O que havia antes do antes?

31 Janeiro, 2008


Grande parte da comunidade científica tem como dado assegurado que o universo e nós mesmos viemos de uma incomensurável explosão – big bang – ocorrida há cerca de 13,7 bilhões de anos. Há um derradeiro fossil desse evento, verificado pela ciência. Em 1965 dois técnicos norte-americanos da Bell Telephone Laboratories de New Jersey, Arno Penzias e Robert Wilson construiram um aparelho ultra sensível de microondas. Ao testarem o aparelho, constataram que nele havia um ruido que não podiam limpar. Ele vinha uniformemente de todas as partes do universo, uma onda baixíssima de três graus Kelvin.

Qual a origem deste ruído cósmico de fundo? Eles e outros astrofísicos constataram que era o último eco da grande explosão e o derradeiro resto da irradiação inicial. Tomando como referência as galáxias mais distantes que estão fugindo de nós a grande velocidade e cuja radiação vermelha está agora chegando a nós, concluiram que tal fato teria ocorrido cerca de 13,7 bilhões de anos atrás. Por isso, Penzias e Wilson ganharam o prêmio Nobel em física em 1978. Quer dizer, a nossa idade não é aquela de nosso nascimento mas essa, do nascimento do universo há tantos bilhões de anos, quando estávamos potencialmente todos lá juntos com os demais seres do universo. Este dado, segundo alguns, teria sido a maior descoberta da ciência.

Que havia antes do big bang? Os cosmólogos nos sugerem que havia o vácuo quântico, o estado de energia de fundo do universo, origem de tudo o que existe. Outros o chamam de abismo alimentador de todo o ser. Condensação dele, seria aquele pontozinho que primeiro se inflacionou como um balão e depois explodiu dando origem talvez a outros eventuais mundos paralelos, consoante a teoria das cordas. Mas o vácuo quântico, última realidade atingida pela microfísica, é ainda uma realidade discernível. É o antes. Mas antes deste antes dinscernível o que havia?

Num programa de rádio perguntaram a Penzias o que havia antes do big bang e do vácuo quântico? Ele respondeu: "não sabemos; mais sensatatamente podemos dizer que não havia nada". A seguir uma radiouvinte, irritada, telefonou acusando Penzias de ateu. Ele sabiamente retrucou:"Madame, creio que a senhora não se deu conta das implicações do que acabo de dizer. Antes do big bang não havia nada daquilo que hoje existe. Caso houvesse caberia a pergunta: de onde veio"? Em seguida comenta que se havia o nada e de repente começaram a aparcer coisas é sinal de que Alguém as tirou do nada. E conclui dizendo que sua descoberta poderá levar a uma superação da histórica inimizade entre ciência e religião.

O que podemos, honradamente, dizer é que antes do antes havia o Incognoscível, o Impenetrável, o Mistério. Ora, os nomes que as religiões atribuem àquilo que chamam de Deus ou Tao, ou Javé ou Olorum ou qualquer outra Entidade é exatamente de ser o Incognoscível e o Mistério a que se referia Penzias. Portanto, havia "Deus". Ele não criou o mundo no tempo e no espaço mas com o tempo e com o espaço.

Que havia antes do antes? Agora podemos balbuciar: Havia a "Realidade" fora do espaço-tempo, no absoluto equilíbrio de seu movimento, a Totalidade de simetria perfeita, a Energia infinita e o Amor transbordante. Sequer deveríamos usar tais nomes, pois eles surgiram depois, quando tudo já havia sido trazido à existência. Na verdade deveríamos calar. Mas como somos seres de fala, usamos palavras que nada dizem. Apenas são flechas que apontam para um Mistério.

Leonardo Boff

É proibido pensar


Procuro alguém pra resolver meu problema
Pois não consigo me encaixar nesse esquema
São sempre variações do mesmo tema
Meras repetições

A extravagância vem de todos os lados
E faz chover profetas apaixonados
Morrendo em pé, rompendo a fé dos cansados
que ouvem suas canções

Estar de bem com a vida é muito mais que renascer
Deus já me deu sua Palavra
e é por ela que ainda guio o meu viver

Reconstruindo o que Jesus derrubou
Recosturando o véu que a cruz já rasgou
Ressucitando a lei, pisando na graça, negociando com Deus

No show da fé milagre é tão natural
Que até pregar com a mesma voz é normal
Nesse evangeliquês universal
Se apossando dos céus

Estão distante do trono, caçadores de Deus ao som de um shofar
E mais um ídolo importado dita as regras para nos escravizar:
É proibido pensar! É proibido pensar!

Caso Hernandes: Capítulo 1213144646446

30 Janeiro, 2008

O juiz federal substituto Márcio Rached Millani, da 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo, especializada em lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro, recebeu no último dia 28 denúncia do Ministério Público Federal e abriu processo contra os pastores evangélicos Estevam Hernandes Filho e Sonia Haddad Moraes Hernandes, líderes da Igreja Renascer, pelo crime de evasão de divisas.

Os bispos da Renascer foram presos no aeroporto de Miami, nos Estados Unidos, em janeiro de 2007. O casal entrou nos EUA alegando que não portava moeda americana, mas depois admitiu que possuía mais de US$ 10 mil e teve a bagagem revistada.

Foram encontrados US$ 56,4 mil (cerca de R$ 112 mil) com o casal e um de seus filhos. Parte do montante estava na capa de uma bíblia e em um porta-CDs. Eles foram condenados naquele país pelo crime de contrabando de dinheiro e atualmente cumprem pena de reclusão.

No Brasil, tanto na saída, quanto na entrada em território nacional, é obrigatório declarar à Receita Federal o porte de moeda estrangeira em valor superior a R$ 10 mil. Segundo informações obtidas pela Receita Federal, nem Estevam, nem Sonia, declararam no aeroporto de Cumbica, quando embarcaram, que portavam quantia superior a esse limite. O sistema da Receita também foi checado e nenhuma declaração foi encontrada.

Uma vez concluído o inquérito policial, o Ministério Público Federal ofereceu denúncia contra Estevam e Sonia pelos crimes de evasão de divisas e falsidade ideológica (no caso, refere-se a omissão de informações à Receita).

A denúncia foi oferecida no final de novembro e foi apreciada e recebida este mês. No momento, Sonia Hernandes cumpre pena de reclusão de 140 dias. No mesmo período, Estevam cumpre prisão domiciliar. Após o cumprimento da pena, o casal entra em condicional, que durará dois anos.

Os advogados do casal Hernandes afirmam que vão se reunir nesta quarta-feira para discutir o caso e possíveis providências.

fonte: Redação Terra

A prioridade e urgência do evangelismo

Falando ontem ao plenário de cerca de 1.000 líderes na conferência "New Wineskine" , nos EUA, o ex-bispo anglicano de Nelson, na Nova Zelândia, Revmo. Derek Eaton demonstrou que o Cristianismo, apesar da decadência do Ocidente, conhece hoje suas mais altas taxas de crescimento. 90.000 pessoas confessam a Jesus Cristo como seu único Senhor e Salvador cada dia, dos quais 28.000 na China e 20.000 na África.

No espaço da Comunhão Anglicana são abertos 400 novos Pontos Missionários por semana e 8.000 mil pessoas se convertem a Cristo diariamente em uma comunidade anglicana. No ano passado 20 novas Dioceses foram criadas na Nigéria.

O evangelismo é o primeiro item das "avenidas de missão" de Lambeth, e a tarefa prioritária da Igreja, seguido da doutrina, da comunhão, do serviço e do profetismo.

Nos últimos anos a mídia, os métodos e os ministérios têm substituído o evangelismo pessoal e o evangelismo nos cultos. O laicato não sabe conduzir uma pessoa a Cristo, porque depende totalmente desses esforços coletivos. Pastores desaprenderam – ou nunca aprenderam – a pregar um sermão evangelístico e a convidar uma pessoa a se entregar ao Senhor, como ponto central do processo de conversão. Estamos apenas nutrindo os fiéis, ou, de forma extremamente lenta, atingindo uns poucos visitantes. Na maioria das comunidades a taxa de crescimento quantitativo deixa muito a desejar.
Denominações, como a Congregação Cristã no Brasil, cresce vertiginosamente sem o uso da mídia ou de programas, apenas com o evangelismo pessoal ou no culto.

Quem disse que anglicanos não evangelizam? Historicamente isso não é verdade? E, como o Espírito Santo agia quando não tínhamos mídia, métodos ou programas.

Como bispo, quero instar, fortemente, a todos os Clérigos e Ministros Locais da Diocese do Recife a pregarem, regularmente, sermões evangelísticos, inclusive, com um apelo sem apelação. Os clérigos devem ensinar e mobilizar os leigos para o evangelismo pessoal. Dois mil anos de História da Igreja nos deveria ensinar alguma coisa.

Popularizemos o Plano de Salvação e sejamos instrumentos da Graça de Deus para salvação dos pecadores. Resistamos à acomodação ou ao universalismo implícito.

Cabe a cada cristão – sob a liderança dos Ministros – reduzir o potencial da população do inferno e gerar novidade de vida.

Mãos à obra! O evangelismo é urgente!

Robinson Cavalcanti

Real(idade)

O Mapa da Violência nos Municípios, divulgado hoje pela Rede de Informação Tecnológica Latino Americana (Ritla) indica que, apesar do impacto positivo das políticas de desarmamento e a ação efetiva de redução da violência em vários Estados do País, as taxas de violência homicida ainda continuam exageradamente elevadas. Segundo a Ritla, o número de homicídios na década 1996/2006 cresceu mais do que o crescimento da população no mesmo período. Os dados mostram que o registro de homicídios passou de 38.888 em 1996 para 46,660 em 2006, representando um incremento de 20%, levemente superior ao crescimento da população, que foi de 16,3% também em relação a igual período.

O documento aponta, no entanto, resultados efetivos da política de desarmamento da população ao mostrar que, entre 2003 e 2006, houve uma redução anual da ordem de 2,9% no número de homicídios, "fato que pode ser atribuído às políticas de desarmamento", segundo a entidade. A Rede define desarmamento como a retirada de circulação de um número significativo de armas de fogo e a criação de regulamentação para sua compra, porte ou utilização. "Podemos verificar a evolução, pré e pós-campanha do desarmamento, dos meios utilizados nos homicídios", explica o autor do estudo, Julio Jaboco Waiselfisz.

As armas de fogo sempre foram o instrumento fundamental para cometer homicídios no País em todos os anos. A pesquisa demonstra que as quedas na utilização das armas de fogo nos homicídios aconteceram em 2004 e 2005. Já em 2006, a participação se estabilizou em 74,4%. No período de 2000 a 2003, o uso de outros meios, principalmente objetos "cortantes-penetrantes", aumentou em 2004 e 2005, e se estabilizou no ano seguinte. "Isto parece indicar que, em 2006, as políticas de desarmamento atuaram de forma residual, sendo acompanhadas por outras políticas".

fonte: O Estado de S. Paulo

Uma dura verdade...

29 Janeiro, 2008

As regras são, como todas as leis, um meio, não valem em si mesmas, são meios para seguir o caminho de Jesus. No entanto, os meios facilmente se transformam em fim. Depois de certo tempo acham que ser cristão é observar todas as regras, e as regras substituem o evangelho. Acham que a identidade da igreja - ou da Ordem - são as regras, as leis, isto é, os meios. Sacralizam as regras que são puros meios e fazem de conta que observando materialmente as regras se alcança o fim. No entanto, os meios podem também esconder o fim, desviar do fim quando se valorizam em si mesmos. A história mostra que essa possibilidade não é puramente teórica.

José Comblin, "Um novo amanhecer da igreja?" pg. 59

Dónde Están Los Ladrones

SÃO PAULO - Em 2007, cada brasileiro pagou R$ 18,14 para manter a Câmara dos Deputados, quantia maior do que a desembolsada para custear as despesas do Senado Federal: de R$ 14,35, de acordo com pesquisa realizada pela organização Transparência Brasil, mantida por ONGs (organizações não-governamentais) de combate à corrupção.

Os dados, que fazem parte do projeto Excelências, mostram que, enquanto a Câmara dos Deputados, apesar de ser mais cara, presta informações sobre seus gastos por meio do site na internet, o Senado não fornece qualquer tipo de dado sobre as despesas dos gabinetes dos parlamentares, seja para onde viajam, seja quanto isso custa.
Para onde vai o dinheiro?

Dividindo-se o orçamento das Casas, em 2007, pelas populações do estado a que pertencem (e do país, no caso das Casas Federais), determina-se quanto a manutenção dos mandatos custam para cada pessoa. De acordo com a pesquisa, é importante ressaltar que as Casas que mais pesam no bolso do consumidor são as que menos prestam contas.

Sobre presença no plenário, presença em comissões, verba de gabinete e viagens, a casa legislativa de Roraima não apresenta nenhum dado. Por outro lado, o cidadão do Estado é o que mais paga para manter os parlamentares: R$ 145,19 per capita, quantia mais de dez vezes superior ao último colocado, São Paulo (R$ 10,63).

Depois de Roraima, Acre (R$ 112,13 per capita), Amapá (R$ 110,23), Distrito Federal (R$ 99,14), Rondônia (R$ 67,57), Sergipe (R$ 65,01), Mato Grosso do Sul (R$ 63,65), Rio Grande do Norte (R$ 49,87), Mato Grosso (R$ 46,24), Santa Catarina (R$ 40,92), Piauí (R$ 37,42), Tocantins (R$ 36,17), Alagoas (R$ 35,40), Goiás (R$ 34,62) e Amazonas (R$ 31,42) completam a lista das 15 casas que mais pesam no bolso do cidadão.

Desta lista, apenas Sergipe e o Distrito Federal, disponibilizam dados à população, respectivamente, sobre presença no Plenário e sobre verba de gabinete. Mesmo assim, é só uma.

fonte: Transparência Brasil

Como Deus vê

Deus vê tudo, nada passa despercebido de seus olhos. Ele conhece a trilha da formiga negra que carrega uma folha picotada na noite da selva amazônica. Sabe dos intentos do meu coração trambiqueiro; no trajeto imediato entre o nascedouro da minha fala e sua expressão, Deus tem ciência perfeita.

Com tamanha familiaridade, como Deus me vê? Com desdém, certamente. Não amadureci como deveria, não subi os degraus da excelência, não atingi um mínimo de prestígio religioso. Chego aos 54 anos com um sentimento do dever descumprido, com a mesma sensação daquele guri que vai para o exame sem ter estudado. Sinto-me como um pirata que jamais descobriu o mapa do tesouro; um Indiana Jones que nunca viu a Arca; um Quixote que nunca abandonou sua biblioteca.

Deus tem todo o direito de me chamar de servo infiel; devo imitar a Pedro: “Afasta-te de mim, que sou pecador". Mereço as chicotadas devidas ao servo que sabia a vontade do seu Senhor e não obedeceu.

Todavia, preparo uma festa com muita bagunça. Quero celebrar o amor de Deus que conquistou esse desdém merecido por mim. A poucos dias do meu aniversário, percebo que o Senhor aumenta o volume de seu megafone celestial. Aposto que ele vai gritar no dia 14 de janeiro: “Você é meu filho amado, estou satisfeito com sua vida”.

As potestades acusadoras do inferno querem impedir a disposição divina de contradizer o castigo merecido - essa disposição tem o nome teológico de graça. Mas Deus insiste, e por três vezes ele diz a mesma coisa a todos os seus filhos adotados por causa do Unigênito: "Você é meu filho amado, estou satisfeito com sua vida".

Assim, livre e querido, estou disposto a retomar as rédeas de minha vida mesmo que o sol já comece a declinar.

Ricardo Gondim

Deus é brasileiro?

28 Janeiro, 2008

A história do Brasil, vista pela ótica do governo, pode ser caracterizada pela alternância entre momentos de euforia e desalento. Assim ocorreu durante a ditadura militar, quando o "Pra frente, Brasil" enchia de ufanismo os arautos dos maquiados índices econômicos delfinianos e vangloriavam-se de obras como a ponte Rio-Niterói e a rodovia Transamazônica, enquanto nos porões do regime borrifavam-se as paredes com sangue dos torturados e assassinados.

Todos os governos pós-ditadura - Sarney, Collor, Itamar e FHC - exaltaram seus "milagres" econômicos, impondo à nação planos mirabolantes que jamais reduziram a miséria, promoveram a distribuição de renda e preservaram a soberania nacional.

Lula evita tratamento de choque na economia, mas multiplica a riqueza do andar de cima, asfixia a classe média com o peso de impostos exorbitantes e faz de conta que ameniza a miséria dos beneficiários do Bolsa Família, incapazes de se emancipar da mesada oficial e produzir a própria renda.

Nossos governos não têm estratégias, têm programas de euforia cíclica para mero efeito eleitoral. Não miram a história, olham o próximo pleito. No atual, a euforia cíclica começou com o Fome Zero, passou para a Campanha Nacional de Alfabetização, alardeou o lançamento do PAC, proclamou o fim da crise de energia, comemorou a auto-suficiência em petróleo (e nem por isso reduziu o preço da gasolina) e, agora, aclama Deus como brasileiro pela descoberta de inesgotável manancial de petróleo na bacia de Santos.
Será mesmo que Deus é brasileiro? Quanto às nossas condições ambientais, estou convencido de que Ele, ainda que não seja brasileiro, sem dúvida privilegiou o nosso país: temos dimensões continentais e nenhuma catástrofe natural, como terremoto, furacão, ciclone, tornado, tufão, vulcão, deserto, geleira. A Amazônia ocupa 2/3 de nosso país e conserva 12% da água potável disponível no planeta, sem contar o vasto potencial do Aqüífero Guarani, ainda inexplorado no centro-sul do país. Produzimos todo tipo de alimentos e temos uma área cultivável de 600 milhões de hectares.

Se o Brasil não é o Jardim do Éden a culpa não é de Deus, é dos políticos que elegemos e de nossa inércia diante do estrago que produzem, atuando em favor, não do povo, mas de seus interesses corporativos. Nossa abundante riqueza é injustamente distribuída. Saúde aqui é privilégio de quem dispõe de plano privado; a educação pública está sucateada; jamais conhecemos a reforma agrária; nossas cidades estufam-se de favelas; a desigualdade social é gritante; a violência urbana provoca mais vítimas por ano que a guerra dos EUA ao Iraque.

Deus não pode ser culpado por nada disso. A culpa é de governos que prometem mudanças e, uma vez empossados, deixam tudo como dantes no quartel de Abrantes, restritos a políticas públicas eleitoreiras, incapazes de atacar as causas que promovem tamanhos desníveis sociais. Mudam-se governos, perenizam-se as estruturas injustas.

Deus não tem nacionalidade nem religião, mas tem rosto. Está no capitulo 25 do evangelho de Mateus, versículos 31 a 46: "tive fome e vocês me deram de comer etc." Quem vê o faminto, o desamparado, o enfermo, o migrante, enfim, o excluído, vê Deus. É neles que Deus quer ser visto, servido e cultuado.

Nesse sentido, Deus pode ser visto e servido em qualquer lugar do Brasil, pois toda parte está repleta de gente com fome, desamparada, enferma etc. Deus não é brasileiro, mas esse contingente enorme de excluídos - cerca de 12 milhões de pessoas - é a mais singular imagem e semelhança de Deus, e neles Ele quer ser amado.

Resta saber se estamos dispostos a reconhecer a presença de Deus, não apenas nos benefícios naturais, como poços de petróleo; mas; sobretudo; na face daqueles que, neste país, não escolheram nascer e viver como miseráveis e pobres, desprovidos de condições mínimas de acesso aos bens que asseguram ao ser humano dignidade e felicidade. Na loteria biológica, eles tiveram o azar de engrossar os 2/3 da humanidade que, segundo a ONU, vivem abaixo da linha da pobreza ou, em termos financeiros, com renda mensal inferior a US$ 60.

Se nenhum de nós escolheu a família e a classe social em que nasceu, a loteria biológica é injusta e pesa sobre os premiados uma dívida social. Resta-nos assumi-la para que Deus seja de fato brasileiro: quando todos, enfim, tiverem direito ao "pão nosso" e, assim, proclamarem sem mentira que ele é "Pai/Mãe nosso".

Frei Betto

A bíblia

A Bíblia já dizia
Pra quem sabe entender
Que há tempo de alegria
Que há tempo de sofrer
Que o tempo só não conta
Pra quem não tem paixão
E que depois do encontro
Sempre tem separação
Que o dia que é da caça
Não é do caçador
E que na alternativa
Viva e viva
E viva o amor

A gente vem da guerra
Pra merecer a paz
Depois faz outra guerra
Porque não pode mais
E deixa andar e deixa andar
Até a guerra terminar
Vamos curtir, vamos cantar
Até a guerra se acabar

Vinícius de Moraes

Surf...


O que fizemos com o Natal e o que vamos fazer com o Ano-Novo?

27 Janeiro, 2008



Passados os festejos de natal e de ano-novo, é bom fazer um pequeno inventário sobre a qualidade e seriedade dessas comemorações.

Para o comércio foi um sucesso enorme. Em grande parte por causa da decoração de natal. Só os 622 centros comercias brasileiros investiram 350 milhões de reais nesse setor.

A ausência cada vez maior do verdadeiro sentido do natal assustou até pessoas cultas sem nenhum compromisso com o cristianismo. Em sua coluna no Jornal do Brasil, o escritor Fausto Wolf disse que sempre quis acreditar na concepção sobrenatural de Jesus Cristo, na remissão dos pecados através de sua morte, na ressurreição da carne e na vida eterna. Porém, se limita apenas a gostar de Jesus porque este era pobre, ofendido e maltratado assim como nós somos. Ele se queixa dos ricos que, desde Adriano, “encheram Jesus de jóias, perfumaram-no, trancaram-no num palácio longe do povo para melhor poderem explorar esse mesmo povo”. Wolf cita o pronunciamento de alguém que faz sérias acusações: “É no período natalício que os veículos de comunicação em geral e a televisão em particular mais torturam este país. Uma aluvião de bestas do apocalipse cai de uma só vez sobre a pobreza ignorante e a classe média abobalhada: ‘Compre, compre’. Sei da força do Verbo, mas odeio o natal. Creio que só um homem o odiaria mais que eu: [o próprio] Jesus Cristo”.

O filósofo Leandro Konder também protestou: “Como descrente que sou -- marxista convicto irrecuperável -- quero apenas registrar minha expectativa de que o festival consumista em torno de Santa Claus não atrapalhe a celebração do aniversário do Justo”. Até o empresário Antônio Ermínio de Moraes, um dos homens mais ricos do país, desejou, dois dias antes do natal em sua coluna na Folha de São Paulo, que os brasileiros tivessem um “santo natal junto às suas famílias” e que reservassem algum tempo para pedir a Deus que "fortaleça entre nós o amor e o respeito pelo próximo”, porque “a felicidade dos seres humanos não se resume ao êxito econômico”.

É possível que um dia, quando nossos olhos forem verdadeiramente abertos, nós enxerguemos a grandeza do natal na perspectiva dos Evangelhos sinóticos e no Evangelho de João, onde se lê que “no princípio [o mais remoto] era o Verbo [Deus, o Filho], e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (...) e o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio da graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (João 1.1,14). E, então, a profanação do natal seja confessada com muita tristeza, muitas lágrimas e muito arrependimento.

Ainda há tempo para acertarmos o passo na caminhada iniciada a menos de um mês, quando a entrada do novo ano nos aproximou um pouco mais do fim da história. Que Deus seja propício a cada um de nós!

Elben M. Lenz César - diretor e redator da Revista Ultimato

O teatro mágico

De ontem em diante serei o que sou num instante agora
onde cada um e cada uma se sente contagiado pela beleza de ser o que é
a cada acorde, que acorde e faça forte a palavra do poeta
a parte da frente nos mostra metade do que buscamos ser
sendo que a parte de dentro a mágica de um tempo "ingenuino"
ploct, ploct, ploct plin
não quero mais a idéia da propaganda
não quero mais a música da quitanda
não quero mais a mão que é voraz
mas quero transbordar de esperança
quero refazer toda ciranda quero
o pão que satisfaz
se antes vinha a chuva e o sabiá
agora preciso da luta e o mar
pode ser num palco ou n'alguma rua
juntam os sonhos à bolinhas de sabão
e de nossos poros fazem transpirar sorrisos
que os deuses e os anjos de todas as idades estejam sempre dispostos
afinal, os opostos se distraem, mas os dispostos... os dispostos se merecem

Victor Hugo

Niver do Cabral

O ano da sabedoria

26 Janeiro, 2008

Já se perguntou por que fracionamos o tempo? Por que o dividimos em pedaços de tempo? Milênio, década, ano, mês, semana ou dia? Veja. Não só contamos o tempo: quantos anos ou meses? Faltam quantos minutos para o novo ano? Além de contarmos o tempo, nós o dividimos em pedaços com nome. Pedaços que significam. Mas o tempo por si só é indiferente ao nosso calendário. O tempo passa sempre e irresistivelmente. Não interessa se mudou o mês, se acabou a semana, ou se inicia um novo ano. Por que, então, organizamos o nosso modo de lidar com o tempo dividindo-o em frações com nome?

Arrisco uma resposta. Porque somos carentes de sabedoria. O tempo passa com uma força que nada ou ninguém pode detê-lo. Minucioso e implacável. Aconteça o que acontecer. Mas nós não podemos aceitar que ele passe sem sentido, sem significar algo. Que ele venha sem que nós possamos esperar um futuro melhor. Que ele passe e nós não possamos nos despedir do que foi ruim. Que ele siga em frente e nós fiquemos com as mãos vazias, ou será com a alma vazia?

Há duas maneiras de dar significado ao tempo. Uma é iludi-lo. Tentar passar a perna no tempo. Tentamos trapacear o tempo quando fingimos que o passado não foi importante. Vejo isso acontecer quando alguém sugere renunciar o passado ou simplesmente esquecer tudo e seguir em frente. Quem tenta trapacear empurrando para debaixo do tapete o que passou, descobre tarde que o passado tem o poder de estar sempre e amargamente presente quando não é assumido. Outra forma de tentar trapacear o tempo é o otimismo ingênuo. No próximo ano tudo será bom, tudo dará certo! Basta ter fé. Basta orar com força. Basta acreditar e tudo será um céu de brigadeiro e um mar de almirante! Não demora muito e se descobre que o novo ano envelhece rápido e os problemas não tratados se repetem como em uma ladainha. Não adianta ter fé, orar com força ou ser otimista se as causas dos problemas e vícios não forem enfrentadas.

A outra maneira de lidar com tempo é a sabedoria. É disso que fala o poeta no Salmo 90: ensina-nos a contar os nossos dias para que alcancemos um coração sábio. A sabedoria não chama de belo o que foi feio, nem finge que o mal não aconteceu. Também não se engana com o futuro. Sabe que a vida continua sendo uma mistura de aflição e prazer. Que há coisas que melhoram e coisas que pioram. Mas não se rende a um conformismo suicida. Olha para o que passou e aprende. Olha para o futuro como um tempo não definido e toma as decisões que importam.

Tenho compartilhado com alguns amigos uma impressão sobre o ano de 2007. Talvez o ano mais difícil e dolorido dos vinte e seis da história da Betesda. Acredito que o ano de 2007 ainda será o ano mais importante de nossas vidas. O ano em que nossas ilusões desmoronaram (e é sempre muito melhor viver sem ilusões). Em que o discurso prepotente de uma jovem igreja teve que dar lugar a uma confissão de fraqueza. Em que as pretensões de gigantismo, vaidosas e distantes do Reino proposto por Jesus Cristo, cederam lugar para projetos mais afetivos e modestos, que se parecem muito mais com o modo como Ele andou entre nós.

Zuenir Ventura escreveu uma obra que relata os acontecimentos terríveis da Ditadura Militar no ano de 1968, o tema escolhido é significativo: “1968, O Ano Que Não Terminou”. Não terminou porque repercutirá para sempre na história do povo brasileiro. Ouso dizer que 2007 é um ano que não pode acabar. Ele precisa continuar em nossas vidas. Não como um remorso, ou como uma ferida aberta. Nem como um demônio a ser exorcizado. Mas como uma presença redentora. Um ano crucificado. Um ano em que aprendemos a morrer para descobrir o que realmente é viver. Um ano debaixo do sangue do Cordeiro. Não um ano para tirar lições, chega de reduzir a vida à doutrina, mas para arejar nossa humanidade. O ano que nos terá inspirado a amar mais e esperar menos. A lamentar menos e cuidar mais. A abraçar mais e avaliar menos. A doutrinar menos e crer mais. A fazer menos e ser mais. A estender mais a mão e prometer menos. Mais vida e menos estratégias. Mais misericórdia e menos religião. Mais Betesda e menos denominação.

Elienai Cabral Junior

Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido...


Pablo Neruda

Os "Sem Casinha"

25 Janeiro, 2008

Mais e mais cães e gatos terminam abandonados em abrigos de sociedades protetoras de animais ou morrem confinados em casas desertas retomadas pela justiça - conseqüência da crise do setor imobiliário nos Estados Unidos.


Os mutuários americanos, que perderam suas casas por inadimplência, são obrigados a abandonar os animais de estimação.

Enquanto alguns donos os confiam a abrigos, outros se desembaraçam deles na rua ou os deixam fechados na casa que foram obrigados a deixar ou até num armário, relata Stephanie Shain, da organização Human Society of the United States.

"Encontramos muitos animais mortos de fome", lamenta ela.

Alguns levam semanas a sucumbir a fome e marcas de sus garras ou mordidas são encontradas em portas e janelas das casas apreendidas. "Comem qualquer coisa - móveis, tapetes, quadros - para tentar sobreviver", explica.

Em Cincinatti, mais de 60 gatos foram encontrados numa casa abandonada.

Nos últimos meses, mais e mais famílias se apresentam em abrigos para animais e dizem que não têm "outra escolha". "Contam que perderam a casa e precisam mudar-se", contou Terri Sparks, porta-voz do maior abrigo de Chicago, Animal Welfare League.

Entre 15 e 20 famílias por semana se apresentam para entregar seus bichinhos e a polícia encontra média de dois a três animais por semana em casas desertas.

Cerca de dois milhões de famílias tiveram que devolver suas casas nos 11 primeiros meses de 2007. Isto representa um aumento de 73% em relação à 2006, ou seja um lar num total de 63 em nível nacional, segundo a empresa RealtyTrac que compila dados sobre o setor imobiliário.


fonte: AFP

O Evangelho e a aculturação indígena

É a evangelização indígena, realizada por movimentos cristão evangélicos, um dos fortes fatores para a aculturação do índio e consequente perda de sua identidade ?

Esta pergunta me foi feita algumas vezes nos últimos anos, e demonstra por um lado a legítima preocupação com a preservação da identidade cultural indígena, e por outro a ausência de maior informação quanto à raíz do movimento missionário evangélico que, quanto à culturalidade, é preservacionista. Pensemos um pouco sobre esta questão.

A aculturação é um processo de molde social imposto por uma sociedade distinta, que pode ser objetiva (imposição aberta, colonialista) ou subjetiva (imposição baseada na atração e conseqüente desvalorização do sistema cultural materno em detrimento do apresentado) sendo que ambas são igualmente danosas.

No presente, entre os indígenas brasileiros, a aculturação ao universo 'branco' se dá por três pólos de atração: educação, saúde e comércio. No passado, especialmente, a a catequese católica seria também um dos fortes pólos de atração. indigenistas possuem iniciativas a fim de prover, desta forma, educação, saúde e subsistência aos indígenas sem que os mesmos saiam de seus territórios e, conseqüentemente, sejam envolvidos pela cultura não indígena.

Portanto a permanência ou não em sua 'homeland' - território natal - é vital para a preservação cultural. Tenho observado que as perdas culturais mais profundas, e irrefreáveis, vêm acompanhadas da perda do território e sucessiva troca por outro onde a expressão grupal possui diferentes códigos e, em geral, o estranho passa por um processo que vai da discriminação social até a marginalização.

A iniciativa missionária evangélica vem cercada por estes cuidados culturais através da defesa do território. Através da análise lingüística e valorização da cidadania indígena dentro da escala cultural nacional (inter-etnica) se promove um menor esvaziamento do território natal indígena. A SIL, por exemplo, é sem dúvida uma entidade colaboradora para a permanência indígena em seu território natal através de seu esforço de não apenas grafar as línguas indígenas mas facilitar a produção de material lingüístico local que venha a saciar a sede do índio pelo registro, produção literária e transmissão de conhecimento em um nível mais amplo. Por si, esta iniciativa já preserva a culturalidade indígena nacional. Também as atividades sociais (médicas, de educação e subsistência) quando desenvolvidas por entidades missionárias evangélicas são, via de regra, baseadas na própria lingua/cultura/território indígena sendo que as mesmas se enraízam junto a etnias específicas, de forma menos móvel e mais permanente, o que também contribui para a permanência territorial e preservação da cultura.

Em segundo lugar podemos ver a iniciativa missionária evangélica como promotora da permanência territorial através da apresentação dos direitos humanos universais ao povo indígena. Através do conhecimento dos direitos humanos (do índio em relação ao índio e do índio em relação ao não índio) percebemos positivas e fortes manifestações em defesa do próprio modo de pensar, viver e agir. Esta apresentação dos direitos humanos produz também uma luta pela defesa do respeito às escolhas do índio, o que faz com que este possa se manifestar livremente para dizer sim ou não a qualquer prática que julgue relevante avaliar, seja indígena ou não indígena. A tendência antropológica de engessar o índio à sua própria história não lhe dando a permissão de revisar sua vida e costumes (bem como fazer escolhas que julgue necessárias) como cessar o infanticídio, por exemplo, são questionáveis e, se aplicadas ao Brasil escravagista do passado produziria uma sociedade estática em suas opções sociais e teríamos, hoje ainda, fazendas cheias de gente escravizada e sem voz.

Tendo em mente este cenário podemos pensar no ponto de maior controvérsia quando se trata da atuação missionária evangélica, que é a exposição do evangelho ao índio. A controvérsia se enraíza no pressuposto que a teologia e antropologia possuem em relação ao evangelho. Se por um lado a antropologia clássica o vê como um elemento de literatura religiosa especificamente cristã, e promotor de uma cultura cristã (no presente) ocidentalizada; por outro lado os cristãos vêem o Evangelho como uma palavra inspirada por Deus e transmitida aos homens, a todos os homens, de forma a-cultural e a-temporal, ou seja, que tem a capacidade de comunicar a verdade de Deus a todos os homens em todas as culturas em todos os tempos. São, desta forma, verdades universais. A forma de transmiti-lo, de maneira inteligível e com padrões culturais de compreensão, chama-se contextualização.

Portanto, dentro do pressuposto cristão o evangelho não acultura o indígena mas vem lhe trazer a verdade universal ainda por ele desconhecida, em sua própria língua e cultura. Igrejas indígenas (cristãs evangélicas) autóctones como os Wai-Wai são um bom exemplo de como o indígena convertido e seguidor de Jesus continua sendo índio, com sua língua, sua cultura e sua compreensão da vida. A conversão interior, porém, provoca efeitos visíveis na interpretação da vida e escolhas diárias, e reside aí, creio eu, a raíz das maiores controvérsias quanto à evangelização indígenas. Estas surgem quando o índio, convertido, passa a revisar a vida e evitar, por exemplo, a participação em ritos e atos normalmente admissíveis e vividos em seu povo e cultura. Seria o caso, por exemplo, de um indígena que descobre o adultério da esposa e, ao contrário da tradição histórica, resolve não matá-la mas sim perdoá-la. Seria o outro que passa a amar seus inimigos (talvez patrões injustos, exploradores) ao invés de roubá-los e amaldiçoá-los. Seria ainda a mãe que resolve manter sua filhinha viva, ainda que enferma, em lugar de envenená-la como seria o esperado na aldeia. Ou ainda o rapaz que não toma mais caxiri, o ancião que passa a ver na pajelança elementos ruins para o sua vida, a criança que perde o medo do espírito que produz o trovão e assim por diante. Estas mudanças de vida, que geram alterações posteriores na própria cosmovisão, são causadoras de desconforto no mundo acadêmico não cristão.

Antes de prosseguirmos façamos, porém, uma diferença entre cultura e história pois quando se afirma que o indígena passa a não praticar certas atividades culturais, o que se quer dizer é que este indígena escolheu não praticar certas atividades históricas, visto que todas as atividades da vida humana em uma certa sociedade, incluindo suas escolhas, são atividades culturais. Nenhuma cultura é estática. A isenção da participação em alguns atos e cenários tradicionais não pode ser visto como uma aculturação, mas sim como uma escolha (baseada na conversão) de postura de vida dentro do seu universo local e com base em sua crença, ou fé. O rio Içana, por exemplo, cristão e evangélico, é conhecido como o rio onde 'não se bebe'. Afirmar que é 'cultural' beber, como frequentemente ouvimos, na verdade deveria ser melhor referido como sendo ´histórico´ beber, seja o caxiri ou cachaça. O fato de vários indígenas do Içana não beberem o caxiri ou a cachaça não pode ser visto como um rompimento cultural o aculturação, por um motivo: beber é cultural da mesma forma que qualquer outra atividade praticada na sociedade como pescar, caçar, casar, adulterar, trair, matar, brincar etc. O fato de uma atividade social ser 'cultural' sugere apenas que possui raízes de compreensão e prática naquele grupo.

O Evangelho, assim, não acultura mas sim expõe valores que promovem, de fato, mudança dentro da própria cosmovisão e universo do povo sem lhe retirar aquilo que (ele) julga essencial para viver e ser índio.

Nesta secular controvérsia sobre a presença missionária evangélica entre os índios, a fim de tratarmos os indígenas como moralmente iguais, mesmo que etnicamente distintos, precisaríamos predefinir menos suas escolhas e ouvi-los mais. Outro dia, viajando pelo Alto Rio Negro, ouvi um indígena dizendo: você pode me falar de Jesus ? Daríamos a qualquer um, neste Brasil, o direito de ouvir do que deseja ouvir. Porque não o índio ?

Ronaldo Lidório

Exausto

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Adélia Prado

(in “Bagagem” São Paulo: Ed.Siciliano, 1993)

Doação

Sem limite de "aplicação"

24 Janeiro, 2008

Sinais dos tempos

O amor vem esfriando na medida em que crescem a iniqüidade, o individualismo, o narcisismo.


Os discípulos de Cristo, um dia, perguntaram a ele quais seriam os sinais que antecederiam a sua vinda. Ele respondeu esta pergunta numa longa pregação,, conhecido como “sermão profético”. Entre os sinais apresentados por Jesus, destaca-se o surgimento de falsos Cristos e falsos profetas, que iriam enganar muitas pessoas. O Filho de Deus falou também de guerras entre as nações e de abalos sísmicos. No entanto, há um sinal que me chama a atenção de forma particular: trata-se daquele que fala do esfriamento do amor. Jesus disse: “E por se multiplicar a iniqüidade, o amor se esfriará de quase todos” (Mateus 24.12).

A relação que Jesus apresenta é inversamente proporcional: o crescimento da iniqüidade implica no enfraquecimento do amor. Vejam se não é esse o nosso caso. Na medida em que cresce o pecado em suas mais variadas formas, da corrupção ao crescimento da miséria social, da pornografia a todas as formas de banalização sexual, a violência nas ruas e nos lares, o individualismo autocentrado e narcisista, esfria o amor genuíno e sincero no ser humano. Somos uma geração que vem desaprendendo a amar. Não estou me referindo a uma forma platônica de amor ou aos modelos hollywoodianos que enchem nossa sala de estar todos os dias, mas ao amor conforme Deus o revela nas Escrituras. Amos naquela forma como ele mesmo nos tem amado e celebrado uma aliança com seu povo. Provavelmente não há nenhum texto mais completo sobre o amor do que I Coríntios 13, um texto que precisa ser revisitado por nós diante daquilo que vemos todos os dias.

Naquela epístola, Paulo fala de um amor que é paciente, que não se perde diante da primeira crise ou da primeira desilusão; um sentimento bondoso, não ciumento e humilde. Um amor que não se comporta de forma inconveniente, mas é altruísta, e está sempre procurando atender o interesse dos outros e não o seu próprio. É também um amor que não se ira facilmente, que não guarda rancor, que não se alegra com a injustiça mas que salta de júbilo quando a verdade triunfa. É um amor que sabe que o sofrimento sempre acompanha aquele que ama. Um amor que se sustenta sob fundamentos sólidos e verdadeiros, que não tem a pressa dos egoístas, mas que sabe esperar e possui uma enorme capacidade de suportar adversidades.

Este amor que Paulo nos descreve vem diminuindo e esfriando na medida em que cresce o egoísmo alimentado pelo individualismo da cultura narcisista, onde o que importa sou eu, meus desejos, meus interesses, meu momento, minhas necessidades, minha realização, meus projetos, o que eu penso, quero e preciso. Imagino que quando duas pessoas modernas, com este espírito individualista e narcisista, se encontram e resolvem se amar, envolvem-se num modelo de relacionamento onde, à primeira vista, tudo indica que se trata de um belíssimo e invejável romance. Contudo, diante do primeiro obstáculo, da primeira frustração, de um simples desentendimento, da dor e do sofrimento, ou do cansaço e da vontade de experimentar “novos ares”, abandonam aquele amor que foi grande apenas enquanto durou em troca de um outro que atenda as necessidades de um ego inflado, imaturo e insaciável.

É por causa da iniqüidade deste espírito individualista e narcisista que os pais vão abandonando os seus filhos porque têm coisas mais importantes a fazer, como ganhar dinheiro ou buscar o sucesso, do que cuidar deles e amá-los; alguns tornam-se indiferentes e os abandonam à própria sorte na esperança de que na escola ou na vizinhança encontrarão quem os ame e eduque. Outros há que tentam manipulá-los e controlá-los em virtude da mesma iniqüidade, da mesma falta de tempo e da mesma insegurança. Os mais modernos já preferem não tê-los porque sabem que o amor que possuem não ultrapassa a epiderme – não são capazes de amar nada além do seu próprio ego. Por outro lado, os filhos vêm se rebelando contra seus pais, negando-lhes o respeito e a honra. São também filhos da iniqüidade do nosso tempo, do mesmo individualismo, do mesmo egoísmo.

Os jovens trocaram o amor pelo sexo para descobrirem lá na frente, depois de tantas idas e vindas e muitas “ficadas”, que são bons de cama mas frios e imaturos na arte de construir um amor que supera as fronteiras do egoísmo e que cresce na medida que o tempo passa. Os escândalos de corrupção que mais uma vez abalam o país têm, na sua raiz, o mesmo mal. Todos buscam o que é seu e nunca o que é dos outros. A epidemia que hoje toma conta da nação não é a corrupção – ela é apenas mais uma expressão de uma nação, onde a iniquidade cresceu tanto que fez o amor murchar.

Eu nunca fui um desses crentes interessados em decifrar os códigos para adivinhar quando é que Jesus Cristo volta. Tal aritimética não me interessa. Apenas sei que ele voltará, e isso me basta. No entanto, devo confessar que olhando para o cenário do mundo hoje, tenho orado por uma intervenção divina e espero que ela aconteça logo, seja na forma de um novo avivamento – daqueles que penetram na raiz do coração humano e o transforma e não esta panacéia religiosa que alguns chamam de “derramamento do Espírito” – iu de uma intervenção escatológica, final ou não. Oro por isto porque não é mais possível suportar tanta injustiça, tanta miséria, tanta imoralidade, tanto pecado.

Oro também para que Deus nos preserve fiéis a ele e à sua Palavra, para que aqueles que reconhecem o amor divino e são alimentados e inspirados por ele cresçam cada vez mais amparando o pobre, cuidando do necessitado, lutando pela justiça, permanecendo fieis aos termos da aliança com Deus e com o próximo. Jesus, naquele sermão profético, afirma que “o amor se esfriará de quase todos”. E é nesta pequena exceção que quero me incluir, a mim e a você, mesmo que sejamos apenas um pequeno remanescente, mas um remanescente que não se curva diante dos Baalins do mundo moderno.

Ricardo Barbosa de Souza

Show de relevância...

A juíza da 8ª Vara da Fazenda Pública da Bahia, Aidê Ouaiss, concedeu hoje (23) liminar para anulação da indicação do comerciante Clarindo Silva, um esbelto senhor de 58 quilos, para rei momo do carnaval baiano.

Aidê atendeu à pedido encaminhado pela promotora Helite Viana, do Ministério Público da Bahia, que considerou a indicação uma fraude, pois segundo apurou, a escolha foi realizada de forma "aleatória e arbitrária".

O pedido do Ministério se baseou ainda nos depoimentos dos doutores da Universidade Federal da Bahia, Roberto Albergaria, e da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Paulo Miguez, que consideraram a indicação de Clarindo uma agressão ao patrimônio cultural que representa o carnaval baiano.

A liminar foi comemorada pela direção da Associação dos Gordos e Obesos de Salvador, que estava insatisfeita com o desrespeito ao regulamento original do concurso. O rei momo teria de pesar pelo menos 120 quilos.

fonte: Yahoo

Slide Show Sofia

23 Janeiro, 2008



Sonhos de menina
A flor com que a menina sonha

está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha a sombrinha
de teia de aranha . . .

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?

Cecília Meireles

Molusco X Febre Amarela


Simplesmente gente

Gente é ruim, mas é boa. Todas as gentes do mundo têm algo de Deus. Um indivíduo, um sujeito qualquer – gente simples, que vai construindo a história de Deus no mundo



Uma vida é importante. Um indivíduo, um sujeito qualquer – Maria, Pedro, Carolina, Raimundo... Gente qualquer, gente simples. Gente que vai construindo a história de Deus no mundo. Não é fácil viver à luz deste entendimento. Vivemos cercados de aparatos que nos afastam da realidade simples de quem nós somos. Entretenimentos, atos, rituais, sistemas conceituais religiosos. É difícil a gente ser real; ser apenas gente. Na maioria das vezes, representamos. Representamos o que gostaríamos de ser ou que pensamos que Deus gostaria de que nós fôssemos. Representamos religião – como se Ele, que vê lá de cima e sabe tudo, não soubesse quem somos, totalmente e pelo avesso.

“Gente quer ser feliz, gente quer respirar pelo nariz”, diz Caetano Veloso. Gente é pra brilhar. No filme Central do Brasil, as caras do povo pedindo cartas sempre me fazem chorar. “Fala pra mãe que eu estou bem”, diz a prostituta, que tem família católica que a ama; “Vê se me esquece, seu cafajeste!”, fala outra mulher dolorida. Saudade, amor, vergonha, dor; coisa de gente.

Amo a Dôra de Central. Ela teve a cara de pau de vender a criança, trocando-a por uma televisão com controle remoto, na sua ética dúbia de uma vida ressequida, deserta de amor. Mas tem coragem de resgatá-la de volta, e vai se entregando a ela aos poucos, aprendendo com uma criança solitária uma linguagem nova. Da vida de antes, Dôra só conhecia amarguras – amargura contra o pai, contra si mesma, contra todos. Mas vai aprendendo com o menino a língua do amor. “Você está bonita, Dora, diz o menino, e lhe compra um vestido. E ela anda com ele no meio da multidão de casinhas iguais e lhe encontra a família. Aí tem que tomar a decisão de deixá-lo, para o que ela considera um destino melhor do que poderia lhe oferecer. Dôra se arruma na madrugada, coloca o vestido novo e passa batom. E no ônibus, indo embora, lhe escreve: “Me lembro que meu pai me deixou apitar a locomotiva, coisa muita importante, que não era pra ele fazer pra uma menininha...” Pela primeira vez, Dôra perdoa. Alcançou a redenção pelo tanto que foi amada pelo menino solitário.

Gente é ruim, mas é boa. Todas as gentes do mundo têm algo de Deus. Uma vez, quando eu cruzava uma rua de Belo Horizonte com uma amiga, ela disse uma coisa que me martela na cabeça até hoje. Havia um bêbado caído no meio-fio, semimorto, imundo. Visões assim são tão normais na cidade grande que a gente olha sem ver. “Veja, Bráulia, a imagem e semelhança de Deus”, apontou. Era verdade. Gente legal e gente desconjuntada, todos somos a imagem do Criador. Nossa jornada com ele não começa quando nos convertemos, como alguns pensam, como se o Senhor fosse cego para nós antes de pertencermos ao rebanho evangélico, ou como se o Pai fosse algum tipo de religioso que discrimina pessoas.

A cantora Baby do Brasil diz que Jesus não é evangélico, e eu concordo inteiramente. Ele é Deus. Sua jornada conosco começa antes de nós nascermos, já que seus olhos nos viram quando éramos embriões, conforme diz a Bíblia – e prossegue nos vendo enquanto ainda respirarmos. Sua jornada conosco leva em conta nossas experiências, ainda que dolorosas: as tribulações que passamos, os dons, e até as dúvidas e falta de fé que carregamos. Não é tudo anulado aos pés da cruz, mas tudo é reorganizado de forma a fazer sentido, a gerar vida em outros, a produzir cura para nós e para quem chegar perto.

Lembro-me daquele homem “pobre mas sábio” que, com sua sabedoria, salvou sozinho uma cidade. E nós repetimos o bordão que diz que “uma andorinha não faz verão”, achando que está certo. E o que dizer de tantos outros homens mencionados nas genealogias, pessoas de obscuras trajetórias mas de cujo nome que conhecemos hoje e até colocamos em nossos filhos. O que fizeram e deixaram de fazer ficou para a posteridade. Abraão tinha fé; mas também era covarde, já que mentiu sobre sua verdadeira relação com sua mulher Sara. José perdoou a seus irmãos, mas Davi deixou de perdoar seu filho Absalão. “Gente espelho da vida, doce mistério...”

Jesus, ressuscitado, caminhava na estrada com dois discípulos. Abatidos, eles narravam para sua percepção do que havia acontecido alguns dias antes. O “profeta” havia morrido. Fôra assassinado pelos religiosos. Deviam estar pensando que, afinal de contas, aquele rabi não era quem eles esperavam que fosse. Jesus se impacienta um pouco com eles: “Como é que vocês custam a entender e demoram a crer em tudo o que os profetas falaram?”, questiona. O Deus que eles esperavam não era gente – então, não poderia ter morrido. Mas Jesus, o Deus Criador em quem habitava toda a plenitude da divindade, ainda era gente. E os discípulos de Emaús não o reconhecem ali no ato religioso, enquanto ele lhes ensinava as escrituras. Não o reconhecem pela pregação, apesar de depois perceberem que tinha sido poderosa. Vieram a reconhecê-lo quando se sentaram juntos para comer. No partir do pão, quando Cristo deu graças e lhes ofereceu uma porção – ato cotidiano e rotineiro, ou seja, atitude de gente, não de um religioso ou de um pastor –, só aí seus olhos se abriram para reconhecer o Salvador.

Às vezes, me pergunto se a Igreja sabe quem é. Nós nos cremos representantes de Cristo na terra, mas pensamos ser melhores que ele. Não precisamos ser gente – basta-nos o ofício religioso, o distanciamento cultural do que chamamos de “mundo”, e que confundimos com santificação. Basta-nos falar um jargão próprio e criar redomas santas onde nos escondemos. E aí, pensamos estar ganhando o mundo e nos aproximando do Senhor. Nesse processo, esquecemos quem somos, e de que é tudo muito mais simples.

“Gente espelho de estrelas, reflexo de esplendor

Não, meu nêgo, não traia nunca esta força não

Esta força que mora em seu coração”

Bráulia Inês Ribeiro

As duas flores

São duas flores unidas
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo, no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!

Castro Alves

Corpo estendido


de Sandro del Prete, as folhas secas parecem adquirir a dimensão que lhes falta para sair do quadro.Dá para ver uma mulher estendida entre elas.

Beckham - O embaixador

22 Janeiro, 2008

Beckham vai a centro de alimentação em Serra Leoa

Jogador administra vacina oral contra a pólio em bebê em Serra Leoa