conforto e esperança, dois itens pouco consumidos em nossos dias. Se não há consumo, tão pouco consumidores, embora haja demanda.

Tenho andado no limear da grande seca. Essa é a situação de muitos grutenses, sem dúvida. Não sei quando ela acabará para mim ou para você. Não tenham dúvida, tenho feito todas as coisas mais óbvias, tanto quanto qualquer um faria, mas elas simplesmente não funcionam. Talvez você também. Fico tentado a me fechar em meu quarto, jejuar, orar e só sair de lá quando Deus me abençoar. Mas antes que o faça, ele manda um corvo para me lembrar a sua palavra. Grande Deus esse. Mesmo com toda a dificuldade que temos em nos relacionar, Ele insiste em ser nosso Deus.

Não sei como começou a sua semana ou com está a sua vida. Mas a mensagem para nós é essa: “A farinha da tua panela não se acabará, até o dia em que o Senhor fará chover sobre a terra.”

Esse texto teve por base I Reis 17: 2 - 16

Lou Mello

Exemplo de Homem!!!


Do mundo virtual ao espiritual

09 Junho, 2008

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: "Qual dos dois modelos produz felicidade?"
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: "Não foi à aula?" Ela respondeu: "Não, tenho aula à tarde". Comemorei: "Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde". "Não", retrucou ela, "tenho tanta coisa de manhã..." "Que tanta coisa?", perguntei. "Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina", e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: "Que pena, a Daniela não disse: "Tenho aula de meditação!"

Estamos construindo super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: "Como estava o defunto?". "Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!" Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: "Se tomar este refrigerante, vestir este tênis,­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!" O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma su­gestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald’s…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: "Estou apenas fazendo um passeio socrático." Diante de seus olhares espantados, explico: "Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz."


[Autor, em parceria com Luis Fernando Veríssimo e outros, de "O desafio ético" (Garamond), entre outros livros].

Frei Betto

Despedidas necessárias

06 Junho, 2008

Posso até já ter aceitado, mas não tolero a idéia de voltar a subir num palco de show gospel. Já paguei o mico de dar uma “palavrinha” entre um artista e outro e depois me perguntar: “O que foi mesmo que fui fazer ali?”.

Criei verdadeira rejeição aos chavões que, nesses grandes espetáculos, presumivelmente exaltam a glória de Javé. Rostos pingando de suor e mãos levantadas pelo frenesi bem encenado de "levitas" sinceramente vazios, não me impressionam mais.

Tento, mas não consigo entender a utilidade das “marchas para Jesus”. Talvez sirvam para mostrar aos abutres políticos do país, o naco eleitoral que os apóstolos de plantão conseguem juntar. A bem da verdade, nessas marchas, os trios elétricos arrastam os crentes para um carnaval fora de hora. Podem atrapalhar o trânsito do sábado, mas a comunidade gay perceberá que os crentes são numerosos e igualmente espalhafatosos!

Já fui um pastor engomado, mas hoje desdenho dos ternos Armani, das abotoaduras de ouro, dos relógios cravejados de brilhante que compõem o kit dos "servos" de Deus que, com tique nervoso, ajeitam a gravata para mostrar como a “unção” lhes inchou o pescoço.

Rio sempre que me deparo com as estatísticas dos crentes. Li que um evangelista vinha conseguindo “ganhar