Céu e Inferno

30 Abril, 2008

O inferno de Deus não requer o esplendor do fogo. Quando o juízo final retumbar nas trombetas e a terra publicar as suas entranhas e as nações ressurgirem do pó para acatar a Boca inapelável, os olhos não verão os nove círculos da montanha invertida; nem a pálida pradaria de asfódelos perenes, onde a sombra do arqueiro persegue a sombra da corça, eternamente; nem a loba de fogo que no piso inferior dos infernos muçulmanos é anterior a Adão e aos castigos; nem metais violentos, nem sequer a treva visível de John Milton. Um odioso labirinto de tríplice ferro e fogo doloroso não oprimirá as almas atônitas dos réprobos.

Tampouco o fundo dos anos guarda um remoto jardim. Deus não precisa para alegrar os méritos do justo de esferas de luz, concêntricas teorias de tronos, potestades e querubins, nem o espelho ilusório da música nem as profundidades da rosa nem o esplendor desafortunado de um só de seus tigres, nem a delicadeza de um pôr-do-sol amarelo no deserto nem o sabor antigo e natal da água. Em sua misericórdia não há jardins nem luz de uma esperança ou de uma recordação.

Na janela de um sonho vislumbrei os prometidos Céu e Inferno: quando o juízo retumbar nas trombetas últimas e o planeta milenar for obliterado e bruscamente cessar o Tempo, as efêmeras pirâmides de cores e linhas do teu passado definirão na treva um rosto adormecido, imóvel, fiel, inalterável (talvez o da amada, quem sabe o teu) e a contemplação desse imediato rosto incessante, intato, incorruptível será, para os réprobos, Inferno; para os eleitos, Paraíso.

Jorge Luis Borges, (1954)

Uma GRANDE notícia!


Svetlana Singh, 21 anos, a mulher mais alta do país com 2,19 m, posa para fotos com seu filho, em Meerut. Svetlana disse esperar que Karan se torne a pessoa mais alta do mundo. O menino tem 10 meses de idade e já mede 1 m e pesa 24 kg

fonte: Reuters via site do Terra

Sobre casamento e amor


Não é bom que o homem esteja só far-lhe-ei uma companheira que lhe seja suficiente.” (Gn 2.18)


Venho me perguntando o que faz as pessoas optarem pelo casamento se contam com outras alternativas para a vida a dois. A justificativa mais comum para o casamento é o amor. Mas devemos considerar que o amor é uma experiência cuja definição está em xeque não apenas pela quantidade enorme de casais que “já não se amam mais”, como também pelo número de pessoas que se amam, mas não conseguem viver juntas.

Talvez por estas duas razões -- o amor eterno enquanto dura e o amor incompetente para a convivência -- nossa sociedade providenciou uma alternativa para suprir a necessidade afetiva das pessoas: relacionamentos temporários em detrimento do modelo indissolúvel. Mas, mesmo assim, o número de pessoas que optam pelo casamento em sua forma tradicional, do tipo “até que a morte vos separe”, cresce a cada dia.

Acredito que existe uma peça do quebra-cabeça que pode dar sentido ao quadro. Trata-se da urgente necessidade de desmistificar este conceito de amor que serve de base para a vida a dois. Afinal de contas, o que é o amor conjugal? Para muitas pessoas, o amor conjugal é confundido com a paixão. Paixão é aquela sensação arrebatadora que nos faz girar por algum tempo ao redor de uma pessoa como se ela fosse o centro do universo e a única razão pela qual vale a pena viver. Esta paixão geralmente vem acompanhada de uma atração quase irresistível para o sexo, e não raras vezes se confunde com ela. Assim, palavras como amor, paixão e tesão acabam se fundindo e tornando-se quase sinônimas.

Este conceito de amor justifica afirmações do tipo: “sem amor nenhum casamento sobrevive”, “sem paixão, nenhum relacionamento vale a pena”, “é o sexo apaixonado que dá o tempero para o casamento”.

Minha impressão é que todas estas são premissas absolutamente irreais e falsas. Deus justificou a vida entre homem e mulher afirmando que não é bom estar só. Nesse sentido, casamento tem muito pouco a ver com paixão arrebatadora e sexo alucinante. Casamento tem a ver com parceria, amizade, companheirismo, e não com experiências de êxtase. Casamento tem a ver com um lugar para voltar ao final do dia, uma mesa posta para a comunhão, um ombro na tribulação, uma força no dia da adversidade, um encorajamento no caminho das dificuldades, um colo para descansar, um alguém com celebrar a vida, a alegria e as vitórias do dia-a-dia. Casamento tem a ver com a certeza da presença no dia do fracasso e a mão estendida na noite de fraqueza e necessidade. Casamento tem a ver com ânimo, esperança, estímulo, valorização, dedicação desinteressada, solidariedade, soma de forças para construir um futuro satisfatório. Casamento tem a ver com a certeza de que existe alguém com quem podemos contar apesar de tudo e todos. A certeza de que, na pior das hipóteses e quaisquer que sejam as peças que a vida possa nos pregar, sempre teremos alguém ao lado.

Nesse sentido, não é certo dizer que sem amor nenhum casamento sobrevive, mas sim que sem casamento nenhum amor sobrevive. Não é certo dizer que sem paixão, nenhum relacionamento vale a pena, mas sim que sem relacionamento nenhuma paixão vale a pena. Não é o sexo apaixonado que dá o tempero para a vida a dois, mas a vida a dois que dá o tempero para o sexo apaixonado. Uma coisa é transar com um corpo, outra é transar com uma pessoa. Quão mais valiosa a pessoa, mais prazeroso e intenso o sexo. Quão menos valorizada a pessoa, mais banal a transa.

Assim, creio que podemos resumir a vida a dois, entre homem e mulher, idealizada por Deus, em três palavras que descrevem um casal bem-sucedido:

Um casal bem-sucedido é um par de amantes.
Um casal bem-sucedido é um par de amigos.
Um casal bem-sucedido é um par de aliados.

São três letras A que fornecem a base de uma relação duradoura. Amante se escreve com A. Amigo se escreve com A. Aliado se escreve com A. E não creio ser mera coincidência o fato de que todas as três, amante, amigo e aliado, se escrevem com A... A de amor.

Ed René Kivitz

Aventuras do fenômeno

Pessoa física

O simples que comove

Coisas extremamente simples acham um lugar imortal no coração. Há dias, conversando com os meus filhos, encontrei-me com elas, as coisas simples. O Sérgio me contou sobre quando ele era menino, tempo em que eu ainda fumava cachimbo. “Você viajava, eu ficava com saudade. Ia para o seu escritório que estava impregnado com o cheiro bom de fumo de cachimbo, perfumado. Era o meu jeito de matar a minha saudade...” O Marcos, por sua vez, me lembrou um incidente muito engraçado. Eu e ele estávamos no banco. Eu preenchia as guias de depósito, distraído. Enquanto isso ele examinava os cheques, sem que eu percebesse. Aí ele notou que as assinaturas estavam muito feias ( eram cheques de uma outra pessoa) e se prontificou a me ajudar, melhorando-as. Pegou uma caneta e mãos à obra. Quando percebi já era tarde demais. Não sabia se ria, se chorava, se ficava bravo... Felizmente o gerente foi compreensivo e tudo terminou bem. Isso é uma das delícias de conversar com os filhos. A conversa é um ritual mágico que ressuscita memórias há muito enterradas.

Rubem Alves Quarto de Badulaques L

Tratando a língua

QUESTIONAR – É “pôr em dúvida”: “O deputado questionou a legalidade do contrato.” Não é sinônimo de perguntar: “O deputado perguntou (e não questionou) se o banqueiro iria depor hoje à tarde ou somente amanhã”.

RAPTO – Não é sinônimo de seqüestro. Rapto é só de mulheres e com fins sexuais: “É hábito, nesta tribo, a mulher ser raptada pelo futuro marido”. Exemplo inaceitável: “Os dois confessaram que, na época do rapto, compraram três crianças nas mãos de Matilde” (= Embora seja freqüente, devemos evitar o uso de RAPTO para crianças).

REFUTAR – Significa “contestar, apresentar argumentos contrários”. “O mestre refutou (= contestou) as minhas idéias.” Não é sinônimo de rejeitar: “O diretor rejeitou (= não aceitou) a minha proposta”.

REGULARIZAR – O que se regulariza é a situação e não a pessoa: “A situação do atleta já foi regularizada na federação.” Devemos evitar construções do tipo: “O atleta ainda não foi regularizado na federação”; “Os camelôs não estão regularizados”.

RENDER – Palavra de carga positiva. Não devemos usar em situações negativas: “As fotos nuas lhe renderam um processo.” O mais adequado é “…custaram um processo”.

REPERCUTIR – O que repercute é a coisa: “A derrota repercutiu muito mais do que se esperava”. Devemos evitar construções em que “alguém repercute alguma coisa”: “Vamos repercutir a derrota no vestiário do Vasco.” É melhor: “Vamos ver a repercussão da derrota no vestiário do Vasco”.

RESTO – Palavra de carga negativa. Devemos evitar:
“O primeiro pode entrar, o resto deve permanecer sentado”. É melhor: “…os demais devem permanecer…”.
“São Paulo assiste a Palmeiras e Grêmio, o resto fica com o jogo Flamengo e Bahia”. É melhor: ”A rede Globo transmitirá Flamengo e Bahia; para São Paulo, Palmeiras e Grêmio”.

ROUBO – É diferente de furto. Se houver qualquer tipo de “violência”, é roubo. O cleptomaníaco tem “mania de furtar”. Se houver roubo e assassinato, é latrocínio.

SALÁRIO/VENCIMENTO – Empregado de empresa privada e funcionário público contratado com base na CLT recebem salário; funcionários públicos em geral recebem vencimento; soldo é a parte fixa dos vencimentos dos militares. Parlamentares recebem subsídio.

fonte: Blog do Professor Sérgio Nogueira

Terapia

Esses cristãos reflexivos

29 Abril, 2008

A diferença sempre foi vista com curiosidade ou estranheza. A cor de sua pele, por exemplo, pode tornar você um estranho em alguns cenários. Já seu poder aquisitivo ou sua educação têm a capacidade de fazer com que se destaque em determinados ambientes. Até mesmo seu estilo de adoração, a linha teológica que você adota ou sua preferência por algum partido político podem colocá-lo à margem – ou para além dela – em certos casos. A verdade é que ser, pensar, olhar ou agir de modo diferente da maioria pode empurrar determinado indivíduo para fora dos círculos sociais e religiosos.

Fato é que, nas nossas igrejas, sempre há uma pessoa, ou um grupo, que na maioria das vezes se sente diferente da maioria – e gente assim quase sempre é marginalizada. Dan Taylor, em The Myth of Certainty [O mito da certeza], chama essas pessoas de “cristãos reflexivos”. Os menos solidários classificam-nas como questionadoras da fé; e, muitas vezes, suas atitudes de inconformismo fazem com que se tornem desrespeitados em suas comunidades.

Como quase todos os protestantes sabem, no século 16 a Igreja Católica Apostólica Romana estava empolgada acerca da emissão das famigeradas indulgências. Elas eram alardeadas pelo clero como maneiras de reduzir o tempo das pessoas no purgatório através da doação de dinheiro ou bens à Igreja. Mas apesar da generalização de tal prática, muitas pessoas não se contiveram e questionaram o programa de indulgência proposto pelas autoridades eclesiásticas. Elas duvidaram do que a instituição sustentava com tamanha convicção, simplesmente porque aquilo não fazia sentido para esses cristãos questionadores. Se permanecessem em silêncio, iriam se sentir desonestos e frustrados; contudo, se levantassem suas questões, seriam vistos com desconfiança. Alguns desses questionadores, como Martinho Lutero se manifestaram e descobriram que cristãos reflexivos, já àquela altura, não tinham futuro na Igreja.

Aproximadamente cem anos mais tarde, Galileu Galilei olhou através de um telescópio certa noite e viu luas posicionadas como bailarinas em órbita de Júpiter. Logo percebeu que a Igreja estava errada ao sustentar a visão de mundo tradicional, geocêntrica, que havia herdado de Aristóteles e Ptolomeu. Infelizmente, quando passou a questionar abertamente a corrente majoritária, ele descobriu aquilo que Martinho Lutero já sentira na pele: cristãos reflexivos não eram bem-vindos à Igreja.

Uma história semelhante poderia ser contada acerca do célebre evangelista John Wesley, que duvidava daquilo que todos sabiam: que atividades sagradas, como a pregação, precisavam ser desenvolvidas em espaços sagrados, como púlpitos. Por discordar disso, ele foi à porta das minas de carvão do Reino Unido anunciar a salvação em Jesus a trabalhadores que não freqüentavam os templos. Poderíamos falar ainda de crentes reflexivos como Phineas Bresee, fundador dos Nazarenos, que duvidou que pessoas pobres devessem ser evitadas por cristãos honrados. E o que dizer de Menno Simons, o líder dos anabatistas, que discordava da voz corrente de que cristãos deveriam matar outros cristãos em nome de Cristo?

Questionadores contemporâneos, como o pastor Martin Luther King Jr e o bispo Desmond Tutu, duvidaram que a raça fosse um fator de comunhão, e enfrentaram forte oposição por isso. Já líderes como Bill Hybels ou Rick Warren, com suas propostas de uma nova eclesiologia, ou talvez você, com suas idéias ainda não devidamente expostas, também tendem a provocar certo desconforto devido a suas posturas... Os heróis que estudamos na história da Igreja começaram como cristãos reflexivos que duvidaram daquilo que todos consideravam ser o óbvio. Como conseqüência foram, em quase todos os casos, marginalizados. Quando comunidades habitualmente marginalizam ou excluem seus membros mais reflexivos – aqueles que fazem perguntas difíceis sobre coisas que são completamente basilares para a maioria –, é claro que os que são estigmatizados acabam feridos.

A comunidade que exclui, no entanto, também é ferida, porque ao agir assim corta da própria pele recursos de crescimento e de renovação. Além disso, constrói resistências exatamente para aquilo que em breve será necessário, o que deixa no ar uma pergunta urgente: quem são os cristãos reflexivos, que talvez sintam que já estão com a camada de gelo bem fina nas margens, ou seja, prestes a serem marginalizados por completo? E o que seria necessário para dizer-lhes que eles são queridos, necessários e respeitados, que a sua diferença não é um problema a ser resolvido por meio da pressão para que se amoldem, mas que sua atitude questionadora é um recurso?

Aqui vai uma sugestão: que esses cristãos reflexivos sejam ouvidos! Tentemos entender suas perguntas, frustrações e novas idéias, mesmo que não concordemos com suas inquietações. Sejamos atenciosos, dando-lhes espaço para serem quem são, mesmo se pensam diferente da maioria. Às vezes, talvez seja preciso se posicionar entre eles e seus críticos mais contundentes a fim de defendê-los das forças que mantêm as fronteiras e promovem a exclusão. Um coração bondoso e um ouvido disposto a escutar podem manter os cristãos reflexivos dentro da comunidade – e, se a renovação vier das margens, como quase sempre parece ser o caso, então, ao amputarmos essas nossas margens, fazemos aquilo que os chefes dos sacerdotes e escribas fizeram quando uma voz necessária apareceu às margens de sua comunidade. Será que estamos escutando seu clamor?

Brian MaClaren

Sogras

Deus lhe pague

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer, e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague

Pelo prazer de chorar e pelo "estamos aí"
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Deus lhe pague

Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Deus lhe pague

Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague

Chico Buarque

Molusco precavido

28 Abril, 2008

Gente não é mosquito

"A PM é o melhor remédio contra a dengue. Não fica um mosquito em pé. É o SBPM. O melhor inseticida social existente." Foi com esta metáfora que o coronel comandante do 1º Comando de Policiamento de Área (CPA) descreveu a operação na Vila Cruzeiro, que deixou nove supostos traficantes mortos, na terça-feira 15 de abril. O coronel identificou a ação da polícia com o combate à epidemia de dengue e comparou seres humanos com o mosquito Aedes aegypti, causador da doença que já vitimou mais de 52 pessoas, somente este ano, na cidade do Rio de Janeiro. Por trás da metáfora está uma proposta para o enfrentamento da violência urbana e o combate ao crime, a saber, o extermínio do criminoso.

A proposta do evangelho é absolutamente diferente. O chamado de Jesus Cristo ao arrependimento e à fé para a participação no reino de Deus que está entre nós implica um outro jeito de ser gente e ser sociedade, uma outra agenda para a prática da cidadania e a construção de uma sociedade justa e pacífica. A fé cristã parte do princípio de que o mal não existe enquanto ente em oposição a Deus, isto é, os cristãos não somos dualistas, não acreditamos que o mundo é palco onde duas forças iguais lutam entre si, o bem contra o mal. Nesse sentido, não cremos na existência do mal. Cremos sim na existência do malvado. O mal é resultado da ação de seres livres em rebeldia contra Deus. Não é possível destruir o mal sem destruir o malvado.

O evangelho afirma que Deus não tem prazer em destruir o malvado, mas escolheu redimir o malvado. A proposta cristã para o enfrentamento do mal é a conversão do malvado. É próprio da fé cristã confiar na possibilidade da transformação de todo e qualquer ser humano, conforme o testemunho de Paulo, apóstolo: "Dou graças àquele que me fortaleceu, a Cristo Jesus nosso Senhor, porque me julgou fiel, pondo-me no seu ministério, ainda que outrora eu era blasfemador, perseguidor e injuriador; mas alcancei misericórdia, porque o fiz por ignorância, na incredulidade; e a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e o amor que há em Cristo Jesus. Fiel é esta palavra e digna de toda a aceitação; que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais sou eu o principal; mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, o principal, Cristo Jesus mostrasse toda a sua longanimidade, a fim de que eu servisse de exemplo aos que haviam de crer nele para a vida eterna. Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus, seja honra e glória para todo o sempre. Amém".

Seres humanos, por mais degradados que estejam, carregam em si a imagem e semelhança de Deus e, portanto, podem sim ser educados para novos patamares de vida. O evangelho implica a metanóia: expansão da consciência, transformação pessoal pela "renovação do entendimento" - "conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará; se pois o Filho do homem vos libertar, verdadeiramente sereis livres". Nenhum ser humano está condenado a ser o que se tornou, ou o que dele foi feito. Cada ser humano é responsável por responder à constante interpelação de Deus que convida para a vida de justiça e paz. Todo ser humano é responsável por enfrentar o mal sem destruir os malvados.

O protagonista da luta contra a segregação racial na África do Sul, Nelson Mandela, ensinou que "ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar". Gente não é bicho. Não é mosquito. Gente é encarnação das possibilidades infinitas do Deus que é Amor. Ser gente é aprender a amar.

Ed René Kivitz

Brasil - Escolhe a escola

Não deixa a tua cozinheira, senhora do sabor e da arte do saber - o que convém à mesa -, perdurar como incidadã analfabeta. Escolhe a escola.
Sabes aquele garoto junto ao sinal vermelho que te cessa o trânsito da vida? Aquele acrobata amador que faz bailar sobre a cabeça meia-dúzia de bolas ou garrafas? Não dê a ele esmolas, abra-lhe horizontes, aplaca-lhe a fome de humanidade. Escolhe a escola.

Se empregas um jovem de cujo trabalho recebes teu bem-estar, não o deixes absorvido a ponto de impedi-lo de ler, aprimorar sua cultura e seu preparo intelectual. Escolhe a escola.

Não te entregues à ociosidade inútil de tua aposentadoria, teu tempo absorvido por programas televisivos de mero entretenimento, os dias a escorrer céleres a apressar-te a velhice, como se as folhas despidas no outono não mais retornassem no vigor da primavera. Escolhe a escola.

Se enfrentas a atroz dúvida de como presentear os mais jovens, sem a certeza de que haverás de agradá-los, invista no futuro deles, não dês embrulhos, e sim matrículas. Escolhe a escola.

Evita que a tua mente se entorpeça por falta de uso ou uso rotineiro de tuas ocupações habituais. Amplia a tua visão, aprende um idioma ou a tocar um instrumento musical, matricula-te no curso de trabalhos manuais ou na oficina de cerâmica. Escolhe a escola.

Há por toda parte muitos cursos que ultrapassam os currículos convencionais, de culinária e bordado, ikebana e yoga, natação e tai chi chuan; cursos por internet e TV, correspondência e manuais de autodidatismo. Escolhe a escola.

Se encontras um adolescente no meio rural, entregue precocemente à labuta diária, sem outra cultura senão a que deriva de seus afazeres e da convivência com os guardiães da memória local, ajuda-o a aprender que o mundo é mais vasto que a sua aldeia. Escolhe a escola.

Todos temos algo a aprender e ensinar. Não guardes para ti os teus conhecimentos, as tuas habilidades, tantas informações a adularem tua auto-estima. Socializa-os, divulga-os, partilha com o próximo o teu saber. Escolhe a escola.

Se tens tempo livre e podes trabalhar como voluntário, animando crianças em seus deveres escolares, treinando jovens em suas habilidades profissionais, entretendo idosos com as tuas histórias e leituras, não deixa enterrados os teus talentos. Escolhe a escola.

Se freqüentas ou tens contato com uma escola, procura fazer com que ela dialogue com outra escola, troque experiências e conhecimentos, intercambie alunos e professores, tornando-se escolas irmãs. Tece entre elas uma rede solidária. Escolhe a escola.

Saibas que todas as crianças e todos os jovens envolvidos com criminalidade estão fora da escola; e muitos são trabalhadores precoces, desprovidos de infância e juventude, direitos trabalhistas e salário justo. A favor de uma nação saudável, de cidadania plena, escolhe a escola.

Ao escolher a escola, luta para que todos tenham acesso a ela, e que o ensino seja repartido gratuitamente como os raios solares. Empenha-te para que a escola seja de qualidade, os professores bem preparados e remunerados, as instalações adequadas e limpas, os recursos fartos, os equipamentos atualizados. Mas escolhe a escola.

Não se faz cidadania sem escolaridade, nem democracia sem cultura centrada nos direitos humanos e na prática intransigente da justiça. Não se aprimora o humano sem ética e valores infinitos enraizados na subjetividade. Escolhe a escola.

A escola nem sempre se resume a uma construção retalhada em salas de aulas, preenchida por alunos devidamente matriculados. Faz-se escola sob a tenda indígena ou a lona do assentamento, no quintal de casa ou na sala de uma igreja, na garagem ao lado ou no cinema cedido às aulas matinais. Escolhe a escola.

Doenças endêmicas, como a dengue ou a febre amarela, a leishmaniose ou a xistosomose, seriam facilmente evitadas se as pessoas tivessem suficiente educação para cuidar da higiene de si e do ambiente em que vivem, dos artefatos que manipulam e dos alimentos que consomem. Escolhe a escola.

E ao escolher a escola, não permitas que em torno delas os políticos inflem seus discursos demagógicos. Exige deles - nossos servidores públicos - compromissos efetivos e assinados, de modo que a educação, de qualidade e para todos, seja considerada prioridade neste país. Ao votar, escolhe candidatos comprovadamente empenhados em transformar o Brasil numa imensa escola voltada ao fortalecimento da cidadania e ao aprimoramento da democracia.


[Autor, em parceria com Paulo Freire e Ricardo Kotscho, de "Essa escola chamada vida" (Ática), entre outros livros]

Frei Betto

Abstênio

fonte: Blog do Jasiel Botelho

O Pecado da Terra e dos Terráqueos

25 Abril, 2008


Há uma dimensão planetária na Criação. Este nosso planeta – a Terra – nos descreve o primeiro capítulo do livro de Gênesis, era algo disforme, vazio, uma “face de abismo” coberta de trevas. Algo inóspito e inabitável. Mas, sobre o próprio vazio, sem vida, “pairava o Espírito de Deus”. Pela sua vontade e palavra tudo muda: há forma, luz e vida.

“Chamou Deus ao elemento seco terra, e ao ajuntamento das águas mares. E viu Deus que isso era bom”. O nosso planeta – a Terra – pois, é parte da Criação. Nela habitavam, com vida plena e harmonia – entre si e com o seu Criador – os vegetais, os animais e os seres humanos, que dela tiravam seu sustento, e que conversavam com o Senhor ao cair da tarde.

Há uma dimensão planetária também na Queda. A desobediência dos seres humanos, primícias da Criação, afeta a qualidade de toda a Criação. A estes sobreveio a fadiga como conseqüência do trabalho, a Terra, produzindo “espinhos”, se tornou em um espaço de alienação mútua entre minerais, vegetais, animais irracionais e seres humanos. Não somente estes, mas toda a Natureza caiu, toda a Natureza foi afetada pelo pecado, e destinada à morte: entropia moral-espiritual e entropia físico-biológica. A terra se enche de corrupção e de violência, e Deus a resolve destruir pelo Dilúvio. O Dilúvio é, por um lado, um “fenômeno natural”, e, por outro, um ato de Providência divina, purificador e recriador, com a nova Aliança com Noé e a sua descendência.

Os roubos, os estupros, as guerras, as explorações, a desigualdade, a fome, a tirania, a mentira, a idolatria vão se dando, por indivíduos, tribos e nações, sobre uma terra que vai produzindo vulcões, terremotos, maremotos, secas e pestes. A Terra e a História, com a pálida imagem da Criação, vão se tornando a própria imagem do Anti-Paraíso. Os portões do passado estão fechados, e guardados por um anjo com espada flamejante. A nós resta a Terra e a História para os Pactos, a Lei, e o cumprimento, no possível e no limitado, do Mandato Cultural, de povoar, cultivar, governar, criar e usufruir, com “a saudade do Paraíso”.

Há uma dimensão planetária no Messiado. A Providência nos anuncia a vinda de um Messias, na plenitude dos tempos. A Era Messiânica é associada com a recuperação da harmonia terrena original. Para o profeta Isaias “O lobo e o cordeiro se apascentarão, o leão comerá palha como o boi; e pó será a comida da serpente. Não farão mal nem dano algum...” (61:25). O culto correto e a prática da justiça marcarão o comportamento dos terráqueos do Pacto na Era Messiânica: “Porque como a terra produz os seus renovos, e como o horto faz brotar o que nele se semeia, assim o Senhor Deus fará brotar a justiça e o louvor perante todas as nações” (61:11).

Há, portanto, uma dimensão planetária na obra de Redenção operada pelo Messias, Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, enquanto isso, nas palavras do apóstolo Paulo “a natureza geme” na expectativa de sua redenção.

Pode-se bem falar da importância de uma disciplina que estuda o meio ambiente, a Ecologia, e de uma disciplina que estude o propósito divino e as relações humanas sobre o meio ambiente, no terreno moral e espiritual, já denominada de Ecoteologia. A desertificação, os aterros irracionais, o uso espúrio dos recursos de água, a destruição da camada de ozônio são pecados dos terráqueos para com a Terra. E, esta, também pecaminosa, responde com a sua força destruidora sobre os filhos da desobediência.

Foi uma cena chocante após outra. Um noticiário de televisão. A primeira cena a onda gigantesca do tsunami levando tudo de roldão. A segunda cena, ainda na Tailândia, os escombros das casas, os cadáveres, os órfãos. A Terceira cena, não muito longe dali, um espetáculo pornográfico, em uma casa de prostituição, tentava entreter os “clientes” ocidentais abastados, que haviam escapado da destruição. Esse conjunto pecaminoso é a realidade da terra.

Há, por fim, uma dimensão planetária na Escatologia, na consumação de todos as coisas, no Final dos tempos, na Pós-História, com o retorno do Senhor e a reconstrução da Criação ao seu projeto original. No meio das contradições, dores e pecados na era presente, que atinge a toda a natureza caída, a ser redimida e restaurada, nos movemos pela esperança da promessa escatológica: “E vi um novo céu e uma nova terra. Porque já se foram o primeiro céu e a primeira terra, e o mar já não existe... E ouvi uma grande voz, vinda do trono, que dizia: eis que o tabernáculo de Deus está com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles” (Ap 2:1,3).

Enquanto o novo céu e a nova terra não vêm, vivamos na velha Terra e a História, as possibilidades, os riscos, as ameaças, as tentações e as vitórias, como Povo de Deus, transformados e transformadores, resgatando a obediência da correta mordomia de toda Criação.

Robinson Cavalcanti

Pecado

fonte: Blog do Jasiel Botelho

Lua adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles

Análise da vida cristã

O problema real da vida cristã aparece onde as pessoas normalmente nao o procuram. Ele aparece no instante em que você acorda cada manhã. Todos os desejos e esperanças para o dia correm para voce como animais selvagens. E a primeira tarefa de cada manha consiste simplesmente em empurrá-los todos para trás; em dar ouvidos a outra voz, tomando aquele outro ponto de vista, deixando aquela outra vida mais ampla, mais forte e mais calma entrar como uma brisa. E assim por diante, todos os dias. Mantendo distância de todas as inquietações e de todos os aborrecimentos naturais, protegendo-se do vento.
No começo, nos somos capazes de fazê-lo somente por alguns momentos. Mas então o novo tipo de vida estará se propagando por todo o nosso ser, porque então estamos deixando Cristo trabalhar em nos no lugar certo. Trata-se da diferença entre a tinta, que esta simplesmente deitada sobre a superfície, e uma mancha que penetra. Quando Cristo disse "sede perfeitos", quis dizer isso mesmo. Ele quis dizer que temos que entrar no tratamento completo. Pode ser duro para um ovo se transformar em um pássaro; seria uma visão deveras divertida, e muito mais difícil, tentar voar enquanto ainda se um ovo. Hoje nos somos como ovos. Mas você não pode se contentar em ser um ovo comum, ainda que decente. Ou sua casca se rompe ou você apodrecerá."

C. S. Lewis em "Cristianismo Puro e Simples"

Procura-se

24 Abril, 2008

A alma que me cabe

– Os conservadores e reformados – disse o dono do haras ao jangadeiro – afirmam que a missão é fazer com que as pessoas abracem o nome do seu mestre de modo a evitarem o inferno e ganharem o céu; para eles, trata-se de salvar as almas não para este mundo, que é irremediável, mas para a vida eterna. Os liberais e libertários afirmam que a missão é transformar este mundo a partir do exemplo revigorante do seu mestre, de modo a construir nesta vida uma estirpe honorária de céu; para eles, trata-se menos de prometer o reino de Deus para a vida futura do que implementá-lo contra todos os impedimentos nesta existência. Qual é a sua opinião? Qual dos dois pensamentos está certo?

O jangadeiro terminou de fazer o nó que o incomodava e aspirou a maresia.

– O que sei sobre a vida eterna é que ela é para ser um presente, e presente a gente não deve cobrar e não deve esperar. O mesmo, você deve entender, posso dizer desta vida. A vida futura que deve me ocupar é o momento seguinte, porque o momento seguinte depende do que faço neste. Salvar as pessoas ou transformar o mundo? Se você pensar, qualquer um desses seria fácil demais, porque tanto o mundo quanto as pessoas estão fora de mim; a metamorfose deles nada exige de mim e para mim nada implica além daquilo em que me beneficia. O desafio do legado de Jesus é eu transformar a mim mesmo. É natural que transformando a mim mesmo estarei transformando o mundo, mas essa não é a questão. A alma que me cabe salvar continuamente é a minha.

Paulo Brabo

Tratando a língua - Falsos sinônimos

OBSERVAÇÃO/OBSERVÂNCIA – Observação é “o ato de observar, perceber pelos sentidos”, é “o reparo, a advertência”: “O diretor fez duas observações importantes.” Observância é “o cumprimento, a execução fiel”: “Para evitar acidentes, é importante que haja a observância das normas.”

OPORTUNISTA – Cuidado. Palavra perigosa. Apresenta carga negativa: “Romário é um atleta muito oportunista.” Se ele aproveita bem as oportunidades para fazer seus gols, o melhor é dizer que “ele tem senso de oportunidade”.

ÓPTICO/ÓTICO – Óptico refere-se à visão: “Apresentava problemas no músculo óptico.” Ótico, a princípio, refere-se ao ouvido: “A labirintite afetou-lhe o nervo ótico.” Hoje em dia, porém, aceita-se o uso de ótica em referência à visão: “Comprou seus óculos numa ótica popular”; “Na sua ótica, o contrato não deveria ser assinado”; “Não passou de uma ilusão de ótica”.

PAULISTA – Refere-se ao estado de São Paulo.

PAULISTANO – Refere-se à cidade de São Paulo.

PELADA – Cuidado. Apresenta carga pejorativa. É melhor dizer que “ela estava nua” (= se houver sensualidade) ou despida (= se não houver carga de sensualidade).

PENALIZADO – É melhor só usar no sentido de “ter pena, dó, compaixão”: “Sentia-se penalizado diante de tanta miséria.” Embora já esteja registrado no novo Aurélio e no dicionário Houaiss, é bom evitar o uso de penalizado no sentido de “punido”: “O zagueiro foi punido (e não penalizado) com cartão vermelho.”

PONTO PERCENTUAL – Não devemos confundir com percentagem. Se a inflação subiu de 2% para 4%, ela subiu 100% ou dois pontos percentuais.

PORTENHO – Vem de porto. Refere-se a quem nasce ou vive em Buenos Aires. Não é sinônimo de argentino.

POSAR/POUSAR – Posar é “fazer pose”: “Ela posou para duas revistas masculinas.” Pousar é “descer, aterrissar, descansar”: “O avião pousou com vinte minutos de atraso”; “Os viajantes pousaram neste albergue”.

POSSUIR – Devemos evitar o uso de possuir como simples sinônimo de ter. Rigorosamente possuir equivale a “ter a posse de, ter a propriedade de, poder dispor de”: “Ele possui muitos bens no estrangeiro”. Em geral, é mais seguro e correto usar o verbo ter: “Ela tem duas filhas”; “Ele tem direito adquirido”; “Eles têm duas liminares”…

PROCRASTINAR – Cuidado. Na língua do dia-a-dia, apresenta carga negativa: “enrolar”. É preferível adiar ou prorrogar.

PROTOCOLAR/PROTOCOLIZAR – Segundo a tradição, protocolar é adjetivo, é “o que segue o protocolo”: “São ações protocolares.” Hoje em dia, porém, aceita-se como verbo. Seria sinônimo de protocolizar: “Os documentos foram protocolizados ou protocolados.”

fonte: Blog do Professor Sérgio Nogueira

A música e eu

23 Abril, 2008

A música entrou em minha vida quando eu tinha treze anos. Tia Mariinha, carinhosamente chamada por todos na família de Inha, era a minha madrinha de batismo e me presenteou, em meu aniversário, com um violão vermelho Giannini de cordas de aço. Nos primeiros minutos de contato, não nos entendemos muito bem: quebrei duas de suas cordas tentando afiná-lo.

Durante meses ele ficou largado em cima do guarda-roupa, ocupando espaço e juntando pó. No ano seguinte, Cláudio, um vizinho e amigo de muitos anos, indicou-me uma professora de violão: a dona Vivi. Com ela aprendi os primeiros acordes e formei meu primeiro repertório. Hoje, quando revejo na mente como um filme seu violão sempre afinado e de som doce e refinado, ao mesmo tempo em que percebo suas muitas limitações, reconheço o quanto era capaz de passar adiante o pouco que sabia.

Ainda espero encontrar dona Vivi para dizer “muito obrigado” por ter plantado em mim a boa semente do amor à música e por hoje poder dizer, citando Caetano Veloso, "como é bom poder tocar um instrumento".

Lembro-me com detalhes da primeira aula e da primeira canção que levei para casa: "O Vira" do grupo sensação da época, Secos e Molhados.

Depois de meses de encontros semanais na sala da casa de dona Vivi, meu caderno estava repleto de canções com ritmos variados, todas padronizadas e escritas com a famosa caneta Bic: as letras em azul, as cifras e a indicação do ritmo em vermelho.

Cláudio e Walter, o "Pezão", eram meus parceiros de futebol, embora nenhum dos três levasse muito jeito para a coisa. A falta de habilidade com a bola, no entanto, já não nos incomodava. Havíamos nos tornado parceiros na música. Ambos eram também alunos de dona Vivi.

Encontrávamo-nos regularmente para compartilhar nossas canções e as dificuldades no aprendizado de novos acordes, particularmente com a "pestana" (posição que exige o uso do dedo indicador inteiro estendido sobre a casa do violão servindo de apoio aos outros dedos na formação do acorde, e que é o terror de todos os iniciantes no instrumento).

Pouco tempo depois, conhecemos a Valéria, nossa colega de escola; uma garota comunicativa e simpática que também tocava e nos convidou para juntos "trocarmos figurinhas" musicais em sua casa. Aquele primeiro encontro determinou o rumo dos próximos vinte e oito anos de minha vida.

Do primeiro encontro, em que ouvi pela primeira vez um disco do grupo Vencedores Por Cristo, marcamos de nos ver novamente, dessa vez na igreja evangélica que Valéria freqüentava: um templo espaçoso em um bairro antigo e tradicional da cidade e que em suas atividades reservava uma sala para adolescentes aos domingos à tarde.

O som das guitarras era envolvente e o senso de comunidade que o ambiente suscitava era acolhedor. Dezenas de meninos e meninas reunidos em um espaço apertado, cantando a plenos pulmões, mãos unidas na canção final, sorrisos e abraços de boas vindas, essas coisas todas me marcaram profundamente. E me fizeram querer ser parte de tudo aquilo.

Poucas semanas depois eu já empunhava uma das guitarras no encontro semanal dos adolescentes. Em alguns meses, apresentava minhas primeiras composições nos cultos dominicais noturnos, para centenas de pessoas.

Minha vocação se manifestara de forma clara e límpida.

(trecho do livro-cd Somos Um)

Jorge Camargo

Pentecostalismo


fonte: Blog do Jasiel Botelho

Eu creio na alma

Eu creio na alma
Nau feita para as grandes travessias
Que vaga em qualquer mar e habita em qualquer porto
Eu creio na alma imensa
A alma dos grandes mistérios
A grande alma que em vão busquei sufocar
Eu creio na alma eterna
A alma boa, a alma pura, a alma singela
A alma que possui o espaço
A alma que não possui o tempo
A grande alma sozinha
Capaz de conter toda a humanidade
Senhor! Eu creio nela
Eu creio na minha alma extraordinária
Ela era como o templo
Onde os vendilhões mercadejavam
Ela expulsou os vendilhões, Senhor!
E os pássaros cantaram.
Eu creio na alma grande
Em busca dum élan que a lance sempre
Para o eterno movimento
A alma espelho das águas
Onde o céu reflete os pássaros que voam
Eu creio em ti, Senhor
Porque és a alma que é o céu onde os pássaros voam
E que se reflete no espelho das águas
Porque és a grande alma que paira
Eu creio em mim, Senhor
Porque sou alma feita à tua semelhante
Grande alma onipotente
Que no começo era o nada
O nada - vazio das almas
O nada cheio de treva e maldição
Mas o espírito erguia-se do caos
E a treva fez-se luz
A luz cheia de átomos de vida
A luz - a grande luz que sobe sempre.

Vinicius de Moraes

O que significa evangelizar?

22 Abril, 2008

Paulo disse que não se envergonhava do evangelho por ser, este, o poder de Deus para a salvação de todo o que crê (Rm 1.16). Quando perguntamos o significado de evangelizar, estamos falando do levar o poder de Deus a todos os seres humanos, para que eles sejam salvos.

Salvos de que?

Precisamos revisitar a queda, como registrada em Gn 3.

Primeiro, nos damos conta de que o homem foi enganado, o adversário prometeu que ele seria como Deus. Porém, como Deus ele já era, uma vez que foi criado à Sua imagem e semelhança. Entretanto, o que lhe foi sugerido é que o homem só seria o como Deus se tivesse o que Deus tem. Essa foi a gênese do consumismo. Como Deus tem tudo os seres humanos sonham em, também, ter tudo para, finalmente, encontrarem a essência do ser. Ledo engano, o homem já é pelo fato de existir. O ser humano precisa ser salvo desse engano, precisa se assumir como imagem e semelhança de Deus, com tudo o que isso significa, para ser liberto do consumismo, da insaciabilidade.

Em segundo lugar, percebe-se que o homem foi convencido de que não morreria, porém, isso foi a primeira coisa que aconteceu:

De início morreu para o outro, acabou a unidade que havia entre macho e fêmea. Passaram a envergonhar-se um do outro, a se proteger um do outro, não eram mais um extensão do outro, eram, agora, estranhos entre si, caminhando para que um se tornasse o inferno do outro. Aqui a fonte de toda a desagregação familiar, da violência e de toda a guerra. O ser humano precisa reaprender a ver-se a si mesmo no outro, é preciso retomar a unidade perdida para que haja futuro para a raça humana, precisamos caminhar para um mundo onde todos sejam apenas seres humanos.

E aí o ser humano morreu para Deus, teve medo, escondeu-se, perdeu a comunhão, perdeu o referencial, perdeu a chance de se tornar co-participante da natureza divina, o que, no caso dele, imagem e semelhança de Deus, é crucial para ser o que foi criado para ser. Eis a fonte do niilismo, pai de todo o tipo de suicídio. O ser humano precisa se dar conta de que sua existência tem propósito, que ele é como uma luva criada para expressar Deus. A luva expressa a mão humana, uma vez que a contenha; portanto, sem a vida de Deus a raça humana perde o sentido de sua existência.

E, então, o homem morreu para si mesmo, quando admitiu que estava nu, declarou que não conseguia mais se aceitar como era, não estava apenas protegendo-se de Deus ou do outro, mas de si mesmo. E o ser humano vem se protegendo como pode, criando máscara sobre máscara para tornar-se auto aceitável, não consegue mais se ver pleno, pronto, preparado, está sempre faltando algo, que, muitas vezes vai buscar na subjugação do outro ao seu prazer e necessidade. O ser humano precisa chegar ao ponto de poder dizer como Paulo, “pela graça de Deus eu sou o que sou”.

E o ser humano se tornou prisioneiro da morte, arma que Satanás usa para subjugá-lo, tornando-o títere das trevas. O ser humano precisa ser transportado do império das trevas para o reino do Filho do amor de Deus.

Finalmente, morreu a Terra, o habitat do homem, tornando-se, por causa dele, maldita. É preciso recuperar para a Terra a benção. É preciso renovar a Terra.

Evangelizar é anunciar que só graças ao sacrifício e a ressurreição de Cristo, o ser humano pode retomar a sua identidade, livrar-se de seus medos, auto aceitar-se, reaprender a ver-se no outro.

Cristo liberta o homem do inferno; possibilita-lhe o perdão; dá-lhe direção, pois, ser gente é ser igual a Jesus de Nazaré; torna-o habitação do Espírito Santo, possibilitando a recuperação de sua razão de existir; capacita-o a amar o outro, para construir a unidade perdida; leva-o a responsabilizar-se por sua casa, fazendo dele um eco-ser, alguém ocupado em curar, também, o planeta.

Eis as boas novas que Jesus trouxe. A Igreja é o lugar onde isso tem a sua expressão máxima, por isso ela é a primícia do Reino de Deus, porque a chegada do Reino é a salvação do homem e de suas circunstâncias.

O que?!?!

Metade

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é a platéia
A outra metade é a canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Oswaldo Montenegro

Aviacão

Ostra feliz não faz pérola

20 Abril, 2008

“Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que são as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos – seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem. Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostra felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostra felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão...” Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de suas aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a sua rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para a sua casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras de repente seus dentes bateram numa objeto duro que estava dentro da ostra. Ele tomou-o em suas mãos e deu uma gargalhada de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou a pérola e deu-a de presente para a sua esposa. Ela ficou muito feliz...” Ostra feliz não faz pérolas. Isso vale para as ostras e vale para nós, seres humanos. As pessoas que se imaginam felizes simplesmente se dedicam a gozar a vida. E fazem bem. Mas as pessoas que sofrem, elas têm de produzir pérolas para poder viver. Assim é a vida dos artistas, dos educadores, dos profetas. Sofrimento que faz pérola não precisa ser sofrimento físico. Raramente é sofrimento físico. Na maioria das vezes são dores na alma.

Rubem Alves

Solução

A alma que me cabe

– Os conservadores e reformados – disse o dono do haras ao jangadeiro – afirmam que a missão é fazer com que as pessoas abracem o nome do seu mestre de modo a evitarem o inferno e ganharem o céu; para eles, trata-se de salvar as almas não para este mundo, que é irremediável, mas para a vida eterna. Os liberais e libertários afirmam que a missão é transformar este mundo a partir do exemplo revigorante do seu mestre, de modo a construir nesta vida uma estirpe honorária de céu; para eles, trata-se menos de prometer o reino de Deus para a vida futura do que implementá-lo contra todos os impedimentos nesta existência. Qual é a sua opinião? Qual dos dois pensamentos está certo?

O jangadeiro terminou de fazer o nó que o incomodava e aspirou a maresia.

– O que sei sobre a vida eterna é que ela é para ser um presente, e presente a gente não deve cobrar e não deve esperar. O mesmo, você deve entender, posso dizer desta vida. A vida futura que deve me ocupar é o momento seguinte, porque o momento seguinte depende do que faço neste. Salvar as pessoas ou transformar o mundo? Se você pensar, qualquer um desses seria fácil demais, porque tanto o mundo quanto as pessoas estão fora de mim; a metamorfose deles nada exige de mim e para mim nada implica além daquilo em que me beneficia. O desafio do legado de Jesus é eu transformar a mim mesmo. É natural que transformando a mim mesmo estarei transformando o mundo, mas essa não é a questão. A alma que me cabe salvar continuamente é a minha.

Paulo Brabo

Quanto custa um pôr-do-sol?

19 Abril, 2008

Um grande empresário americano, estando em Roma, quis mostrar ao filho a beleza de um pôr de sol nas colinas de Castelgandolfo. Antes de se postarem num bom ângulo, o filho perguntou ao pai:”pai, onde se paga”? Esta pergunta revela a estrutura da sociedade dominante, assentada sobre a economia e o mercado. Nela para tudo se paga - também um pôr de sol - tudo se vende e tudo se compra. Ela operou, segundo notou ainda em 1944 o economista norte-americano Polanyi, a grande transformação ao conferir valor econômico a tudo. As relações humanas se transformaram em transações comerciais e tudo, tudo mesmo, do sexo à Santísssima Trindade, vira mercadoria e chance de lucro.

Se quisermos qualifica-la, diríamos que esta é uma sociedade produtivista, consumista e materialista. É produtivista porque explora todos os recursos e serviços naturais visando o lucro e não a preservação da natureza. É consumista porque se não houver consumo cada vez maior não há também produção nem lucro. É materialista pois sua centralidade é produzir e consumir coisas materiais e não espirituais como a cooperação e o cuidado. Está mais interessada no crescimento quantitativo – como ganhar mais – do que no desenvolvimento qualitativo – como viver melhor com menos – em harmonia com a natureza, com equidade social e sustentabilidade sócio-ecológica.

Cabe insistir no óbvio: não há dinheiro que pague um pór do sol. Não se compra na bolsa a lua cheia “que sabe de mi largo caminar”. A felicidade, a amizade, a lealdade e o amor não estão à venda nos shoppings. Quem pode viver sem esses intangíveis? Aqui não funciona a lógica do interesse, mas da gratuidade, não a utilidade prática mas o valor intrínseco da natureza, da ridente paisagem, do carinho entre dois enamorados. Nisso reside a felicidade humana.

O insuspeito Daniel Soros, o grande especulador das bolsas mundiais, confessa em seu livro A crise do capitalismo (1999):”uma sociedade baseada em transações solapa os valores sociais; estes expressam um interesse pelos outros; pressupõem que o indivíduo pertence a uma comunidade, seja uma família, uma tribo, uma nação ou a humanidade, cujos interesses têm preferência em relação aos interesses individuais. Mas uma economia de mercado é tudo menos uma comunidade. Todos devem cuidar dos seus próprios interesses...e maximizar seus lucros, com exclusão de qualquer outra consideração”(p. 120 e 87).

Uma sociedade que decide organizar-se sem uma ética mínima, altruísta e respeitosa da natureza, está traçando o caminho de sua própria auto-destruição.

Então, não causa admiração o fato de termos chegado aonde chegamos, ao aquecimento global e à aterradora devastação da natureza, com ameaças de extinção de vastas porções da biosfera e, no termo, até da espécie humana.

Suspeito que ao não quebrarmos o paradigma produtivista/consumista/materialista em direção do cultivo do capital espiritual e da sustentação de toda a vida, com um sentido de mútua pertença entre terra e humanidade, podemos encontrar pela frente a escuridão.

Devemos tentar ser, pelo menos um pouco, como a rosa, cantada pelo místico poeta Angelus Silesius (+1677) : “a rosa é sem porquê: floresce por florescer, não cuida de si mesma nem pede para ser olhada”(aforismo 289). Essa gratuidade é uma das pilastras do novo pardigma salvador.

Leonardo Boff

Made in China

Adão era

16 Abril, 2008

Adão era, entre coisas, o homem mais bonito da Terra.

A beleza é uma espécie primal de graça. É muito conveniente, na verdade, que graça signifique, basicamente, beleza. Poucas coisas são tão descaradamente gratuitas quanto a beleza. Em sua forma pura, talvez a sua única, a beleza não existe condicionalmente nem como recompensa. É arbitrária, imprevista, fora de propósito. A beleza é.

Antes que pudesse estremecer com a vergonha, a coragem ou a virtude, o Homem já era bonito.

Como todo mundo, Adão precisaria de tempo para fazer vir à tona as demais facetas da sua