Aspersão

31 Maio, 2008

Só as palavras me salvam. Descobri que as palavras me curam. Aprecio prazeres como quem quer continuar vivo. De todos que encontro, poucos me atravessam esteticamente como os que falam, escrevem, traduzem, deliram, pensam, significam ou simplesmente salvam-me de mim: êxtase. Quando tenho fome, desejo quitutes. Cansado, sonho acordado com a cama. Carente, busco em brasa o corpo amante da esposa. Mas doente, desespero por palavras. Devoro Pessoa, Quintana, Adélia, Drummond, Lya Luft, Mia Couto, Rubem Alves, Chico, Lenine, Kierkegaard, Nietzche. Gente que proseia a vida. Gente feita e fazedora de palavras, essas que me arrancam de mim, doente e triste. E se me devolvem a mim, quando me devolvem a mim, livram-me de mim.

Redescobri o evangelho, a boa-notícia bíblica se faz revelando de Deus que é palavra feita gente, verbo encarnado. A novidade luminosa cura o povo que andava em trevas nas réstias das palavras. Jesus é a vida apalavrada, redimida, curada. Verbo generoso. Palavra que sente, abraça, chora, come e bebe, vive e morre, ressuscita e arrebata.

Deus não é gente sem o verbo, humanizar é palavrear. Homem não é gente sem palavras, divina é a palavra, a mais humana delas. Nas palavras encontro Deus, sem que dele mesmo fale. Nelas, acho-me, sem que a mim mesmo explique. Anônimos, livres e voláteis, eu e Deus, tudo e todos. Amantes. Amigos. Amores. Redenção.

Há as palavras que broxam, mordaças do eros.

As que violam, bofetes da ignorância.

Espanto estético, as que enfeiam, tribufus,

falatórios descuidados, mal amadas.

Mas há as palavras falantes,

do sombrio e luminoso,

do incerto e verdadeiro,

inquietas e sossegadas,

da vida, de nós, do mundo de mim mesmo, misterioso e escorregadio, lugar para o divino, para as palavras.

Acordo calado, olhar lúgubre, suspiro de quem carrega a vida como morte. Peso que esmaece as pernas e os braços, quase encerra as pálpebras. Olhos ardidos de angústia. Fico assim bem mais que gostaria de admitir. Até que as palavras me encontram, distraído de tristeza, sussurram por minha atenção. Se olho, ouço. Aos ouvidos, imagino. Se escrevo, como que paridas por mim no papel, na tela, nos nervos. Posso senti-las bombeadas do coração, esparsadas sob a pele, a alma latejando. Aspergido por palavras, já sou outro. Melhor e o mesmo.

Elienai Cabral Junior

Azeite

A vitória sobre o anjo

30 Maio, 2008

Sei o que experimentou Jacó ao duelar com o anjo. Enfrentei-o quando aos meus pés faltou chão e, no horizonte, o sol se apagou aos meus olhos. A escuridão invadiu-me: primeiro engoliu as pernas; em seguida, os braços; depois, todo o meu ser. Por fim, dragão insaciável, tragou-me a identidade.
Mergulhado na noite, partido, perdido, exilei-me em dúvidas. No início, senti-me sugado pelo abismo. Tudo em volta se me evaporou. Fiquei às tontas, em queda livre num poço sem fundo. Todas as minhas certezas se volatilizaram, meu mapa converteu a geografia num hermético labirinto, minhas crenças professaram a negação de toda fé. Cego, viajei numa espiral alucinada, acorrentado à desrazão da insensatez. Sufocava-me o afluxo da vida em despropósito. Náufrago num oceano vazio de águas e limites, ocupei o lugar de Jonas no ventre da baleia.

Não há sofrimento maior do que perder-se de si torturado pelo esplendor da lucidez. Quem me dera, naquela noite escura, fosse eu tomado pela sadia loucura dos atropelos irreversíveis da mente. Quisera, qual demente, estar fora de mim sem a consciência do banimento ontológico. E apoiar-me em qualquer uma das referências que, até então, haviam servido de marco em minha estrada de vida: um sonho, um encantamento, uma idéia compulsiva, um desejo irrefreável, uma crença em forma de sacrário. Ao menos um ruído, como o apito do trem que cortava a minha cidade e, agora, ainda atravessa-me a nostalgia do coração. Ou o cheiro morno do pão de queijo trazido do forno à mesa, a suave elasticidade do polvilho, o aroma adocicado e quente do café.

Nada disso me consolava. Havia apenas o vazio, o vazio, o vazio. O caos primordial, antes que Javé despertasse de seu sono eterno e, distraído, tropeçasse na idéia de criar o mundo.

Deu-se então o início do meu aprendizado. Primeiro, a consciência de que era preciso fazer a travessia. Às cegas. Jogar-me no rio sem a menor noção de quão distante se encontrava a margem oposta. Caminhar rumo ao plexo solar. Desatar os nós. Mergulhar naquele abismo infindável, atirar-me do trapézio com os olhos vendados, empreender a ousada viagem no rumo da morte, apoiado apenas por um fio de esperança: do lado de lá me aguardava, não a morte, e sim a plenitude da vida.

Caminhei na senda escura entre escorpiões e escaravelhos, aranhas e lagartos, a mente assaltada por fantasmas que, nela, suscitavam desde as mais pavorosas fantasias ao hedonismo desenfreado. Desprendida da alma, a imaginação se ensoberbece e cavalga, alada, o carrossel da luxúria. A razão desalinha, as idéias esvoaçam, os propósitos atolam-se na lassidão do espírito fenecido.

É preciso pôr-se de joelhos e, reverente, escutar o silêncio. Como Elias, não aguardar o trovão, o rugir dos ventos, a voracidade flamejante do fogo. Apenas a brisa suave, assim como o navegador, finda a borrasca, recebe contente a chegada da calmaria. Mas isso custa. Isso é inesperado, indescritível, mistérios dos mistérios. Para chegar lá, urge amansar leões, enfrentar dragões, conviver, destemido, no ninho das serpentes. E saber perder. Vão-se as ilusões, as máscaras; vai-se aquele outro que insiste em se disfarçar de eu. No fogo tímido da lenha úmida, todas as falsas verdades são lentamente queimadas. Então, instaura-se a nudez. É a hora da vertigem.

No duelo com o anjo, apenas na hora da vertigem me dei conta de que não brotava de minhas forças o ímpeto que me fazia atingir a terceira margem do rio. Alguém soprava o vento que inflava as velas de meu barco. Alguém movia as águas. Essa consciência de que uma estranha energia me impelia sem que eu pudesse identificá-la, tornou-se progressivamente aguda. Sim, minha vontade havia dado o primeiro passo; minha razão denunciara, insistente, a insensatez da travessia; meus atavismos resistiram a abandonar a margem de origem.

Havia, porém, um outro fator que só percebi ao perder de vista a margem que deixara sem, no entanto, vislumbrar a oposta. A queda transmutou-se em ascensão; o abismo, em montanha; a vertigem, em enstase. (Atenção editor: o termo, teológico, é este mesmo, enstase, e não êxtase)

O anjo depôs armas, afastou-se da porta do Éden e deixou que Ele se me apossasse. Fiquei visceralmente apaixonado. Tudo em mim e à minha volta transluzia amor. E nada me atraía mais fortemente do que perder tempo na alcova. Outra coisa eu não pensava nem queria ou desejava do que sentir-me abrasado de amor. As entranhas queimavam; o peito ardia em febre; a mente, calada, observava a razão tragada pela inteligência. Eu me encontrava em alguém fora de mim que, no entanto, se escondia no recanto mais íntimo do meu ser e, de lá, projetava a sua luz sem se deixar ver ou tocar.


[Autor, em parceria com Leonardo Boff, de "Mística e Espiritualidade" (Garamond), entre outros livros].

Frei Betto

Poderes contrários


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Um remédio para a exaustão interior

29 Maio, 2008

Quando esta exaustão interior me assalta, minha vontade é de jogar tudo para cima.

Ao longo de minha vida, algumas vezes me deparei com um estranho sentimento de exaustão interior. Nestes momentos, fui tomado pela consciência de minha completa incapacidade em corresponder às expectativas das pessoas em relação a mim. Sinto-me sem condições de atender às necessidades dos que freqüentam minha igreja; às demandas daqueles que esperam que eu possa falar numa conferência ou escrever um artigo; às cobranças dos amigos que me ligam chateados porque esqueci a data de um aniversário – sem falar, claro, das pressões geradas numa família com dois filhos adolescentes e uma pré-adolescente. Então, sou tomado pelo desânimo em relação aos desafios que me cercam e pelo desejo de não ter tantos compromissos diante de outros.
Quando esta exaustão interior me assalta, minha vontade é de jogar tudo para cima. Fico sonhando com a possibilidade de abrir mão de todas as responsabilidades, procurar um chalé numa região bem distante e viver ali por algum tempo. Minha única vontade é a de voltar-me para o cuidado do meu próprio coração, lidando com as minhas próprias demandas interiores – coisa singelas, como o silêncio, a solitude, a leitura e a oração. Sei que muitos pensam que um cristão não deveria sentir-se assim e um pastor não poderia falar assim. No entanto, tenho que decepcionar os crentes-ETs de plantão lembrando que, se Papai Noel realmente não existe, também não é menos verdade que pastores honestos e cristãos sinceros enfrentam, sim, seus dias de exaustão. E esses sintomas em muito se assemelham à própria depressão.
Diante desta tal exaustão interior e da impossibilidade de jogar tudo para cima, acabo caminhando alguns dias em reflexão e oração, os quais me levam a uma conclusão. O problema, antes de residir nas expectativas daqueles que me cercam ou nas pressões delas decorrentes, são, geralmente, fruto ou de meu descuido em viver, dia após dia, dependendo da minha própria potencialidade, ou de um equívoco – o de colocar minha confiança de realização em projetos e relacionamentos que jamais poderão me oferecer o que somente Deus tem para me dar.
Bernardo de Claraval, monge francês que viveu entre os séculos XI e XII, disse que tudo o que somos e fazemos deve ser fruto não de nossas próprias reservas, mas do transbordar da água viva que Jesus derrama em nossas vidas. Podemos, assim, dedicar-nos a algo sem nos exaurirmos; dar-nos sem nos esgotarmos; cuidarmos de outros sem cometer o equívoco de não cuidarmos de nós mesmos. Se, contudo, abandonamos esta relação constante com a pessoa de Cristo, fechamo-nos para a fonte que abastace o nosso reservatório interior e deixamos de receber a água viva que emana do Pai. No entanto, a falta de conexão com a fonte primária da água viva nos conduzirá, mais cedo ou mais tarde, à sequidão.
Essa dimensão de vazio interior foi comparada por Jesus, quando do memorável diálogo com a mulher de Samaria, com a sensação humana da sede. Ela não sabia, mas tinha diante de seus olhos aquele capaz de saciar a sede existencial que existe dentro dos corações de homens e mulheres. Sede de sentido para vida, sede de sentir-se valorizado ou amado por alguém. Um de nossos grandes erros, humanos que somos, é o de tentar lidar com o sentimento de vazio interior que insiste em nos acompanhar ao longo da vida através de conquistas. Queremos acumular coisas, ser amados pelos outros, atingir grandes realizações; enfim, queremos ser felizes com a vida.
O profeta Jeremias registrou a contenda de Deus contra seu povo Israel apontando os mesmos equívocos nos quais hoje ainda incorremos: “O meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram a mim, a fonte de água viva; e cavaram as suas próprias cisternas, cisternas rachadas que não retêm água” (Jeremias 2.3). Logo, quando colocamos nossa esperança ou buscamos a realização em qualquer outra fonte que não seja o próprio Pai, corremos o risco de buscar a água onde ela simplesmente não existe. Conhecedor do coração humano, Jesus nos convida, de forma simples e prática, a uma solução: “Quem tem sede, venha a mim e beba”. Ele próprio se apresenta como a única fonte capaz de saciar nossa sede existencial. Neste caso, estamos falando da importância de estarmos constantemente na presença do Senhor, bebendo da água viva que somente Cristo pode nos oferecer. Somente assim, seremos reservatórios que, repletos de água, transbordam a ponto de irrigar a vida daqueles que nos cercam.
Assim, termino com uma confissão. Muitas vezes, a exaustão interior que me assalta é decorrente do meu descuido de viver a partir de mim mesmo, ou do equívoco de buscar nos projetos e nos relacionamentos o que somente em Jesus posso ter. Por isso, quando tomado pelo sentimento de cansaço, me aquieto na sua presença e volto a escutar o convite amoroso e paciente para beber da água que somente Ele pode me oferecer. É esta água viva que nos capacita a renovar nossas forças físicas e emocionais, bem como a nos libertar das buscas infindáveis que drenam nossas energias e nos fazem reféns de nossos próprios anseios. Somente assim, como diz a Escritura, fluirão rios de nosso interior. Rios da mais pura água – a água da vida.

Ricardo Agreste

Aquecimento Global

Uma criatura

Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira do abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto arealum vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto,
E é nesse destruir que as suas forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida;
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a morte; eu direi que é a vida.

Machado de Assis

Tratando a língua

1ª) Décimo terceiro OU décimo-terceiro?
Salário mínimo OU salário-mínimo?

Décimo terceiro, seja o numeral ordinal seja o substantivo referente ao pagamento que os trabalhadores recebem no fim de ano, deve ser escrito sem hífen: “Chegou em décimo terceiro lugar”; “Ontem todos os empregados receberam o décimo terceiro”.
Salário mínimo é aquele salário que o governo estabelece como o menor possível a ser pago a um trabalhador: “O governo ainda não estabeleceu qual será o valor do salário mínimo a partir de abril”.
Salário-mínimo, com hífen, é aquele que recebe salário mínimo: “Ele é um salário-mínimo”.


2ª) Blitze OU blitzen OU blitzes?

Temos aqui uma palavra de origem alemã. Se for considerada palavra da língua portuguesa, deve seguir nossas regras de formação de plural: palavras terminadas em “z” fazem plural com o acréscimo de “ES”: feliz – felizes, rapaz - rapazes; avestruz – avestruzes; giz – gizes; blitz – blitzes…


3ª) Dia seguinte à OU da final?

Tanto faz. As duas formas são corretas e aceitáveis: “Só deu entrevista no dia seguinte à final OU no dia seguinte da final”.


4ª) “Piscineiro” existe OU não existe?

É lógico que existe. É assim que nos referimos àquele profissional que cuida de piscinas.
O fato de a palavra ainda não aparecer registrada em nossos dicionários não significa que ela não exista. O que faz uma palavra existir é o seu uso. Importante é que a palavra nova seja criada dentro dos nossos padrões gramaticais. O uso do sufixo “-eiro”, para designar “atividade profissional”, é normal: ferreiro, mineiro, tesoureiro, banqueiro, marceneiro, serralheiro, funileiro…
Assim sendo, piscineiro é corretíssimo.


5ª) Passo a passo OU passo-a-passo?
Dia-a-dia OU dia a dia?


Depende.
Sem hífen, são expressões adverbiais: “Seguiu passo a passo o que ensinava o manual”; “Seus problemas crescem dia a dia”. “Passo a passo” significa “de modo vagaroso, lentamente”; “dia a dia” significa “diariamente, dia após dia”.
Com hífen, são formas substantivadas: “Devemos seguir o passo-a-passo indicado pelo manual”; “Eles gostam muito do nosso dia-a-dia”. “Dia-a-dia” é o mesmo que “cotidiano”.


6ª) Protocolado OU protocolizado?

Tanto faz.
O ato de “registrar em protocolo”, originariamente era somente PROTOCOLIZAR: “Os documentos foram devidamente protocolizados”.
PROTOCOLAR originariamente era somente um adjetivo: “São exigências protocolares” (= exigências do protocolo).
Hoje em dia, porém, PROTOCOLAR pode ser usado como verbo, sinônimo de PROTOCOLIZAR. Assim sendo, podemos dizer que “os documentos foram devidamente PROTOCOLIZADOS ou PROTOCOLADOS”.


7ª) Tunisiano OU tunisino?

Depende.
Quem nasce na Tunísia é tunisiano; quem nasce em Túnis ( = capital da Tunísia) é tunisino.
É semelhante aos casos de paulista (estado de São Paulo) e paulistano (cidade de São Paulo), de carioca (cidade do Rio de Janeiro) e fluminense (estado do Rio de Janeiro).

fonte: Blog do Professor Sérgio Nogueira

Mistério

27 Maio, 2008

O caminho é o da zona norte de Paris. Conto os minutos até chegar ali. Na manhã preguiçosa de domingo do alto verão parisiense, na saída da estação de metrô mais próxima, a visão é cosmopolita: no mercado a céu aberto, um retrato da típica mistura de raças e ínguas, cores e tons, tão comum às periferias discriminadas e esquecidas no fundo do quintal de um canto qualquer das grandes metrópoles do mundo.

Mais alguns quarteirões, uma tomada à esquerda e eis que surge, imponente, um enorme santuário. A visão interior de seus arcos góticos é impressionante: eles são como bocarras escancaradas, prontas para engolir-me, insignificante criatura, por entre suas gargantas sem fundo, imensas e aterradoras. O percurso do gesto antropofágico, no entanto, ao contrário do que determina a lei da gravidade, é para cima. Elas parecem ter sido feitas com o intuito de transportar suas vítimas por um túnel extenso e escuro que as leve na direção do grande e insondável mistério. Mistério que a profundidade impressionante daqueles arcos múltiplos convida-me a reverenciar.

A basílica, antiga e bela, palco das cerimônias de coroação dos monarcas franceses e onde se encontram os túmulos de muitos deles, foi construída em honra a São Dionísio, patrono da nação francesa. A história desse personagem ilustre do cristianismo está cheia de detalhes pitorescos. Durante muito tempo se creu que ele teria sido Dionísio, discípulo de Paulo, convertido por ocasião da famosa pregação do apóstolo no Areópago em Atenas, registrada no livro de Atos dos Apóstolos. Da Grécia, Dionísio teria partido para a França onde se tornou um grande líder, foi decapitado no Monte dos Mártires (Montmartre), após sua execução teve seu próprio tronco erguido com a ajuda de anjos, caminhou, levou a própria cabeça nos braços por duas milhas até o local onde tombou e foi sepultado, no terreno onde foi erguida a basílica, em honra a Saint-Denis. O tempo se encarregou de mostrar que o personagem reverenciado poderia ter sido outra pessoa, outro Dionísio.

Um conjunto de textos sagrados de grande influência na idade média também foi atribuído a Dionísio, o Areopagita. O conteúdo deles, no entanto, demonstra conceitos que surgiram bem depois do primeiro século e que, portanto, não poderiam ter sido escritos por um cristão daquele período. Eles têm sido, desde então, atribuídos a um monge sírio, também de nome Dionísio, do século VI. A canção "Mistério" foi inspirada em um destes textos, a obra "Dos Nomes Divinos".

Eu não vou me aventurar a fazer teologia. Não sou teólogo. Mas, a exemplo de muita gente, vivo, penso, repenso, sonho, reflito sobre a vida cotidiana e sobre coisas que estão além de mim e de meu tempo. Pondero sobre a beleza que enxergo nas artes, na infinita variedade e diversidade da natureza, na complexidade e sensibilidade de homens e de mulheres sobre quem leio, ouço falar e com quem convivo. E isso tudo me faz pensar em Deus. Logo, me faz fazer teologia. E assim, do pensamento em Deus às reflexões de Dionísio, depois de constatado o fato de que ele não era o discípulo cristão do primeiro século, mas sim outro do início do VI (o que importa?), é um pulo.

Em "Dos Nomes...", Dionísio afirma que Deus não pode ser expresso em palavras. Eu então olho ao meu redor, e me pergunto sobre as milhares de placas de igreja dependuradas por toda parte em grandes e pequenas cidades, algumas delas alardeando, por meio de definições claras, todos os atributos divinos, suas estratégias de ação no mundo, seus sentimentos e pensamentos, definidos e fechados, racionais e objetivos.

Diante delas, a literatura de Dionísio me consola. Alguém perdido no tempo, em uma época em que Deus era o centro de tudo, para o bem e para o mal, pensa a seu respeito com reverência – não o respeito por medo, mas a constatação de uma grandeza indescritível por qualquer linguagem humana e que nos convida, diante da visão ainda que pálida e difusa do grande Mistério a olhar pra vida com a mesma reverência e o mesmo respeito daqueles que diante das muitas representações do divino se apavoram. Só que sem medo. E o nobre líder e eu nos conectamos.

Tempo e espaço não são obstáculos ao nosso diálogo. Tornamo-nos amigos de jornada, companheiros de ignorância, parceiros no desconhecimento, colaboradores mútuos na coragem e no encantamento diante da beleza desse Mistério.

(Trecho do livro Somos Um - 108 p. Grapho Editores Associados, para comprar)

Jorge Camargo

Protestos

Corpus Christi

23 Maio, 2008

Tenho medo de morrer e ir para o céu. Eu me sentiria um estranho por lá. A Cecília Meireles pensava o mesmo. E se perguntava se, “Depois que se navega, a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barca, nem gaivota: somente sobre-humanas companhias...“. Também eu preciso de barcas e gaivotas, pois amo o mar e o ar. Sou um ser deste mundo e sinto que no meu corpo moram rios, árvores, montanhas e nuvens. Nenhum mundo além poderá consolar-me da sua perda. É certo que um espírito, por bem-aventurado que seja, não pode sentir o cheiro bom do capim gordura (que recém começa a florescer roxo nos campos). Para isso ele teria de ter um nariz. E nem pode sentir o vento frio das tardes de inverno, a lhe golpear o rosto. Ao que me parece, espíritos não têm pele. E (pobres) não podem jamais sentir o prazer de mergulhar no mar. Esta alegria animal está vedada aos espíritos, seres etéreos que, ao que consta, não sofrem os efeitos da gravidade (ou da gravidez). Sua leveza os protege de quedas de muros, mas lhes tira a alegria do mergulho. Saltam, e ficam flutuando no espaço.

Amo este mundo. Por isso não quero ir para o céu. Nietzsche sentia o mesmo. E até sonhou com o “retorno eterno“ - voltarei sempre a este mesmo lugar, o único que conheço, das coisas materiais do cotidiano, que vão desde o café com leite e pão com manteiga, pela manhã, até a música de Bach e os céus estrelados, à noite. Isto, para não se falar nos prazeres do amor, que não podem subsistir sem o corpo. Pois precisam do encanto dos olhos que dizem: “Como é bom que você existe...“. E do olfato, que percebe desde o “brabo cheiro bom de suor e graxa“, a que Adélia Prado se refere, até o perfume de pêssego maduro que vem da flor do imperador, tão discreta, e que Guimarães Rosa declarou ser a mais querida. E os ouvidos? As serenatas (antigas), o “eu te amo“ (eterno), os poemas - são todos seres materiais, que não existem sem a física da fala. Não posso imaginar um som espiritual, embora se diga que os querubins tocam harpas e cantam. Sons precisam de bumbos, trombones, violinos, dedos, sopro, corpo: são coisas físicas, corpóreas. E fico preocupado com o destino de Bach e Beethoven, espíritos nos céus, para sempre separados dos bons instrumentos da terra onde tocaram a sua música.

Por isso me alegrei com esta festa de nome latino, Corpus Christi, em que a cristandade comemora, teimosa e inconsciente, o corpo de Cristo. Fosse a celebração da sua alma, confesso que fugiria. Almas do outro mundo, boas ou más, são assombrações que causam medo. Sei que há um dia que as celebra, o dia de “todas as almas“, também chamado de dia de todos os santos, logo antes de finados. O que combina muito bem. A alma começa quando o corpo termina. Parece que acreditavam que as almas vagavam, penadas, por este mundo (dia das bruxas!), sofrendo e assombrando os vivos - que, neste dia, faziam orações por sua eterna salvação nos céus, deixando livre a terra para as coisas materiais e boas que nela moram. Mas este dia, Corpus Christi, a se acreditar na tradição, diz que Deus, cansado de ser espírito, descobriu que o bom mesmo era ter corpo, e até se encarnou, segundo o testemunho do apóstolo. Preferiu nascer como corpo, a despeito de todos os riscos, inclusive o de morrer. Porque as alegrias compensavam. E nasceu, declarando que o corpo está eternamente destinado a uma dignidade divina. Curioso que os homens prefiram os céus, quando Deus prefere a terra. Lembro-me do espanto do chefe índio que escrevia ao presidente dos Estados Unidos e dizia não poder compreender as razões que levavam os brancos a desejar, depois de mortos, ir morar num lugar muito longe da terra. Nós, ele dizia, precisamos do perfume dos pinheiros, do barulho da água, dos riachos, do cintilar da luz sobre a superfície dos lagos. Corpus Christi: divino é o pão e toda a terra onde cresceu, com a água que o fez germinar, e o vento que o acariciou, e o fogo que o cozeu. Divino é o vinho, alegria pura que dá asas ao corpo e o faz flutuar. Coisas do corpo: dentro dele cabe o universo. Não é à-toa que a tradição fala não em imortalidade da alma mas em ressurreição do corpo. Afirmação de que a vida é bela e o divino se encontra nas coisas materiais mais simples. Como dizia Blake: “Ver a eternidade num grão de areia“. Ou Fernando Pessoa: “Toda matéria é espírito“. E assim, como e bebo as coisas deste mundo, corpo de Deus...

Rubem Alves

Cavalos de fogo

21 Maio, 2008

Observo a conjuntura mundial, a alta do preço dos alimentos, a fissura dos governantes teimando em abastecer veículos e não bocas, enfim, o cruel manuseio do poder, e este aberrante paradoxo: a ONU clama por US$ 2 bilhões para socorrer as vítimas da fome (854 milhões de pessoas), enquanto os EUA gastam na invasão do Iraque meio trilhão do dólares, segundo relatório do Serviço de Investigação do Congresso (CRS, sigla em inglês).
Recordo-me da queda de Faetonte, personagem de uma das narrativas paradigmáticas da mitologia grega. Filho do Sol, o jovem Faetonte, tomado pela inquietação própria à idade, viu-se desafiado a provar sua ascendência divina e dirigir o carro do pai.

Ao apresentar-se no palácio de Hélio, Faetonte aproximou-se do trono onde o deus-sol reinava cercado de seu séqüito: o Dia, o Mês, o Ano, o Século e as Horas. Em volta, a Primavera com a sua coroa de flores; o Verão coberto de espigas de cereais; o Outono com sua cornucópia repleta de uvas; e o Inverno com seus cabelos brancos como a neve.

Faetonte exigiu do pai uma prova de amor. Hélio prometeu atender-lhe tão logo manifestasse um pedido. Logo se arrependeu ao ouvir o filho expressar o desejo de trazer em mãos as rédeas do carro guiado por quatro cavalos incandescentes que expeliam labaredas e, graças aos ventos, disseminavam a luz e o dia por toda a Terra.

Hélio julgou absurdo o pedido do filho. Como confiar a um jovem imaturo o carro capaz de impedir o mundo de viver mergulhado nas trevas? Retrucou-lhe:

- Ó, filho, quisera eu poder voltar atrás em minha promessa! Pede-me algo que está além de suas forças. Você é jovem e mortal; almeja mais do que outros deuses são capazes de obter. Nenhum deles logra equilibrar-se sobre o eixo incandescente. Íngreme é o caminho de minha carruagem, só com muito esforço meus cavalos, ao amanhecer, conseguem galgá-lo. O meio do caminho é alto, no centro do Céu. E no final o caminho declina abruptamente, exige uma condução segura, para que não mergulhe o carro nas profundezas do mar. Lembre-se de que o Céu se move num ímpeto constante, e é preciso viajar em sentido contrário a esse movimento. Como você haveria de conseguir isso? Volte atrás em seu pedido. Peça o que quiser, todas as riquezas do Céu e a da Terra, menos isso.

O rapaz não arredou pé, convencido de que seria capaz de dissipar as trevas que encobrem o mundo. Ao ver que a Aurora já se aproximava para inaugurar um novo dia, Hélio concordou que o filho o acompanhasse na carruagem. Faetonte, entretanto, insistiu em guiá-la sozinho. Um das Horas, nervosa, alertou o deus solar:

- Hélio, é hora de atrelarmos os corcéis de fogo ao carro. Veja, a Aurora já está a caminho. Urge que seu carro flamejante siga atrás.

Como todo pai fraco de caráter, o rei abriu mão de seus princípios para não contrariar o filho. Frente à insistência do jovem, cedeu ao coração em detrimento da razão.

Faetonte subiu no carro e conduziu os cavalos a galope pela linha etérea que os manteria eqüidistantes da Terra e do Céu, de modo a não incendiar as moradas dos homens e dos deuses. Rédeas nas mãos, sentiu-se senhor do mundo, cuja luz provinha de seu carro flamejante. Contudo, o brilho das labaredas turvaram-lhe os olhos e a mente. Não conseguiu manter o equilíbrio da carruagem. Os cavalos puxavam mais que a força de suas mãos. Desabalados, mergulharam em direção à Terra. Ao passar por montanhas cobertas de neve, o calor do carro as derreteu, o bafo dos animais incendiou cidades e calcinou países, fez arder florestas, secar os rios e os mares.

Zeus, indignado, atirou um de seus raios e despedaçou o carro, dispersando os cavalos. O corpo de Faetonte, com os cabelos em chamas, caiu como uma estrela cadente. As náiades o depositaram num túmulo, em cuja lápide gravaram este epitáfio: "Aqui jaz Faetonte. Na carruagem de Hélio ele correu; e se muito fracassou, muito mais se atreveu".

O pecado de Adão e Eva consistiu em comer o fruto do conhecimento do Bem e do Mal - quiseram equiparar-se a Deus. Só Ele sabe discernir com nitidez esses dois pólos, e é a adequação de nossa vontade à Dele que nos permite fazer a "Sua vontade assim na Terra como no Céu." Fora disso, somos conduzidos, às cegas, pelos cavalos de fogo de nossas atrevidas pretensões. Com grave prejuízo aos nossos semelhantes e à Mãe-Terra.

Frei Betto

[Autor de "Sinfonia Universal - a cosmovisão de Teilhard de Chardin" (Ática), entre outros livros].

Tripla ação

Tratando a língua

Eternas dúvidas de concordância

1ª) Houve OU houveram erros?

Se “houveram erros” é porque HOUVE mais erros do que se imaginava.
O verbo HAVER, no sentido de “existir ou acontecer”, é impessoal (sem sujeito), por isso deve ser usado somente no singular: “Há muitas pessoas na reunião”; “Havia mais convidados que o esperado”; “Haverá muitos candidatos no próximo concurso”; “Ainda haveria alguns problemas para serem resolvidos”; “HOUVE erros”…

2ª) Nos nossos planos não estão OU não está o atacante?

A regra básica de concordância verbal manda o verbo concordar com o sujeito. No caso, quem não está nos nossos planos é o atacante. Isso significa que o sujeito (o atacante) está no singular. A concordância correta, portanto, deve ser feita no singular: “Nos nossos planos não ESTÁ o atacante”.
Esse tipo de erro acontece com muita freqüência quando o sujeito está invertido (depois do verbo): “ACONTECERAM (e não “aconteceu”) dois acidentes nesta esquina”; “SURGIRAM (e não “surgiu”), após muitas discussões, duas propostas para resolver o problema”; “SEGUEM ANEXAS (e não “segue anexo”) as notas fiscais”; “ESTÃO FALTANDO (e não “está faltando”) cinco minutos para acabar o jogo”.

3ª) O grande segredo é OU são as jogadas ensaiadas?

O verbo SER pode concordar com o sujeito ou com o predicativo. Assim sendo, as duas possibilidades são corretas e aceitáveis. Há, porém, uma visível preferência pelo plural: “O maior problema do Rio de Janeiro SÃO as chuvas”; “A prioridade do governo SÃO os pobres”; “A última esperança do Vasco SÃO os dois atacantes”; “O grande segredo SÃO as jogadas ensaiadas”.

4ª) O ataque de hoje é OU são…?

É o mesmo caso anterior. Entre o singular e o plural, a concordância preferencial para o verbo SER é no plural: “O ataque de hoje SÃO Leandro Amaral, Dodô e Washington”.

5ª) Não é OU sou eu que vou dizer isso?

A locução enfática “é que”, a princípio, é invariável: “Eu é que disse isso”; “Nós é que resolvemos o caso”; “Eles é que escolheram a data da reunião”.
Quando o verbo SER é colocado antes do pronome pessoal, é correto e aceitável que concorde com o pronome: “FUI eu que disse isso”; “FOMOS nós que resolvemos o caso”; “FORAM eles que escolheram a data da reunião”; “SÃO eles que vão assinar o contrato”; “Não SOU eu que vou dizer isso”.

6ª) Eles já têm idade para fazer o que quiser OU quiserem?

A concordância correta é “Eles já têm idade para fazer o que QUISEREM”.
Alguns autores consideram a concordância facultativa quando o sujeito do infinitivo está oculto e é o mesmo da oração principal: “Eles já têm idade para FAZER ou FAZEREM o que quiserem”. A maioria dos estudiosos, porém, afirma que, nesse caso, a concordância deve ser no singular (uso do infinitivo não flexionado): “Eles já têm idade para FAZER o que quiserem”; “Os advogados foram chamados para ANALISAR o contrato”; “Os diretores estão aqui para ASSINAR o contrato”; “Eles foram convocados para RESOLVER os problemas”.
No caso de QUISER ou QUISEREM, o problema é outro. Embora terminem em “r”, QUISER, FIZER, DISSER, PUSER, FOR, TIVER… não são formas do infinitivo. São do futuro do subjuntivo. Em razão disso, a concordância com o sujeito (oculto ou não) é obrigatória: “ELES já têm idade para fazer o que (eles) QUISEREM”.

O céu não é a questão

20 Maio, 2008

O quadro tradicional de pessoas que vão para o céu ou para o inferno como uma jornada pós-morte, com um estágio de duração, representa uma séria distorção e diminuição da esperança cristã.

Não há acordo na Igreja hoje em dia sobre o que acontece com as pessoas quando morrem, embora o Novo Testamento seja claro sobre o assunto. Paulo fala da “redenção do nosso corpo” em Romanos 8.23. Não há espaço para dúvidas sobre o que ele quer dizer: ao povo de Deus é prometido um novo tipo de existência corporal, a completude e redenção da nossa vida corporal presente. O resto dos primeiros escritos cristãos, onde este assunto é abordado, estão em completa sintonia com isto.

O quadro tradicional de pessoas que vão para o céu ou para o inferno como uma jornada pós-morte, com um estágio de duração, representa uma séria distorção e diminuição da esperança cristã. A ressurreição do corpo não é nada diferente desta esperança – é o elemento que dá forma e significado ao resto da história dos últimos propósitos de Deus. Se resumida, como muitos têm feito, ou até deixada de lado, como outros fizeram explicitamente, perde-se esta visão extra, uma espécie de “peça central” da fé, que a faz funcionar. Quando falamos com precisão bíblica sobre a ressurreição, descobrimos uma base excelente para um trabalho cristão criativo e vivo no mundo presente, e não, como alguns supõem, mero escape ou devoção sacrificial.

Enquanto o paganismo greco-romano e o judaísmo possuíam uma grande variedade de crenças sobre vida após a morte, os primeiros cristãos, a começar por Paulo, eram memoravelmente unânimes acerca do tema. Quando Paulo fala, em Filipenses 3, sobre a “cidadania dos céus”, o apóstolo não quer dizer que vamos nos aposentar na eternidade após terminar nosso trabalho aqui. Ele diz na linha seguinte que Jesus virá dos céus para transformar nossos corpos humilhados do presente em um corpo glorioso como o seu. O Senhor fará isto através do seu poder, já que tudo está sob o seu domínio. Esta declaração contém, em suma, mais ou menos o que Paulo pensa sobre o assunto. Jesus ressurreto é tanto o modelo para o corpo futuro dos cristãos como a forma pela qual este corpo chegará.

O corpo ressurreto de Jesus, que para nós é quase inimaginável neste momento em toda a sua glória e poder, será o modelo para o nosso próprio corpo. Mas a passagem mais clara e forte é a de Romanos 8.9-11. Se o Espírito de Deus habita em alguém, então aquele que ressuscitou a Cristo dentre os mortos dará vida a seu corpo mortal.

Outros escritores do Novo Testamento apóiam essa idéia. A primeira carta de João declara que, quando Jesus aparecer, seus servos se tornarão como ele, pois o verão como é. Cristo reafirma a ampla expectativa dos judeus sobre a ressurreição no último dia e anuncia que a hora já havia chegado: “Eu lhes afirmo que está chegando a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e aqueles que a ouvirem, viverão”. De outra feita, garante: “Não fiquem admirados com isso, pois está chegando a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão – os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados”.

É claro que haverá uma futura completude envolvendo a última ressurreição. A compreensão teológica em Lucas não deixa dúvidas, sobretudo no que se refere à passagem do ladrão da cruz – aquele que ouviu do Salvador as seguintes palavras: “Hoje, estarás comigo no paraíso”. Lucas deve ter compreendido tal afirmação como uma referência a estar na eternidade. Com Jesus, a esperança futura chega ao presente. Para aqueles que morrerem na fé, antes do acordar final, a promessa central é estar com Jesus de uma vez. “Meu desejo é partir e estar com Cristo, o que é muito melhor”, disse Paulo.

Aqui precisamos discutir o que Jesus quer dizer quando declara que “há muitas moradas” na casa de seu Pai. Tal descrição tem sido muito utilizada, não só no contexto de perdas para dizer que os mortos (ou pelo menos os cristãos que partem) simplesmente irão para o céu permanentemente, ao invés de serem ressuscitados subsequentemente para uma nova vida corpórea. Mas a palavra “moradas” – monai –, é regularmente usada no grego antigo não para designar um lugar de descanso final, mas para um local temporário, em uma jornada que levará a outro lugar no final. Isto se encaixa às palavras de Jesus para o criminoso na cruz: “Hoje você estará comigo no paraíso”. Apesar de uma longa tradição de erros na leitura, “paraíso”, aqui, não significa o destino final, mas um jardim, uma terra de descanso e tranqüilidade, onde os mortos encontram refrigério enquanto esperam pelo fim do novo dia.

A questão principal da frase está no aparente contraste entre o pedido do criminoso e a resposta de Jesus: “Lembra-te de mim quando entrares no teu Reino”, o que significaria que isso seria num tempo distante no futuro. Contudo, a resposta de Jesus traz a esperança futura para o presente, significando que com a sua morte, o Reino de Deus é chegado, apesar de não parecer nada com aquilo que as pessoas imaginavam. Tal certeza é sintetizada na sua célebre frase: “Hoje você estará comigo no paraíso”.

A ressurreição então aparecerá com o significado da palavra no mundo antigo, quando não era uma forma de falar sobre a vida depois da morte. Era uma forma de referir-se sobre uma nova vida do corpo após quaisquer estados de existência as pessoas entrariam com a morte. Era, em outras palavras, a vida após a vida após a morte. O que dizer então sobre passagens como I Pedro 1, que fala sobre a salvação que está “guardada nos céus”, para que no presente creia que receberá “a salvação de suas almas”? O Cristianismo ocidental nos dirige em uma direção equivocada. A maioria dos Cristãos hoje, ao ler uma passagem como esta, assume que o significado seja que o céu é aonde você vai para receber esta salvação, ou até, que a salvação consiste em “ir para o céu quando você morre”.

A forma como agora compreendemos a linguagem no mundo ocidental é completamente diferente do que Jesus e seus ouvintes compreendiam e significavam. Para começar, o céu é na realidade uma forma reverente de falar sobre Deus, portanto as “riquezas do céu” significam simplesmente “as riquezas da presença de Deus”. Mas, por derivação deste primeiro significado, o céu é o lugar onde os propósitos de Deus para o futuro estão armazenados. Não significa o local onde eles devem ficar e, portanto, você deve ir até lá para aproveitá-los. É onde estão guardados até o dia em que se tornarão realidade na terra. A herança futura de Deus, o novo mundo incorruptível e os novos corpos que habitarão o mundo novo, já estão guardados, esperando por nós, para que apareçam no novo céu e nova terra.

N.T. Wright

Extraído de seu último livro Surprised by Hope (Surpreendido pela esperança)

(Tradução: Karla Bomilcar)

Problemas pastorais


Tristeza e angústia

19 Maio, 2008

Tristeza é um pai no corredor do hospital pediátrico; uma alvorada no cemitério; uma fila no começo do expediente da mina de carvão; um vestido de noiva na liquidação do brechó; um lamento em chinês nos escombros de um terremoto.

Contudo, só o triste percebe; só o lagrimoso enxerga; só o desconsolado acorda. Portanto, bem-aventurado o que ouve; o que sabe o antônimo de inexpugnável; o que aceita a robustez da impotência.

Angústia é um relógio que marca centésimos de segundos; um verdugo que dá instruções ao condenado do patíbulo; uma enfermeira que aplica a quimioterapia mesmo sabendo que não haverá cura; uma tia que intui notícias ruins.

Contudo, só o angustiado se re-inventa; só o inquieto arroja; só o desassossegado percebe. Portanto, bem-aventurado o que luta; o que vive dependurado na palha da esperança; o que se inspira no olhar do Cordeiro.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

No embalo de Chávez

Salmo 3

Eu te proclamo grande, admirável,
Não porque fizeste o sol para presidir o dia
E as estrelas para presidirem a noite;
Não porque fizeste a terra e tudo que se contém nela,
Frutos do campo, flores, cinemas e locomotivas;
Não porque fizeste o mar e tudo que se contém nele,
Seus animais, suas plantas, seus submarinos, suas sereias:
Eu te proclamo grande e admirável eternamente
Porque te fazes minúsculo na eucaristia,
Tanto assim que qualquer um, mesmo frágil, te contém.

Murilo Mendes (1901-1975)

Um Deus brasileiro

16 Maio, 2008

Conheci um homem, a quem chamarei de Nilson, a fim de preservar-lhe a identidade, que era ou é um brasileiro típico. Ele era malandro, procrastinador, enganador, vagabundo, infiel, egoísta, mentiroso, golpista, mas extremamente simpático, gostava de samba, batucada, mulheres, futebol, bebia bem e dava umas cheiradas, também, andava bem vestido e sempre estava acompanhado de seguidores, além de sua amante. Depois de um tempo, conclui que o Nilson era um brasileiro típico. Eu em minha moralidade cristã fajuta, me distanciei de nossa cultura exótica e peculiar. Entretanto, ninguém que eu tenha conhecido incorporava nossos “valores” mais autenticamente do que ele. Sempre que desejava jogar a culpa em alguém por minhas falácias, eu dizia: isso eu aprendi com o mestre Nilson. Me achava parecido com Deus e ele com o capeta.

Os anos passaram e nunca mais vi ou tive notícia do Nilson. Em minhas lutas com Deus, comecei a perceber uma mudança no caráter do divino. No Antigo Testamento ele era aquele Deus forte, guerreiro, intransigente, mandava matar seus inimigos e detratores, enfim , era um Deus arretado. No Novo Testamento, Jesus veio e acabou com a fama do Deus mau e carrancudo. Anunciou que era filho do chefe e deixou claro conhecê-lo melhor do que ninguém e tornou Deus paternal, amoroso, condescendente, perdoador e misericordioso.

Em nossos dias, fomos apresentados por padres, pastores e sacerdotes a um Deus capaz de responder orações, curar nossas enfermidades, resolver nossos problemas financeiros, materiais e emocionais. Durante um tempo acreditei nesse Deus porque funcionava, de certa forma e podia dizer aos outros que Deus era realmente legal. Não sei se foi isso, mas percebi que com a chegada do novo milênio, já no fim do século e milênio passados, Deus mudou.

Talvez tenha sido chamado às terras brasileiras e aos conclames verde-amarelos, em demasia, ou sei lá o que, mas o magnânimo começou a ficar brasileiro, conforme previra o profeta nacional Nostrapeledamus. Passou a não responder mais como antigamente. Quando ligamos para o celular dele, só cai na caixa postal. Quando conseguimos pegá-lo pelo telefone fixo ele manda dizer que está em reunião. Vive em férias. A frase que mais escutamos quando o procuramos é: foi pescar e não tem previsão para voltar. De repente, as escolas de samba, os sambistas, o mundo do futebol passaram a ser abençoados, mesmo sem pedir nada. O PT ganhou a eleição e a re-eleição e parece que vai perpetuar-se no poder. Tudo indica que, à nossa revelia, Deus aprova o Bolsa Família, esse governo charfundado em corrupções e maracutaias, mentiroso, golpista, mas simpático ao povo de baixa renda. Enfim, um povo abençoado por Deus e bonito por natureza.

Claro que eu não me incluo nessas bençãos. Não estou entre o povo de baixa renda e sob as benesses desse novo Deus. Pertenço a outro grupo, aos sem renda alguma, crente no Deus anunciado por Jesus Cristo, mas que parece não existir mais. Estou abandonado à minha própria sorte e a deriva.

Essa madrugada, enquanto orava à moda antiga, solicitando a misericórida do Deus Pai que me foi apresentado, anos atrás, lembrei do Nilson e sua brasilianidade. Então entendi. O Nilson era a encarnação do novo Deus, que veio, caminhou comigo e eu o desprezei, achando-o a cara do diabo. Meu Deus, como sou burro!

Lou Mello

Dons X Frutos

Luto

O terremoto que vitimou mais de 12 mil pessoas na província de Sichuan, no sudoeste da China, nos coloca a todos diante da única realidade que anuncia o fato inequívoco de que somos todos irmãos: o sofrimento.

O sofrimento cuja origem não está diretamente ligado à maldade humana, diferente do que nasce da crueldade da fome e da bestialidade dos genocídios, das guerras, e dos atentados terroristas, por exemplo, ao mesmo tempo que suscita angustias e questionamentos que sugerem o lado patético da existência, desperta a solidariedade que revela a grandeza adormecida no coração humano.

O sofrimento injusto, ou ilógico, é um convite à transcendência das fronteiras e barreiras étnicas, geopolíticas, socioeconômicas, e, especialmente, religiosas. O sofrimento pode ser redimido quando acolhido como dotado do sagrado encargo de desvendar nossos olhos para que nos vejamos uns aos outros como iguais.

Ed René Kivitz

Pós Modernidade? Onde? Pra Quem?


Menino arruma tijolos de argila para secar, em Huachipa, 50 km a leste de Lima. Cerca de 1.000 crianças em idade escolar desta localidade trabalham nas fábricas de tijolos para aumentar a renda das suas famílias. Cada família produz cerca de 2.000 tijolos por dia, e ganham por isto cerca de US$ 12.

fonte: AFP

Encontro marcado

15 Maio, 2008

Aos 66 anos de idade, minha mãe me surpreende, dentro da sua simplicidade ela me espanta com seus momentos de meditação e espiritualidade. Uma mulher que criou seis filhos praticamente sozinha, se abdicou da sua vida pessoal e entregou-se na criação dos filhos. Calma aí, já explico. Todas as noites antes de deitar-se ela lê algum trecho da bíblia (e você há quanto tempo não lê um trechinho hein!?) Bem mais esse assunto é para outra hora... Minha mãe sem fazer uso de conhecimentos de teologia(que tenho certeza que ela nem sabe direito o que é, e daí?), e de maneira nada muito formal tem um encontro diário, marcado com Aquele que sempre está disposto a nos ouvir, seus óculos buscam entre capitulos e versículos verdades que não se encontram dentro dos templos regiliosos, pois lá, não é interessante que os membros tenham muito conhecimento, para evitar questionamentos. E assim são todas as noites, vez ou outra ela me faz alguma pergunta que dentro do possível eu respondo. Orar também faz parte de seu rito diário, suas mãos enrugadas se entrelaçam e ali no seu quarto posso ter a certeza que seu coraçãozinho é transbordado pelo Fonte de amor inesgotável, seus olhos banhados em lágrimas, seus joelhos cansados dos pesos desta vida se firmam, se prostram... E eu e todos meus irmãos com nossos defeitos e manias somos entregues, somos lembrados com todo carinho e ternura, e muitas pessoas que não conheço são lembrados ali, onde ela num ato de entrega me faz enxergar que os atos mais simples, são os que estão mais próximos de Deus.

A verdade está aqui


Contentamento

De que mais carece um homem senão de um olhar que não lhe condene, principalmente, no momento tenebroso quando se sentir arqueado de culpa? E que lhe devolva a sensação de saber-se acolhido por pura gratuidade, sem pedir explicações; e que o deixe pleno de paz, sem exigir nada.

De que mais carece um homem senão de um ombro que se oferece para dividir a carga, de um parceiro que não considera a ajuda um sacrifício? Para que, ao caminhar ao lado desse amigo, possa dizer que sua companhia é mais valiosa do que uma jazida de ouro.

De que mais carece um homem senão de um irmão que lhe estenda a mão no corredor escuro, quando as opções se mostrarem arriscadas? Basta que diga: “vamos tentar acertar uma dessas portas, não importa quanto errarmos” e desaparecerá o medo dos labirintos, das armadilhas, das setas malignas.

De que mais carece um homem senão de um ouvido para desabafar? Ele se sentirá feliz ao encontrar o confidente que não precisa responder, mas, calado, esquece. Sim, um amigo com amnésia para nunca alegar inconveniências antigas; não cobrar o porquê das insensibilidades despercebidas; um teimoso que deseja continuar ao lado, mesmo quando não for chamado.

De que mais carece um homem senão de poesia para fazê-lo vivenciar a linguagem criadora do universo? Somente o poema lhe fará vagar pelos sentimentos indizíveis do artista e sofrer com a angústia do profeta. Só a beleza da palavra é pão; só o verbo, carne; só o verso, um copo d’água.

De que mais carece um homem senão de música para embalar seus sonhos, descansar seu corpo fatigado e devolver graça para suas pernas trôpegas? Com melodia, ninguém perde leveza para acabar insensato. Cantar torna íntimo, nunca distante; grave, nunca pessimista.

De que mais carece um homem senão de colo para deitar-se e sentir-se amado? Todos carregam a nostalgia do aconchego uterino; todos desejam retornar ao ninho primordial e falar com um Deus que também é mãe. “Que meus olhos sejam tão mansos para com os outros como os teus são para comigo. Porque, se for feroz, não poderei acolher a tua bondade. Ajuda-me para que não seja enganado pelos maus desejos. E livra-me daqueles que carregam a morte nos próprios olhos”. (Rubem Alves).

De que mais carece um homem senão de uma noite insone para virar-se ao avesso e dialogar com suas sombras e não horrorizar-se? Nessas inquietações, sem relaxar, sempre é possível identificar dores que pedem cura. Nos conflitos internos, aprende-se a apalpar a asa ferida e evita-se o vôo precipitado antes que a madrugada chegue com suas réstias de esperança.

De que mais carece um homem senão de dormir profundamente e sonhar? E nessa experiência que prenuncia a morte, atravessar o deserto do silêncio até aprender a amá-lo; no descanso profundo e total, dialogar com a eternidade, vaga e misteriosa, até perder o medo da solidão e encontrar Deus.

De que mais carece um homem senão de espelhos que reflitam seu olhar sereno mesmo quando enfrenta a mais terrível tribulação? E mirando-se, não esquecer que, sobretudo, deve manter guarda constante de si mesmo para continuar solidário, misericordioso e amigo da justiça.

De que mais carece um homem senão de um Salvador que se pareça com um cordeiro não com um leão? E que seu Senhor lhe inspire a voltar o coração para os sofredores; a identificar-se com a sorte das ovelhas, não dos lobos, dos condenados, não dos carrascos.

De que mais carece um homem senão de paixão para acordar pleno de entusiasmo a cada manhã? E revestido de ideais, transformar-se em um hino que confronta os egoístas, fazendo da sua teimosia um sino que convoca o medíocre a abandonar seu discurso raso e irrelevante.

De que mais carece um homem senão de uma esperança que lhe desafie como o horizonte de um vasto oceano? E que esta esperança more além da história, além do tempo, além da vida; e ele, semelhante a um veleiro, não queira achar um porto, preferindo a aventura de navegar ao sabor do vento indomável.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

Viver do amor

Pra se viver do amor
Há que esquecer o amor
Há que se amar
Sem amar
Sem prazer
E com despertador
- como um funcionário

Há que penar no amor
Pra se ganhar no amor
Há que apanhar
E sangrar
E suar
Como um trabalhador

Ai, o amor
Jamais foi um sonho
O amor, eu bem sei
Já provei
E é um veneno medonho

É por isso que se há de entender
Que o amor não é um ócio
E compreender
Que o amor não é um vício
O amor é sacrifício
O amor é sacerdócio
Amar
É iluminar a dor
- como um missionário

Chico Buarque

O "Jesus" que Jesus não conhece

14 Maio, 2008

Todos os dias encontro pessoas que vivem como bem entendem, mas desejam assim mesmo as bênçãos do Evangelho.

O ardil é simples:
A pessoa não lê a Palavra [exceto em reuniões públicas e a fim de basear o discurso de algum pregador], não conhece Jesus [exceto como nome poderoso nas bocas dos faladores de Deus], não ora [exceto dando gritos de apoio às orações coletivas], não pratica a Palavra [exceto a palavra do profeta do grupo, ou do bispo ou autoridade religiosa da prosperidade ou da maldição], não se compromete com o Evangelho [exceto como dízimo e dinheiro no “Banco de Deus”: a “igreja”]; e, de Jesus, nada sabe; pois, de fato, nada Dele experimenta [exceto como medo].

Entretanto, a pessoa fica pensando que o Evangelho que ela nem sabe o que é haverá de abençoá-la em razão de que ela está sempre no “endereço de Deus”: o templo da “igreja”.

Assim, vivem como pagãos em nome “de um certo Jesus” que não é Jesus conforme o Evangelho; e, mesmo assim, seguem “um evangelho” que não é Evangelho, para, então, depois de um tempo, acharem que o Evangelho não tem poder, posto que acham que já o provaram e de nada adiantou; sem saberem que de fato deram suas vidas a uma miragem, a um estelionato, a uma fantasia de “Deus”.

Milhões pronunciam o nome de Jesus, mas poucos o conhecem numa relação pessoal!

Na realidade o que vejo são pessoas estudando teologia sem conhecerem a Deus; entregando-se ao ministério sem experiência do amor de Deus em si mesmas; brigando pela “igreja” [como grupo de afinidades] sem amarem o Corpo de Cristo em seu real significado; pregando “a mensagem da visão da igreja” julgando que tem algo a ver com a Palavra de Jesus [apenas porque o nome “Jesus” recheia os discursos].

E mais: os que aparentemente sabem o que é o Evangelho e quais são as suas implicações, ou não querem as implicações para as suas vidas pessoais, ou, em outras ocasiões, não querem a sua pratica em razão de que ela acabaria com o “poder” de bruxos que exercem sobre o povo.

Assim, vão se enganando enquanto enganam!

O final é trágico: vivem sem Deus e ensinam as pessoas a viverem na mesma aridez sem Deus na vida!

O amor à Bíblia como livro mágico acabou com o amor à Palavra como espírito e vida!

Não se lê mais a Palavra. As pessoas levam a Bíblia aos “cultos” apenas para figurar na coreografia e na cenografia da reunião — nada mais!

Oração em casa, sozinho, com a porta fechada, e como algo do amor e da intimidade com Deus, quase mais ninguém pratica!

Ora, enquanto as pessoas não voltarem a ler a Palavra, especialmente o Novo Testamento, jamais crescerão em entendimento e jamais provarão o beneficio do Evangelho como Boa Nova em suas vidas.

Há até os que depois de um tempo julgam que o Evangelho é fracassado em razão da “igreja” estar fracassada.

Para tais pessoas a “igreja” não é apenas a “representante de Deus”, mas, também, é o próprio Evangelho!

Que tragédia: um Deus que se faz representar pelo coletivo da doença do “Cristianismo” e que tem “igreja” a encarnação de um evangelho que é a própria negação do ensino de Jesus!

O que esperar como bem para tal povo?

Ora, se não tiverem o entendimento aberto, o que lhes aguarda é apenas frustração, tristeza e profundo cinismo.

Quem puder entender o que aqui digo, faço-o para o seu próprio bem!

Nele, que não é quem dizem que Ele é,

Caio Fábio

Imagem (muuuito triste) do dia!

Crianças sobreviventes do ciclone Nargis esperam pela distribuição de alimentos em Dedaye, 130 km sudoeste de Yangon, 14 de maio de 2008.

fonte: AFP

Considerações de Aninha

Melhor do que a criatura,
fez o criador a criação.
A criatura é limitada.
O tempo, o espaço,
normas e costumes.
Erros e acertos.
A criação é ilimitada.
Excede o tempo e o meio.
Projeta-se no Cosmos

Cora Coralina

GRANDE truque

Tratando a língua

1ª) A presidente OU a presidenta?

Tanto faz. Nossos dicionários registram as duas formas. A escritora Nélida Piñón, quando se tornou presidente da Academia Brasileira de Letras, sempre foi tratada e se referia a si como “a presidente da ABL”.

Cristina Kirchner, após ser eleita presidente da Argentina, faz questão de ser chamada de “presidenta”, porque, segundo ela, é mais feminino. A verdade é que na língua espanhola, como na língua portuguesa, as duas formas são corretas e aceitáveis.

2ª) Tiróide OU tireóide?

Tanto faz. As duas formas aparecem registradas nas edições mais recentes dos nossos principais dicionários. Não é, portanto, uma questão de certo ou errado. O que pode haver é uma preferência por uma ou por outra forma.

3ª) Em prol OU contra?

Afirmou o representante de uma ONG ao repórter da Tv Globo: “Nosso objetivo é continuar a luta em prol da desigualdade racial.”

Não acredito que ele dirija uma organização que lute a favor da desigualdade racial!!!
É lógico que ele queria dizer que sua luta é contra a desigualdade racial ou em prol da igualdade racial.

4ª) Cair OU não cair?

Confessou o capitão do time: “Nossa briga é para cair p