Feliz Ano Novo

30 Dezembro, 2007

"É melhor morrer vivendo que viver morrendo".

Os gregos usavam pelo menos três palavras para designar tempo: aion, kairós e kronos. Aion indicava o tempo de longo prazo, na verdade, de longuíssimo prazo, que o apóstolo usa quando diz que Jesus é Senhor não apenas neste século, ou era, isto é, aion, como também no vindouro.

Kairós indicava um bloco de tempo, uma ocasião adequada ou uma oportunidade: o tempo das “águas de março que fecham o verão”, a estação da sua fruta predileta, o período da adolescência ou a hora certa de pedir a moça em casamento. Kronos é o tempo medido pelo relógio: segundos, minutos e horas.

Enquanto atravessamos o palco da história, somos convocados a responder a cada uma destas dimensões do tempo. O aion reclama nossa entrega e rendição, a admissão de nossa finitude. Diante do aion, a duração de nossas vidas é comparada a um vapor, a uma pequenina flor que pela manhã floresce e ao final da tarde voa no vento. O aion exige humildade: agradecer a Deus a oportunidade de entrar na existência e encarar a aventura de viver um privilégio, como gota que se alegra em participar do mar.

O kairós exige atenção e prontidão, pois tal é a oportunidade como um cometa que passa em velocidade atroz: quem piscou, perdeu o espetáculo. Não há espaço para protelação, procrastinação e displicência. O kairós exige sabedoria. O apóstolo Paulo recomenda remir o tempo, isto é, aproveitar a oportunidade para que não se ouça “não adianta mais, agora é tarde, passou o tempo, deixamos escapar o kairós”.

Kronos é o mais cruel. Na mitologia grega, incitado pela mãe Gaia (a terra), castrou o pai Urano (o céu) e se tornou o primeiro rei dos deuses. Seu reinado foi de prosperidade, mas viveu ameaçado pela profecia de que seria vencido por um dos seus filhos. Para que não se cumprisse este vaticínio, devorava os filhos assim que nasciam. Até que Zeus foi salvo pela mãe Réia e, tendo destronado o pai, o expulsou do Olimpo e libertou todos os irmãos.

Talvez por isso Kronos seja visto como o tempo devorador, cruel, que corre sem parar nos empurrando para perto e cada vez mais perto da morte. Kronos é tempo com medida, e cada pessoa terá a sua, no mistério da economia divina. O que não é inesgotável reclama cuidado, recursos finitos implicam boa administração.

Cada um tem sua fatia de segundos, minutos e horas, e ninguém sabe ao certo sua porção, ninguém é capaz de saber quando será seu último dia, viverá seu último segundo, consumirá seu último fôlego. E como advertiu Jesus, ninguém pode acrescentar um passo sequer ao seu limite de existência. Mas pode abreviar. Kronos exige responsabilidade. O poeta bíblico recomenda a oração: pedir a Deus que ensine a contar os dias, isto é, ensine a viver, concedendo coração sábio para o bom uso da medida de kairós: usar bem, não desperdiçar, desfrutar.

O ano de 2007 já se vai. “O tempo voa”, dizemos, “como passou rápido esse ano, já é Natal”. Gratidão, sabedoria e responsabilidade, eis os desafios para o aproveitamento do tempo. À sombra da eternidade, caminhamos gratos pelo privilégio de existir e viver. Na dança das oportunidades, caminhamos com sabedoria para colher cada fruto em sua estação própria. Enquanto corre o tempo, vivemos. Enquanto nos empurra para o fim de nossa medida, vivemos. Vencemos a morte vivendo. É melhor morrer vivendo que viver morrendo. Seja 2008 tempo de Deus. Tempo com Deus. Tempo para Deus. E vida para todos nós. Amém!

Ed René Kivitz

Ceia de Natal

28 Dezembro, 2007

A Missa do Galo encerrou-se aos primeiros minutos de 25 de dezembro. Padre Afonso deixara-se contaminar pela aflição dos fiéis, ansiosos por retornarem às suas casas e desfrutarem a ceia antes de as crianças murcharem de sono. Abreviou a homilia, pulou orações, desejou a todos Feliz Natal e deu-lhes a bênção final. Uma dezena de paroquianos ombreou-se na sacristia para manifestar-lhe votos de boas festas. Presentes sobrepunham-se a um canto: camisas, meias, livros, essas coisas adequadas a um homem de Deus.

Dependurados os paramentos, padre Afonso viu-se sozinho. Miseravelmente só, em plena noite de Natal. O celibato é um dom e ele sabia tê-lo merecido. Ao longo de vinte anos de sacerdócio acometeram-lhe muitas tentações. Não era o fascínio das mulheres que o levava a duvidar de sua consagração. Admirava-as, sentia-se gratificado por achá-las belas e atraentes. Sinal de que havia nele um macho, o que no íntimo o envaidecia. Perturbava-o a consciência do pai que nunca fora. Muitas vezes sentia saudades dos filhos que não tinha.

Atormentava-o ver-se sozinho à mesa de refeições. Comer é comunhão, partilha, entremear ao cardápio o diálogo ameno e alegre. O alimento lhe caía insosso e, com freqüência, se surpreendia sonhando de olhos abertos, a mesa cercada por sua família imaginária.

Naquela noite a solidão lhe bateu forte, com uma ponta de amargura advinda de uma expectativa frustrada. Sentia-a na boca da alma. Nenhum dos paroquianos tivera a generosidade de convidá-lo à ceia.

Padre Afonso revirou os embrulhos de cores brilhantes e encontrou o que bastava: um panetone e uma garrafa de vinho. Enfiou-os na pasta usada para levar sacramentos aos enfermos e dirigiu-se à zona boêmia.

Shirley trazia os olhos inchados, o peito sufocado, o coração miúdo. Desde o fim da tarde chorara copiosamente ao recordar os natais de sua infância no norte de Minas. Lembrou da família que a repudiara, do marido que a abandonara, do filho que dela se envergonhava. Sentiu ódio da vida, da desfortuna a que fora condenada. Confusa, teve vontade e medo de sentir ódio também de Deus.

Pudesse, não trabalharia naquela noite. Todavia, não lhe restava alternativa. O acúmulo de dívidas a obrigava a ir à rua e aguardar o dinheiro ambulante que chegava escondido atrás da fantasiosa excitação de sua fortuita freguesia.

Mirou o homem de pasta na mão, camisa sem gola, sapatos escuros. Talvez viesse do trabalho. Enquadrou-o na tipologia adquirida em tantos anos de calçada: tinha o jeito ingênuo dos que buscam apenas aliviar-se e, na hora da cobrança, preferem ser generosos no pagamento a enfrentar uma prostituta irada disposta ao escândalo.

Trocaram olhares e ela se esforçou para estampar um sorriso sedutor. Ele parou e indagou; ela apontou o hotel na esquina. Caminharam lado a lado em silêncio, ela sobrepondo seu profissionalismo aos sentimentos esgarçados, ele apreensivo frente ao receio de ser flagrado ali por algum conhecido. Subiram as escadas opacamente iluminadas, em cujos degraus as baratas se desviavam ariscas.

Ao abrir o primeiro botão da roupa, ela ameaçou dizer qualquer coisa, mas ele se adiantou. Explicou que não estava ali em busca de sexo, e sim de companhia. Haveria, contudo, de pagar-lhe o devido. Contou-lhe de seu sacerdócio e de sua solidão, e indagou se ela se dispunha a orar com ele e compartir a ceia.

Shirley sentou na cama, enfiou o rosto entre as mãos e desabou em prantos. Agora era um choro de alívio, de gratidão por algo que ela não sabia definir, quase de alegria. Logo, falou de seus natais na roça, o presépio em tamanho natural que o pai armava no quintal do casebre, o peru engordado durante meses para a ocasião, o bendito puxado por uma vizinha na falta de igreja e padre naquelas lonjuras.

Padre Afonso propôs fazerem uma oração. Ela se ajoelhou e ele tomou-a pela mão e fez com que se sentasse de novo. Ele ocupou a única cadeira do quarto. Abriu o Evangelho de Lucas e leu, pausadamente, o relato do nascimento de Jesus. Em seguida, perguntou se ela gostaria de receber a eucaristia. Shirley pareceu levar um choque. Como ela, uma puta, poderia receber a hóstia sem sequer ter se confessado? O sacerdote leu o texto de Mateus (21,28): “As prostitutas vos precederão no Reino de Deus”. E acrescentou que era ele, e essa sociedade cínica, injusta, desigual, que deveriam se confessar a ela e pedir perdão por a terem obrigado a uma vida tão degradante.

Após a comunhão, padre Afonso tirou dois copos da pasta, encheu-os de vinho e partiu o panetone. Os dois ainda conversavam sobre suas vidas enquanto clareava o dia.


Frei Betto

Deus é uma criança

21 Dezembro, 2007

"É a saudade que traz para dentro da sala a cena que aconteceu longe. Sem saudade o milagre não acontece".

SOU UM ADMIRADOR de Gandhi. Cheguei mesmo a escrever um livro sobre ele. Estou planejando convocar os amigos para uma homenagem póstuma a esse grande líder pacifista e vegetariano.

Pensei que uma boa maneira de homenageá-lo seria um evento numa churrascaria, todo mundo gosta de churrasco, um delicado rodízio com carnes variadas, picanhas, filés, costelas, cupins, fraldinhas, lingüiças, salsichas, paios, galetos e muito chope. O grande líder merece ser lembrado e festejado com muita comilança e barriga cheia!

Eu não fiquei doido. O que fiz foi usar de um artifício lógico chamado "reductio ad absurdum" que consiste no seguinte: para provar a verdade de uma proposição, eu mostro os absurdos que se seguiriam se o seu contrário, e não ela, fosse verdadeiro. Eu demonstrei o absurdo de se celebrar um líder vegetariano de hábitos frugais com um churrasco.

Uma homenagem tem de estar em harmonia com a pessoa homenageada para torná-la presente entre aqueles que a celebram. Uma refeição, sim. Mas pouca comida. Comer pouco é uma forma de demonstrar nosso respeito pela natureza. Alface, cenoura, azeitonas, pães e água.

Escrevo com antecedência, para que vocês celebrem direito. A celebração há de trazer de novo à memória o evento celebrado.

É uma cena: numa estrebaria uma criancinha acaba de nascer. Sua mãe a colocou numa manjedoura, cocho onde se põe comida para os animais. As vacas mastigam sem parar, ruminando. Ouve-se um galo que canta e os violinos dos grilos, música suave... No meio dos animais tudo é tranqüilo. Os campos estão cobertos de vaga-lumes que piscam chamados de amor. E no céu brilha uma estrela diferente. Que estará ela anunciando com suas cores? O nascimento de um Deus?

É. O nascimento de um Deus. Deus é uma criança.

O nascimento do Deus criança só pode ser celebrado com coisas mansas. Mansas e pobres. Os pobres, no seu despojamento, devem poder celebrar. Não é preciso muito.Um poema que se lê. Alberto Caeiro escreveu um poema que faria José e Maria, os pais do menininho, rir de felicidade: "Num meio-dia de fim de primavera, tive um sonho como uma fotografia: "Vi Jesus Cristo descer a terra. Veio pela encosta do monte tornado outra vez menino. Tinha fugido do céu...'" Longo, merece ser lido inteiro, bem devagar...

Uma canção que se canta. Das antigas. Tem de ser das antigas. Para convocar a saudade. É a saudade que traz para dentro da sala a cena que aconteceu longe. Sem saudade o milagre não acontece.

Algo para se comer. O que é que José e Maria teriam comido naquela noite? Um pedaço de queijo, nozes, vinho, pão velho, uma caneca de leite tirado na hora. E deram graças a Deus.

E é preciso que se fale em voz baixa. Para não acordar a criança.

Naquela mesma noite, havia uma outra celebração no palácio de Herodes, o cruel. Ele tinha medo das crianças e mataria todas se assim o desejasse. A mesa do banquete estava posta: leitões assados, lingüiças, bolos e muito vinho... Os músicos tocavam, as dançarinas rodopiavam. Grande era a orgia.

É. Cada um celebra o que escolhe. Acho que vou fazer uma sopa de fubá que tomarei com pimenta e torradas. E lerei poemas e ouvirei música. E farei silêncio quando chegar a meia-noite e, quem sabe, rezarei?

Rubem Alves

Resgatar o coração

20 Dezembro, 2007

Seguramente a crise ecológica global exige soluções técnicas, pois podem impedir que o aquecimento global ultrapasse 2 graus Celsius, o que seria desastroso para toda a biosfera. Mas a técnica não é tudo nem o principal. Parafraseando Galileo Galilei podemos dizer: "a ciência nos ensina como funciona o céu mas não nos ensina como se vai ao céu". Da mesma forma, a ciência nos indica como funcionam as coisas mas por si mesma não tem condições de nos dizer se elas são boas ou ruins. Para isso temos que recorrer a critérios éticos aos quais a própria prática científica está submetida. Até que ponto, apenas soluções técnicas equilibram Gaia a ponto de ela continuar a nos querer sobre ela e ainda garantir os suprimentos vitais para os demais seres vivos? Será que ela vai identificar e assimilar as intervenções que faremos nela ou as rejeitará?

As intervenções técnicas têm que se adequar a um novo paradigma de produção menos agressivo, de distribuição mais equitativa, de um consumo responsável e de uma absorção dos rejeitos que não danifique os ecossistemas. Para isso precisamos resgatar uma dimensão, profundamente descurada pela modernidade. Esta se construiu sobre a razão analítica e instrumental, a tecnociência, que buscava, como método, o distanciamento mais severo possível entre o sujeito e o objeto. Tudo que vinha do sujeito como emoções, afetos, sensibilidade, numa palavra, o pathos, obscurecia o olhar analítico sobre o objeto. Tais dimensões deveriam ser postas sob suspeição, serem controladas e até recalcadas.

"O grande desafio atual é conferir centralidade ao que é mais
ancestral em nós, o afeto e a sensibilidade".

Ocorre que a própria ciência superou esta posição reducionista seja pela mecânica quântica de Bohr/Heisenberg seja pela biologia à la Maturana/Varela, seja por fim pela tradição psicanalítica, reforçada pela filosofia da existência (Heidegger, Sartre e outros). Estas correntes evidenciaram o envolvimento inevitável do sujeito com o objeto. Objetividade total é uma ilusão. No conhecimento há sempre interesses do sujeito. Mais ainda, nos convenceram de que a estrutura de base do ser humano não é a razão mas o afeto e a sensibilidade.

Daniel Goleman trouxe a prova empírica com seu texto a Inteligência emocional que a emoção precede à razão. Isso se torna mais compreensível se pensarmos que nós humanos não somos simplesmente animais racionais mas mamíferos racionais. Quando há 125 milhões de anos surgiram os mamíferos, irrompeu o cérebro límbico, responsável pelo afeto, pelo cuidado e pela amorização. A mãe concebe e carrega dentro de si a cria e depois de nascida a cerca de cuidados e de afagos. Somente nos últimos 3-4 milhões de anos surgiu o neo-cortex e com ele a razão abstrata, o conceito e a linguagem racional.

O grande desafio atual é conferir centralidade ao que é mais ancestral em nós, o afeto e a sensibilidade. Numa palavra, importa resgatar o coração. Nele está o nosso centro, nossa capacidade de sentir em profundidade, a sede dos afetos e o nicho dos valores. Com isso não desbancamos a razão mas a incorporamos como imprescindível para o discernimento e a priorização dos afetos, sem substitui-los. Hoje se não aprendermos a sentir a Terra como Gaia, não a amarmos como amamos nossa mãe e não cuidarmos dela como cuidamos de nossos filhos e filhas, dificilmente a salvaremos. Sem a sensibilidade, a operação da tecnociência será insuficiente. Mas uma ciência com consciência e com sentido ético pode encontrar saidas libertadoras para nossa crise.

Leonardo Boff

Brasil - A fé a transposição do rio

19 Dezembro, 2007

O jejum de dom Cappio está se aproximando do fim. O fim chegará mesmo que não se chegue a nenhuma solução para o impasse que se estabeleceu entre ele e o governo; afinal, o corpo humano tem seus limites. Ou o governo cede, ele cede ou ele morre: de qualquer forma o jejum acabará.

De um lado, dom Cappio diz que só terminará o jejum quando o governo definitivamente desistir do projeto de transposição do rio São Francisco, pois ele como discípulo de Jesus está disposto a dar a sua vida na defesa da vida dos pobres. Por outro lado, o governo diz que não pode desistir de um grande projeto econômico-social só porque uma pessoa promete fazer jejum até o fim. Isto seria abrir um grande precedente que poderia inviabilizar a execução de outras grandes obras. Pois estas, por serem sempre complexas, geram polêmicas e posições antagônicas na sociedade e poderiam aparecer outras pessoas fazendo jejum ou greve de fome. De uma certa forma, os dois lados têm suas razões.

Diante dessa situação, muitas pessoas têm manifestado apoio ao dom Cappio apresentando uma análise do problema a partir da seguinte alternativa: de um lado estão os pobres do nordeste e o dom Cappio, de outro os interesses dos grandes empresários ligados aos setores de agronegócios, hidronegócios e construções. E o governo teria feito a opção pelos capitalistas, contra os pobres. Neste sentido, um dos artigos publicados na Adital chega a dizer que Lula, como rio São Francisco, começa com fontes limpas, é seduzido por grande capital e termina em um fracasso do ponto de vista da história política e dos interesses populares.

Será que a realidade é tão clara e simples neste caso do projeto de transposição do rio São Francisco? De um lado a fé e o compromisso com a vida dos pobres e, por isso, oposição radical ao projeto; de outro, os interesses do grande capital agora defendido pelo governo Lula? É claro que a fé cristã está intimamente ligada à defesa da vida dos mais pobres, mas a questão não se esgota nessa "verdade da fé". Entre a defesa da vida dos pobres e as decisões sobre projetos econômico-sociais que melhoram (ou não) as condições da vida dos pobres há um hiato, que é preenchido por teorias econômicas, sociais, políticas e culturais. Não há uma ligação direta entre a fé e determinada decisão sobre projetos econômico-sociais. Divergência de opinião sobre qual o melhor caminho econômico-social-político para defender os direitos dos pobres (que no fundo são divergências de teorias sociais) não significa necessariamente uma divergência ou conflito no campo da fé ou da opção ético-política em favor (ou contra) os pobres.

Em outras palavras, ser a favor da transposição não significa necessariamente escolher o lado do grande capital contra os pobres. A mim me parece que o governo Lula tem um raciocínio que poderia ser resumido da seguinte forma: (a) os pobres do nordeste precisam de água, mas também de desenvolvimento econômico-social para saírem da situação de pobreza (que exige programas sociais como Bolsa Família) e viverem uma vida mais digna; (b) esse desenvolvimento não será possível somente com o esforço deles, pois eles carecem de conhecimento e de capital necessários para isso; (c) o Estado não tem condições para assumir essa tarefa sozinho, muito menos de dar empregos a todos na máquina do governo; (d) a iniciativa privada não tem muito estímulo para o investimento maciço no nordeste por causa da falta de infra-estrutura; (e) por isso, o governo deve investir na infra-estrutura (como a transposição do rio São Francisco) que, ao mesmo tempo, gere empregos e estimule novos investimentos privados para estimular ciclos virtuosos de desenvolvimento econômico sustentável, tanto em termos ambientais, sociais e econômicos.

Eu não sei se estou compreendendo corretamente a posição do governo Lula, nem se esta lógica é viável e o melhor para os pobres. Mas, se é verdade que vivemos em um mundo onde os "destinos" das pessoas e grupos estão ligados aos dos outros grupos e de todo o sistema (a realidade da interdependência) e onde há limites de recursos naturais, econômicos, culturais e também de poder político, devemos reconhecer que não podemos reduzir um assunto tão complexo como o da transposição a uma alternativa simples do tipo: a favor dos pobres e contra a transposição ou a favor das grandes empresas e desse projeto.

Para evitar mal-entendido, eu quero deixar bem claro que não estou, com essas reflexões, defendendo a posição do governo Lula. Como afirmei em um artigo anterior, eu não tenho conhecimentos técnicos suficientes para tomar uma posição mais firme sobre esse assunto. O meu objetivo foi de colaborar na discussão sobre este importante e urgente tema, pois, sem um diálogo frutífero - que pressupõe também a tentativa de compreender a posição e a argumentação do outro lado -, o que está em jogo não é somente a vida de dom Cappio. Pelo menos mais duas questões estão em jogo: a nossa compreensão do que é "dar vida pela fé e por amor aos pobres"; e as relações entre o "cristianismo de libertação" e os governos com opções populares que têm que lidar com o mundo operacional da economia globalizada e com temas macroeconômicos (por ex., nível de investimento, infra-estruturas necessárias para desenvolvimento econômico-social, equilíbrio fiscal, câmbio, inflação, etc.) dentro de marcos jurídicos e de relações de poder existentes entre os diversos grupos que compõe as instituições políticas do Estado e a sociedade.

Jung Mo Sung

Bem e Mal

18 Dezembro, 2007


Naran, meu neto, gosta de classificar os personagens de seu mundo infantil em rígidas categorias. Vez por outra, ele me pergunta: “Vovô, o Homem Aranha é do bem ou do mal?”. Claro, procuro antecipar-me às suas expectativas e digo que o seu herói é do bem. Certo dia, vi-me num beco sem saída. Sério como um professor na hora da sabatina, ele me questionou: “Vô, Davi era do bem ou do mal?”. Eu respondi sem titubear: “Do bem”. “E Golias?”. Não hesitei: “Do mal”. Com essas duas respostas para trabalhar em sua cabecinha, ele recontou o que aprendera sobre o célebre embate entre o rei e o gigante, e emendou: “Mas, vô, Davi cortou a cabeça de Golias depois que o derrubou com uma pedra, não foi? Naquela hora ele não virou num homem do mal?”. Só consegui responder: “Eu nunca tinha pensado assim, mas acho que você tem razão”.

Nossa disposição para separar as pessoas em arraiais distintos, além de ingênua, não subsiste aos questionamentos de uma criança. Os seres humanos são infinitamente mais complexos que nossas pobres categorizações. Recentemente, vi o filme sobre a vida da cantora francesa Edith Piaf. Sua história mexeu com as minhas emoções, saí do cinema com o coração comovido. Sua infância, suas constantes perdas, sua adolescência nas sarjetas a tornaram uma mulher tempestiva, que bebia demais e parecia desequilibrada. Mas ela não podia ser rotulada com gradações que vão de boa a perversa.

Os personagens bíblicos são inconstantes em suas virtudes e os vilões não encarnam o mal absoluto. O único personagem bíblico absolutamente mal é Satanás. Todos os demais agem com vileza e bondade; são execrados e aplaudidos. Abraão creu, hesitou, mentiu. Moisés ousou, titubeou, perseverou. Davi amou, assassinou, arrependeu-se. A seqüência de exemplos lota o texto sagrado. Todos os heróis são cavalheiros e nobres, réprobos recomendáveis.

Jesus lidou com a alma humana como um vasto universo. Ele era extremamente cuidadoso e jamais subestimava a subjetividade de cada pessoa. Não deixou que apedrejassem a mulher apanhada em adultério. Considerava injusto que aqueles religiosos não levassem em conta o passado, os traumas, as feridas anteriores de tal muher. Não, ele não permitiria que a história dela fosse jogada na sarjeta só para que a lei fosse mantida. Quando li a biografia do Garrincha, talvez o maior ponta-direita do futebol brasileiro de todos os tempos, não consegui depreciá-lo como um devasso, mas como um desafortunado, um alcoólico carente de misericórdia. Chorei por sua sorte.

Li uma frase no blog do Allyson Amorin (http://alyssonamorim.blogspot.com/) que apreciei bastante: “Por trás de uma grande queda há sempre uma curva acentuada”. Quanta verdade! Devemos olhar não apenas para as quedas, mas considerar também as curvas acentuadas.

A monumental obra de Victor Hugo Os Miseráveis expôs Javert como um homem detestável, porque não conseguia conceber que um condenado pudesse ter alguma nobreza no coração. Uma vez condenado, para sempre perdido. Os maus mereciam, segundo sua percepção, os rigores da lei.

Jean Valjean, criminoso execrado por um homicídio, foi tenazmente perseguido por Javert, que só se preocupava em mostrar sua coerência com a lei. Durante toda a narrativa, Victor Hugo revela outro lado: o fugitivo era correto, bondoso, nobre, enquanto o legalista, um detestável vingativo. O caráter impoluto do policial camuflava um homem inclemente. A lei e o aparato policial escondiam a pequenez de Javert.

Preocupo-me com os religiosos que identificam facilmente quem vai para o inferno. Regras, conceitos teológicos e catecismos não conseguiriam por si só peneirar os bons dos ruins. Joio e trigo se parecem e é necessário esperar pelo fim dos tempos.

Só Deus conhece os porões de cada vida. Só ele sabe as guinadas que a existência de cada um sofreu, e só ele tem critérios suficientes para lidar com as histórias humanas. E a melhor notícia é que Deus não nos trata segundo uma lei fria. Ele é um pai tão compassivo e bom que no Salmo 103 considera nossa fragilidade como pó e, por isso, afasta de nós as nossas transgressões.

Quando penso em certo e errado, ordem e desordem, ligado e desligado, me esqueço da graça e dessa infinita capacidade divina de nos entender sem explicação. Sem a graça, resta o pavor da lei, que não considera as inadequações humanas, com agravantes e atenuantes. Sim, o justo juiz é um pai que me pôs em seu regaço, sem precisar esclarecer o porquê do seu amor.

Todos nós já nos comportamos como Davi. Em algumas circunstâncias o rei “virou do mal”, mas encontrou a infinita disposição de Deus para tratar-lhe com misericórdia. Essa disposição é a causa pela qual nós também não fomos destruídos.

Ricardo Gondim

Mude um destino

17 Dezembro, 2007

Eu sei que os tempos são difíceis. A situação não anda fácil pra quase ninguém. As contas estão pela hora da morte. Entra ano, sai ano, e quando você pensa que a receita extra trará algum alívio, as despesas são ainda mais extras e o alívio vira princípio de gastrite. E assim a vida (que já é tão curta) passa.

No balanço de quase tudo, tentamos levar em conta nossas aspirações, realizações, patrimônio, nosso legado de bens materiais para as futuras gerações. E então, aquilo que poderia nos servir de consolo nos incomoda ainda mais: a situação dos mais desfavorecidos, particularmente dos mais indefesos, ao nosso redor.

O cheque especial, o aluguel, a conta da TV a cabo, da internet, da prestação do laptop, tudo parece tão insignificante quando constatamos que há um mar de crianças anônimas a nos cercar e para quem essas coisas todas que mencionei são um sonho distante. O chão duro de suas realidades é feito de pedra, pó e poeira, formando um quadro por vezes aterrorizante e desolador.

No passado, os abrigos eram chamados de orfanatos. Quase todos os que para lá eram encaminhados eram órfãos. No presente, 90 por cento das crianças e adolescentes que neles moram foram abandonados, agredidos, violentados sexualmente ou privados da convivência com seus pais biológicos cujas vidas foram destruídas pelas drogas ou que enveredaram pelo caminho do crime e hoje se encontram encarcerados.

Estou dizendo tudo isso para expressar minha imensa alegria por ter recebido como presente antecipado de Natal minha nova filha, Verônica.

Verônica tem 4 anos e sete meses, é risonha, falante, muito carinhosa e sapeca. Seus olhos marrons esverdeados refletem uma luz que não é comum a quem desde o nascimento viveu sucessivas experiências de abandono. Eles me dizem que sua vontade de viver, sua força interior, sua garra, sua determinação de ser feliz são maiores que todas as adversidades que enfrentou em seus curtos, porém intensos aninhos de vida.

Os tempos ora são fáceis, ora difíceis. As situações e suas dificuldades se repetirão. Contas, sempre teremos conosco.

No correr dos anos, enquanto o mundo for mundo, os apertos irão e virão. A vida, no entanto, pode ser mais que uma passagem insignificante. Por isso, penso que deixei de lado todas as minhas racionalizações, todos os muitos argumentos que insistiam em me convencer que receber como filha uma garota já crescidinha tinha lá seus desafios, alguns deles quase intransponíveis; que as despesas inevitavelmente aumentariam e que é preciso prudência, afinal de contas, o mundo requer de nós todas as precauções para que vivamos em segurança.

Pensei, no entanto, que para Verônica o desafio de juntar-se a uma nova família talvez fosse muito maior que o nosso; que o seu novo mundinho com mamãe, papai e sua irmãzinha mais nova seria muito mais inseguro e desafiador.

Ela, no entanto, não hesitou nem um só momento. Disse sim com seus bracinhos estendidos como os braços do Cristo Redentor, abertos sobre a Guanabara...

No balanço realmente de tudo, quero que o meu legado seja um legado de amor. E que a minha pequena gota d’água num deserto de desesperanças tenha o efeito multiplicador de uma chuva que, embora tardia, seja sempre renovadora.

Alguns me dizem que o meu gesto e o de minha família irão mudar um destino. No entanto, tenho a nítida sensação de que o meu é que foi mudado. Para sempre.

Jorge Camargo

Saco cheio de rótulos

15 Dezembro, 2007



Os conservadores não são necessariamente estúpidos,
mas quase todos os estúpidos são conservadores
.”
John Stuart Mill



O discurso dos conservadores me dá tédio. Como o próprio termo denuncia, eles dão-se por satisfeitos simplesmente em “conservar” as coisas. Desprezam e combatem os apóstolos auto-ungidos, mas também se auto-arvoram guardiões da ortodoxia.

São uma espécie de versão ambulante do Google. Você digita a palavra-chave de alguma novidade que rola por aí e eles batem o martelo: “No ano de 1254, havia um ignorante que pregava essa mesma idéia estapafúrdia. Viu como não há nada de novo debaixo do sol?

”Nesse ponto, a ala dos passistas conservadores tem razão. Se dependesse da criatividade do grupo, por exemplo a inovação artística seria reduzida a sapateados fora do ritmo. Naturalmente, a performance sempre é provocada pela ira ao ler algo “perigoso” para a igreja que o herege da hora (sem trocadilho) escreveu.

Ao contrário do que apregoa o adágio, o leite derramado lhes proporciona um indisfarçável prazer de entrar em ação. Com o advento da internet, descobriram que não estão sozinhos em seus posicionamentos intransigentes. Falam a centenas de pessoas na rede... e a centenas de cadeiras em determinados eventos e reuniões.

Seria injusto afirmar que desprezam a arte. Na verdade, exercitam sua verve criativa na “releitura” dos hinetos ou corinhos que, num ato de insuspeita generosidade, permitirão à igreja entoar. Cortam frases, trocam palavras e submetem cada linha ao crivo exegético, hermenêutico e doutrinário. Reis da logomaquia, têm maior prazer em dissertar sobre a má qualidade das composições do que em propriamente cantá-las durante as celebrações, ops, durante os cultos solenes.

Vivessem no Paraíso com Adão e Eva, e os animais permaneceriam sem nome até hoje, dado o número de concílios, simpósios, conclaves e outros nomes dados aos soporíferos encontros para discutir assuntos importantes como a quantidade de anjos que cabem na cabeça de um alfinete.

Do ponto de vista do raciocínio cartesiano, esses “alfinetadores” consideram-se “engenheiros”. Se analisarmos o declínio de certos grupos dos quais participam, talvez possam ser chamados de “coveiros”.

Os conservadores protagonizam uma estranhíssima espécie de casamento no qual o marido parece preferir levar para a cama a certidão de casamento, deixando a esposa a ver navios. Ou melhor, garfos, facas e panelas. O desvelo pela ortodoxia parece estranhamente não encontrar similaridade na devoção pelo próprio Jesus.

Do outro lado

“Raspe a tinta de um liberal e você encontrará
um fundamentalista alienado embaixo dela”Renny Scott, citado por Brian McLarenem Uma ortodoxia generosa.

A situação também não é muito animadora no grupo dos liberais, a despeito do clima descontraído dos convescotes dos caras. Ao contrário do que rola na facção conservadora, na qual as “cartas” parecem estar dispostas à mesa, do outro lado elas permanecem na manga e em outros esconderijos.

Acostumados a analisar tudo pela aparência, muitos incautos quebram a cara (e a fé, em vários casos), quando o objeto em questão é um liberal. A calça moderninha, o vocabulário cheio de gírias e o estilo casual transmitem a sensação de proximidade e de acolhimento. No entanto, na hora de administrar seus grupos alguns liberais arrepiam mais que seus cabelos quando livres do gel. Defendem suas idéias e propostas com a elegância de um pit bull em jejum prolongado.

Hábeis com as palavras e pseudopublicitários, são sempre receptivos às novidades. Contudo, a estratégia de eliminar filtros escancara portas para certas práticas que beiram a heresia. Sem limites nas extravagâncias, não têm problemas com certos meios se ao final forem pessoalmente beneficiados.

A fama de liberal parece desobrigar seus detentores da necessidade de aprimorar os conhecimentos. Para compensar a tibieza nesse item, exibem um ego tão inflado que mandaria qualquer pavão para o veterinário-terapeuta.

Na falta de idéias próprias, vivem despejando citações alheias, de preferência perpetradas por pensadores que fujam do lugar-comum. São capazes de mencionar a Tati Quebra-Barraco em uma prédica, digo, reflexão, só para mostrar o quanto são “antenadinhos”. Na verdade, estão mesmo é “atoladinhos” em suas idéias fixas e convicções tão consistentes quanto gelatina fora da geladeira por várias horas. Às vezes, é preciso conservar...

Julgando-se incompreendidos e flagelados pelos opositores, murmuram sem cessar as cantilenas de sempre, especialmente quando praticam seu esporte favorito, a caça aos conservadores. Liberais pós-modernos sabem que a prática esportiva faz bem muuuito bem para a saúde!

Epílogo

De longe, toda montanha é azul De perto, toda pessoa é humana
Dom Pedro Casaldáliga

Se você chegou até aqui na peroração, por certo identificou um sem-número de exageros e extrapolações carentes de fundamentação. Exatamente o que ocorre todas as vezes que recorremos a rótulos para classificar alguém. Sem identidade, fulano passa a ser simplesmente o “fundamentalista”, enquanto sicrano é “liberal”.

O rótulo esconde completamente a pessoa e suas idéias serão analisadas de forma tendenciosa ad infinitum. Em decorrência, as barreiras erguidas são robustas e contribuem para a desintegração cada vez mais crescente de um povo que deveria ser “um só rebanho”. Haja pasto para acomodar tantas vertentes aparentemente imiscíveis...

Valorizamos tanto a homogeneidade dos tons que até o arco-íris deixou de fazer parte da simbologia cristã, bem como a bandeira da “diversidade”. Em ambos os lados do front, prepondera uma posição beligerante e inflexível. Filhos do mesmo Pai tornam-se figadais inimigos e o amor é substituído pelo desprezo e pelo ódio disfarçado.

Como lembra o bispo N. T. Wright, “compreendemos melhor alguma coisa não meramente criticando, dissecando e duvidando dela, mas também confiando, amando e respeitando-a”. E conclui: “Quando crítica e questionamento vêm no contexto do amor, elas produzem ainda mais percepções”.

O mundo não está em busca de idéias e princípios defendidos com ardor extremado. As pessoas aguardam Deus “com gula”, segundo a inspiração de Arthur Rimbaud. A simplicidade das “boas notícias” perdeu-se em meio aos embates. O saco cheio de rótulos deve ser esvaziado para que possamos voltar a sentar à mesma mesa, evidenciando a todos que o amor de Jesus suplanta quaisquer divergências de opinião.

Tenho ciência da puerilidade aparente deste discurso ao observar tantas feridas purulentas decorrentes de inúmeros confrontos. Contudo, sei o quanto Deus se agrada ao descobrir traços de pureza no coração de seus filhos. Da mesma forma que “Abraão, contra toda esperança, em esperança creu”, essa certeza me motiva a exercer meu sacerdócio espicaçante... pero sin perder la ternura jamás. Afinal, de acordo com a licença poética de Frei Betto, “o amor dura enquanto é terno”.

Sérgio Pavarini

As promessas

14 Dezembro, 2007

"O que dizem tais presentes sobre o caráter de Deus? Dizem que ele não é Deus, é um ser monstruoso, sádico, que fica feliz quando nós sofremos; corrupto, concede graças a troco de dor. Se eu fosse Deus trataria de me mudar para bem longe, um outro universo onde só houvesse plantas e animais".

Não ligo para aquilo que os meus inimigos pensam de mim. O que eles pensam nada revela a meu respeito - mas diz muito sobre as condições do seu trato digestivo. Nietzsche dizia que havia pessoas que não gostavam dele porque suas palavras eram fogo para suas bocas. Mas as palavras, como as pimentas, podem ser fogo na boca e fogo em outro lugar. Quem diz que não gosta de pimenta, fico logo suspeitando que sofra de hemorróidas. Assim, não ligo se alguém pensar mal de mim.

Mas se os meus amigos pensarem mal de mim - isso sim vai me causar sofrimento. Se pensam mal de mim sendo meus amigos, isso quer dizer que existe uma pitada de verdade nos seus pensamentos. Os pensamentos dos amigos são espelhos. Aí vou ficar com vergonha, e vou começar a fugir da presença deles.

Deus é feito a gente. Não sofre nem um pouco com aquilo que o Diabo e sua gangue pensam dele. Mas o caso é diferente quando o que está em jogo são calúnias e vilezas que dele pensam - quem diria? - justamente aqueles que se dizem seus amigos. Acho mesmo que este é o sentido da doutrina da Igreja, que afirma que o Filho de Deus continua a ser crucificado todos os dias - tantas vezes quantas missas forem celebradas. Sempre me perguntei se esses sacrifícios não teriam fim. Só tardiamente compreendi que N.S. Jesus Cristo não para de ser crucificado porque os que se dizem seus filhos, amigos, adoradores, devotos, etc., não param de espalhar aos quatro ventos mentiras horríveis sobre o seu caráter e os seus sentimentos. Abertamente eles não têm coragem de dizer. Abertamente é só piedade e temor. Falam “graças a Deus“, “se Deus quiser“, “louvado seja Deus“, fazem sinal da cruz, vão às igrejas, acendem velas, lêem a Bíblia. Mas secretamente, à boca miúda, sem palavras, espalham que Deus é um anormal, sádico, corrupto que se vende por pouca coisa. E isso é a pior cruz para ser sofrida: os maus pensamentos dos amigos. Se eu tivesse amigos assim, trataria de me mudar para bem longe deles.

Se você não está entendendo o que estou dizendo, trato de explicar.

Quando a gente dá uma coisa a gente está dizendo o que pensa do outro que recebe o presente. Dou água para a planta porque sei que planta gosta d\'água. Dou um osso para um cachorro porque sei que cachorro gosta de osso. Dou alpiste para um passarinho porque sei que passarinho gosta de alpiste.

Isso vale também para os presentes que damos às pessoas. Eu estava com um casal amigo fazendo compras numa loja de presentes. Muitas eram as opções. Entre elas uns aventais lindos, coloridos, finos. Era ver e sentir-se tentado a dar um de presente para a mulher. Minha amiga, esposa do meu amigo, me segredou baixinho: “Se ele (o marido) me der um avental de presente, eu me divorcio...“ Claro! O presente estaria dizendo: “Querida, como você fica bonita na cozinha!“ Mas ela não queria ser definida como cozinheira. O presente diz o que a gente pensa que o outro é.

Um CD de música clássica diz que o outro, tal como ele existe na minha cabeça, é um apreciador de música erudita. Se o CD for de sax-jazz já a imagem do outro será diferente, mais sensual. Um livro de poesia dirá ao outro que ele (ou ela) é uma pessoa sensível e amante do silêncio. Panelas, ferramentas, brinquedos, echarpes, cuecas de seda, sutiãs de rendinha, um livro de arte erótica, uma garrafa de vinho, Bíblias e terços, caixas de bombons: cada um desses presentes diz ao outro o que penso dele.

Deus também merece presentes. Deus também quer ficar feliz. As pessoas que dizem gostar dele tratam de dar-lhe presentes (como os Magos) - os melhores, os que lhe darão maior prazer. Presentes para fazer Deus sorrir de felicidade, presentes para fazer Deus voltar a ser criança! O presente que dou deve ser a realização do desejo do outro. E quais são os desejos de Deus - a se acreditar nos presentes que lhe são oferecidos?

Antigamente os mais devotos, para fazer Deus ter prazer, se autoflagelavam com chicotes e coisas pontudas. Quando eu era menino vi mulheres carregando pesadas pedras nas cabeças, como presente a Deus. Hoje estas coisas viraram presentes brega. Deus melhorou, e só aceita cascas de feridas mais delicadas. Na casa de presentes a Deus se encontram, por exemplo, as seguintes opções: subir, de joelhos, o caminho até a igreja do Pe. Cícero; subir, de joelhos, a escadaria da Igreja da Penha; arrastar uma cruz, a pé, por cinqüenta quilômetros; ficar sem comer por três dias; abster-se de beber cerveja por todo um mês; não tomar Coca cola por nove meses; não transar ou não se masturbar até que a graça seja concedida.

O que dizem tais presentes sobre o caráter de Deus? Dizem que ele não é Deus, é um ser monstruoso, sádico, que fica feliz quando nós sofremos; corrupto, concede graças a troco de dor. Se eu fosse Deus trataria de me mudar para bem longe, um outro universo onde só houvesse plantas e animais. Plantas e animais entendem mais de Deus do que nós. Portanto, com um pedido de perdão por tanta ofensa, sugiro que na passagem do ano façamos promessas bonitas a Deus, promessas que digam que o achamos normal e bonito como nós. Ele não é sádico. Não tem orgasmos quando nós sofremos. Ele sofre quando sofremos e dá risadas quando damos risadas. Assim, se oferecermos presentes de felicidade ele ficará feliz e voltará. Como exemplo aqui vão algumas das promessas que farei.

Vou andar diariamente, sem obrigação de fazer exercício, por algum bosque ou jardim desse universo maravilhoso, por puro prazer. Vou comprar uma cachorrinha cocker-spaniel.

Vou gastar tempo observando o vôo dos pássaros, a forma das nuvens, a folhagem das árvores. Vou ver de novo O Poeta e o Carteiro. Vou fugir do agito, do ruído, da confusão. Vou cultivar a solidão e o silêncio: um espaço sagrado. Vou fazer um jardim Zen, com água e sinos que o vento toca. Vou ouvir muita música, canto gregoriano, Bach, Beethoven, Mahler, César Franck. Vou ler o Fernando Pessoa inteiro. Vou aprender a cozinhar. Vou receber os amigos. Vou beber cerveja, vinho, Jack Daniels. Vou brincar, com coisas e com pessoas.

Que Deus me ajude. E que ele se alegre com minhas promessas.


Rubem Alves

Evangélicos, evangelicais e fundamentalistas

13 Dezembro, 2007

A origem e desenvolvimento do protestantismo brasileiro pode ser compreendida a partir de dois termos que voltam a ocupar a pauta de discussões relevantes na chamada igreja evangélica brasileira: evangelicalismo, fundamentalismo.

O termo “evangelical” é um anglicanismo que originalmente equivaleria à totalidade dos cristãos que se identificaram com a Reforma Protestante do Século XVI. Por esta razão muitas igrejas acrescentam ao seu nome o adjetivo “evangélico” como oposição a “católico”. Com o passar do tempo, o termo “evangelical” foi se distinguindo de “evangélico” até o ponto em que se pode afirmar que todos os evangelicais são evangélicos, mas nem todos os evangélicos são evangelicais.

O termo fundamentalismo tem raiz histórica na Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana Americana, 1910, que, em resposta ao liberalismo teológico europeu, definiu uma declaração de cinco fundamentos considerados inegociáveis à fé evangélica: os milagres, o nascimento virginal, a morte expiatória, a ressurreição de Cristo, e a autoridade das Escrituras. Estes cinco pontos foram desdobrados em uma série de 12 livretos chamados de Os Fundamentos (The Fundamentals). A respeito dos fundamentalistas também se pode dizer o mesmo que foi dito em relação aos evangelicais: todos os fundamentalistas são evangélicos, mas nem todos os evangélicos são fundamentalistas. Por enquanto, tomemos como certo que dentro do movimento evangélico (não católico) há pelo menos dois grandes movimentos, o evangelical e o fundamentalista.

O período evangelical contemporâneo, isto é, como movimento nascido dentro do segmento evangélico (não católico) tem início no Congresso Mundial de Evangelização em Berlin, 1966, convocado, dirigido e patrocinado pela Christianity Today. Outro marco do movimento evangelical foi o Congresso Mundial de Evangelização em Lausanne, 1974, que deu origem ao Pacto de Lausanne, cujo relator foi John Stott, mas tece a contribuição significativa dos teólogos latino-americanos Orlando Costas, Samuel Escobar e René Padilla. Desde então, o movimento evangelical está associado ao movimento de Lausanne ou espírito de Lausanne.

O Pacto de Lausanne resulta de um processo de aproximadamente três anos, cheio de conflitos internos, especialmente entre os evangelicais e os fundamentalistas norte-americanos, ligados à Escola de Crescimento da Igreja de Donald McGavran e Peter Wagner, que consideraram o Pacto progressista. De fato, os evangelicais criticaram o movimento fundamentalista em termos teológicos, ideológicos e estratégicos. René Padilla, em sua palestra “A evangelização e o mundo”, no Congresso de Lausanne fez severas críticas ao imperialismo norte-americano e sua abordagem pragmática dos métodos de evangelização. Entre os contundentes questionamentos de Padilla estão: a rejeição do “princípio de unidades homogêneas” como base para a estratégia missionária da igreja, considerado por ele mundano, pois impulsiona os seres humanos a serem cristãos sem cruzarem as barreiras que os separam; a condenação à identificação do cristianismo com o american way of life; a simplificação da conversão como mudança de religião, em detrimento da mensagem do reino de Deus que exige uma completa reorientação da vida em relação a Deus ao próximo e à criação; e a afirmação da imprescindível relação entre evangelização e responsabilidade social.

Desde Berlin, 1966, o movimento evangelical se desenvolveu na América Latina especialmente através dos quatro Congressos Latino-Americanos de Evangelização: CLADE I, Bogotá, 1969; CLADE II, Lima, 1979; CLADE III, Quito, 1992; e CLADE IV, Quito, 2000. No Brasil, os Congressos Brasileiros de Evangelização: CBE I e II, 1983 e 2003, e o Congresso Nordestino de Evangelização, 1988, além da atuação de instituições como Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL), Aliança Bíblica Universitária (ABU), Centro Evangélico Brasileiro de Estudos Pastorais (CEBEP), Sociedade dos Estudantes de Teologia Evangélica (SETE), Corpo de Psicólogos e Psiquiátras Cristãos (CBPC), Visão Nacional de Evangelização (VINDE), Visão Mundial, e Associação Evangélica Brasileira (AEVB), foram determinantes para a consolidação do movimento evangelical.

Os aspectos relevantes que distinguem o movimento evangelical do movimento fundamentalista podem ser classificados como teológicos, ideológicos e estratégicos. O fundamentalismo se articula com ênfase no discurso apologético dogmático, mais preocupado com a defesa da fé bíblica, notadamente a partir de uma leitura literalista, moralista e filosoficamente racionalista das Escrituras Sagradas, o que acaba gerando uma postura inquisitorial, uma vez que sua identidade implica o combate violento a tudo e todos que compreende como inimigos da sã doutrina e da moral e bons costumes. O fundamentalismo é vítima da prepotência ocidental, que confunde Cristianismo com positivismo e evangelização com colonização, e pretende fazer com que a fé cristã seja equivalente à cultura do homem branco imperialista.

O movimento evangelical se articula prioritariamente a partir da realidade do reino de Deus e busca compreender e vivenciar todas as implicações do evangelho todo para o homem todo, proclamando a redenção integral do “homem e suas circunstâncias”, isto é, sua realidade social, política, cultural e espiritual, respeitando a pluralidade ética e cultural do Cristianismo histórico, desenvolvendo uma estratégia missionária encarnacional, com base na Bíblia como um documento divino, e portanto autoritativo, e humano, carente de constante contextualização e releitura para cada geração. Isso ajuda a compreender porque o movimento evangelical é também identificado como movimento da missão integral da igreja.

A partir destas poucas e elementares observações podemos identificar pelo menos duas agendas para a chamada igreja evangélica brasileira. A agenda fundamentalista está preocupada em descobrir métodos e metodologias capazes de apresentar uma mensagem e promover a adesão e filiação de pessoas às igrejas – divulgar uma verdade conceitual que funcione como instrumento para tirar pessoas do mundo e levá-las para dentro das igrejas, que sobrevivem de eventos, programas e projetos voltados para o público interno, bem doutrinado e bem comportado, à espera do céu. A agenda evangelical está ocupada em sinalizar historicamente a realidade do reino de Deus, buscando identificar-se com o próximo em sua complexidade pessoal, social, cultural e espiritual, visando à transformação da sociedade – através do serviço e da proclamação, levar “o evangelho todo para o homem todo, para todos os homens”, como preconizou Lausanne. A primeira, avaliada pela capacidade de produzir igrejas de sucesso, a segunda parafraseando Robinson Cavalcanti, comprometida em manifestar aqui e agora a maior densidade possível do reino de Deus que será consumado ali e além, de modo a oferecer ao mundo um anúncio profético do novo céu e a nova terra.

Ed René Kivitz

A moda Deus

11 Dezembro, 2007

Hoje o tema de Deus está em alta. Alguns em nome da ciência pretendem negar sua existência como o biólogo Richard Dawkins com seu livro Deus, um delirio (São Paulo 2007). Outros como o Diretor do Projeto Genoma, Francis Collins com o sugestivo título A linguagem de Deus (São Paulo 2007) apresentam as boas razões da fé em sua existência. E há outros no mercado como os de C.Hitchens e S.Harris.

No meu modo de ver, todas estes questionamentos laboram num equívoco epistemológico de base que é o de quererem plantar Deus e a religião no âmbito da razão.

O lugar natural da religião não está na razão, mas na emoção profunda, no sentimento oceânico, naquela esfera onde emergem os valores e as utopias. Bem dizia Blaise Pascal, no começo da modernidade:"é o coração que sente Deus, não a razão"(Pensées frag. 277). Crer em Deus não é pensar Deus mas sentir Deus a partir da totalidade do ser.

Rubem Alves em seu Enigma da Religião (1975) diz com acerto:"A intenção da religião não é explicar o mundo. Ela nasce, justamente, do protesto contra este mundo descrito e explicado pela ciência. A religião, ao contrário, é a voz de um consciência que não pode encontrar descanso no mundo tal qual ele é, e que tem como seu projeto transcendê-lo".

O que transcende este mundo em direção a um maior e melhor é a utopia, a fantasia e o desejo. Estas realidades que foram postas de lado pelo saber científico voltaram a ganhar crédito e foram resgatadas pelo pensamento mais radical inclusive de cunho marxista como em Ernst Bloch e Lucien Goldman. O que subjaz a este processo é a consciência de que pertence também ao real o potencial, o virtual, aquilo que ainda não é mas pode ser. Por isso, a utopia não se opõem à realidade. É expressão de sua dimensão potencial latente. A religião e a fé em Deus vivem desse ideal e desta utopia. Por isso, onde há religião há sempre esperança, projeção de futuro, promessa de salvação e de vida eterna. Elas são inalcançáveis pela simples razão técnico-científica que é uma razão encurtada porque se limita aos dados sempre limitados. Quando se restringe apenas a essa modalidade, se transforma numa razão míope como se nota em Dawkins. Se o real inclui o potencial, então com mais razão o ser humano, cheio de ilimitadas potencialidades. Ele, na verdade, é um ser utópico. Nunca está pronto, mas sempre em gênese, construindo sua existência a partir de seus ideais, utopias e sonhos. Em nome deles mostrou o melhor de si mesmo.

É deste transfundo que podemos recolocar o problema de Deus de forma sensata. A palavra-chave é abertura. O ser humano mostra três aberturas fundamentais: ao mundo transformando-o, ao outro se comunicando, ao Todo, captando seu caráter infinito, quer dizer, sem limites.

Sua condition humaine o faz sentir-se portador de um desejo infinito e de utopias últimas. Seu drama reside no fato de que não encontra no mundo real nenhum objeto que lhe seja adequado. Quer o infinito e só encontra finitos. Surge então uma angústia que nenhum psicanalista pode curar. É daqui que emerge o tema Deus. Deus é o nome, entre tantos, que damos para o obscuro objeto de nosso desejo, aquele sempre maior que está para além de qualquer horizonte.

Este caminho pode, quem sabe, nos levar à experiência do cor inquietum de Santo Agostinho:"meu coração inquieto não descansará enquanto não repousar em ti

"A razão que acolhe Deus se faz inteligência que intui para além dos dados e se transforma em sabedoria que impregna a vida de sentido e de sabor.

Leonardo Boff

A gente acaba aprendendo

10 Dezembro, 2007

A gente não devia, mas acaba aprendendo. A vida é dura; os dias, maus; a convivência com os outros, complicada; por isso, nos especializamos na arte de enganar.

A gente acaba aprendendo a disfarçar as angústias mais profundas. Bastam algumas sessões fotográficas para o desenho da boca não denunciar qualquer dor e os olhos deixarem de ser janelas da alma. Cumprimentamos polidamente; mudamos de assunto (vai chover hoje?); olhamos em outra direção. Qualquer movimento serve, desde que nunca se evidenciem nossas fragilidades, nossos medos, nossas ansiedades.

A gente acaba aprendendo a empurrar com a barriga, a não se afobar, a adiar, a procrastinar. Não nos inquietamos com o disperder da vida; somos azes em projetar para o além o dever de existir hoje. Complacentes, esquecemos de querer bem, de cuidar do próximo, de fazer diferença.

A gente acaba aprendendo a não balançar o barco. Não é difícil perceber o tipo de conversa que as pessoas querem; se for triviliadade, esse será o papo; se querem ser enganadas, oferecemos ilusões. Ensinaram-nos que “é melhor um covarde vivo, do que um herói morto”. Assim, criativos, reciclamos os chavões do senso comum e ficamos “numa boa com a galera”. "Deixa quieto", repetimos para nós mesmos e preservamos nossa reputação, garantimos nosso salário; e ninguém vai se magoar com a nossa vidinha.

A gente acaba aprendendo a arte do bom-mocismo; cedo nos especializamos em bajular o professor, a enrolar a namorada, a tapear o patrão, a arranjar desculpas para os atrasos. Depois, tudo fica fácil: fazemos orações aos berros e impressionamos com nossa “ousadia de desafiar Deus”; aprendemos a eleger uns poucos mandamentos que nos parecem bem fáceis e intimidamos nossos adversários com uma auréola de “santidade”; dramatizamos com uma cara de humilde e emplacamos como os únicos herdeiros do Reino de Deus.

A gente acaba aprendendo a ser altruísta quando for vantajoso; a perdoar como uma vingança; a mostrar paciência para usufruir da “lei da semeadura e da ceifa”; a abrir mão dos direitos, porque existem promessas de que Deus abençoa os mansos.

A gente acaba aprendendo a usar máscara, a trocar de fantasia, a mimetizar os ambientes, a vestir saco e cilícios. Personificamos qualquer personagem. Quando necessário, encenamos bardos, parnasianos, românticos, pierrôs, anedotistas, vestais, místicos. E que ninguém nos acuse de cousa alguma, pois somos os mais probos, os mais cândidos, os mais angélicos.

E assim, de decoro em decoro, de incorruptibilidade em incorruptibilidade, de sobriedade em sobriedade, tornamo-nos sepulcros caiados, guias cegos, serpentes, raça de víboras; enfim, fariseus hipócritas.

Acho que chegou a hora de desaprender.

Ricardo Gondim

Espiritualidade Platônica

08 Dezembro, 2007

“Todos nossos esforços estão hoje voltados para produzir um único fruto: mais prosélitos em nossos templos”


Fui visitar a cadeia de adolescentes da cidade onde moro. Sei que não se chama cadeia, e que tal estabelecimento não deveria se parecer nem de longe com uma – mas é uma cadeia, sim, com todas as mazelas que isso significa: celas cheias e imundas, confinamento integral, violência, promiscuidade, falta de opções de aprendizado ou reconstrução pessoal. De um lugar destes, não se volta. O corpo sai, ao fim da pena estabelecida; mas a alma do interno fica lá, presa com outros jovens franzinos, sedenta de ar e respostas. Choca saber que grande parte dos meninos que ali estão vieram de famílias evangélicas. Dentro das celas, há indícios da fé um dia aprendida – paredes pichadas com frases como “Jesus salva” ostentam também os mais repulsivos palavrões.

O que aconteceu com o poder do nosso Evangelho? Há algo de podre no reino da Dinamarca. A verdade de Cristo parece não estar resolvendo muita coisa numa cidade em que pelo menos 40% da população confessa-se evangélica. Mas será que a verdade chegou integralmente até ali? Será que a mensagem da verdade, que é o próprio Cristo, foi entendida e vivida pelos cristãos e transmitida de maneira clara? Temos que crer que o problema não está na mensagem, cujo DNA é do nosso Deus Criador e Todo-poderoso. O problema tem que estar nos filtros que usamos para perceber e transmitir essa mensagem.

O poder transformador do Evangelho é proporcional à integridade com que sua mensagem original é mantida. Se alguém observasse a Europa pré-Reforma, com suas pestilências, guerras, sociedade hierarquizada ao extremo e cidadãos mergulhados nas trevas da ignorância, diria que a mensagem cristã também ali era inefetiva, já que a população do continente era primordialmente cristãos. No entanto, assim que a mensagem foi clareada, ou seja, assim que houve um retorno a princípios básicos antes ignorados, a transformação foi imediata. Lutero, Calvino, Zwinglio e outros reformadores pregaram o Evangelho do homem todo e da sociedade toda – o Evangelho da redenção social e individual. A influência desta teologia gerou o desenvolvimento dos países do norte da Europa e da América anglo-saxônica, o que se faz sentir até hoje.

O Brasil cada vez mais evangélico, assim como a Europa medieval, se debate em agonia com a falta da aplicação da mensagem integral do Reino de Deus. Reduzimos a mensagem do Evangelho a um significado só – apenas a salvação importa, e esta salvação tem uma manifestação única, a conversão do indivíduo salvo às nossas denominações evangélicas. Isso torna nossa pregação extremamente proselitista. Diante dos problemas sociais graves que vemos no Brasil, temos só uma resposta: “converteremos todos à nossa religião e então teremos cumprido a vontade de Deus e o Brasil será um país melhor”.

Tentamos ser relevantes, mas nosso fruto é sempre o mesmo. Temos um sabor só, uma cor só, um fruto só: religião. Pensamos em nossa tarefa como sendo unicamente a de salvar indivíduos. Se vamos ao presídio, falamos de salvação, o que não é nada novo para os que ali estão detidos, se vamos à TV, falamos de salvação, como se o telespectador já não soubesse decor e salteado o que lhe apresentamos; se vamos ao Congresso, achamos que ao colocar a Bíblia na tribuna e evangelizar mais deputados, estaremos mudando a sociedade. Mas usamos dinheiro público para construir catedrais e beneficiamos os crentes com leis circunstanciais e oportunistas. Se fazemos trabalho social, pensamos, na maior parte das vezes, em “converter” mais pessoas. Todos nossos esforços estão voltados para produzir um único fruto: mais prosélitos em nossos templos.

O problema é que usamos o óculos grego para ler a Bíblia. Na cosmovisão greco-cristã, influenciada pelo platonismo, a alma e o espírito do indivíduo é a única matéria-prima possível para a ação do Espírito Santo para chegar a um produto único mais óbvio – a sua salvação deste mundo material corrupto para o perfeito mundo do espírito. Esta espiritualidade platônica acaba nos tornando mais parecidos com hinduístas do que com verdadeiros cristãos. Só que a cosmovisão hindu, que considera o mundo material absolutamente inútil e desprezível, produziu a miséria indescritível que hoje vive a Índia.

Se restaurarmos a compreensão tribal da mensagem de Deus, recuperaremos dois pilares fundamentais na visão de mundo judaico-cristã: a identidade social e a espiritualidade concreta, ou seja, a visão do ser humano como um todo, espírito e matéria. Entendemos que o grupo, assim como o indivíduo, também pode ser ou não “salvo”, refletir ou não os valores de Deus na prática social, nas leis, na forma de ser sociedade, no governo, na arte. Aí, passa a existir a dimensão sociológica do “amai-vos uns aos outros”. Temos que entender o plano de Deus para a sociedade e para todas as áreas da vida. Expressar o amor do Senhor para a sociedade a partir de nossa identidade coletiva é parte da nossa missão, tanto quanto lutar pela salvação de seus indivíduos.

Se pensássemos o cristianismo além da mera salvação, saberíamos o projeto concreto de Deus para o mundo dos negócios, para o sistema educacional, para a administração pública, para a cultura nacional. Haveriam outros frutos possíveis para nossa fé evangélica, além de igrejas cheias. Trabalharíamos com a essência divina da sociedade humana antes que ela se desintegrasse, abraçaríamos a cidade antes que nela se instalasse o caos. Se amássemos a socidade, seríamos capazes de articular nossa visão de mundo tão bem que as pessoas se apaixonariam pelo modelo social exemplificado por nós. Mostraríamos então na prática o amor incondicional e integral de Deus para todas as pessoas, independente de cor, classe social, gênero. Não guerrearíamos contra a sociedade – mas, ao contrário, nos uniríamos a ela para combater seus problemas e propor soluções. Mas por enquanto só temos produzido um único fruto: a religião, que se empobrece fria dentro de templos faraônicos.

Bráulia Inês Ribeiro

A preparação para o Natal. O Messias veio? O Messias virá?

07 Dezembro, 2007


"...Porquanto vos trago boas novas de grande alegria que o será para todo o povo." (Lc 2.10b)

O Ano Civil ainda prossegue por um mês, mas o Ano Cristão terminou. Olhamos para a nossa vida pessoal -- e suas relações -- desde o Advento passado, por cada quadra do Ano Cristão, e podemos perceber o quanto fomos santificados (ou não) em nossos sentimentos, temperamento, caráter, projetos, valores, compromissos. As lições de cada quadra do Ano Cristão, quando levadas devidamente a sério, pelo poder do Espírito Santo, podem fazer uma diferença qualitativa em nossas vidas, que vão sendo moldadas ao caráter de Cristo. Por não manterem essa sábia e pia tradição, outros ramos do Cristianismo se empobrecem, movidos apenas pelo Ano Civil, ou apelando, fora de tempo, para o calendário Judaico.

Iniciamos o Ano Cristão com o tempo do Advento, as quatro semanas que antecedem a celebração do Natal, com a importância da Encarnação e o anúncio angélico aos pastores de que "boas novas de grande alegria seriam para todo o povo". Como a Igreja tem crido, por dois mil anos que o Messias já veio, e já habitou entre nós, cheio de Graça e de Verdade, nesse tempo também esperamos o Segundo Advento, o regresso glorioso do Senhor para julgar os vivos e os mortos, e estabelecer o seu perfeito e definitivo Reino. Encarnação e parousia.

A realidade é que milhões de pessoas no mundo atual nunca ouviram falar do Messias, ou não tiveram a oportunidade de se posicionarem diante das Boas Novas. O empreendimento missionário, difícil, ainda é uma tarefa inacabada. Os Liberais, para aliviar o peso das consciências e da responsabilidade, decretam, com seu universalismo, uma "anistia", pretendendo a salvação de todos, ou vendo no Jesus de Nazaré apenas uma das manifestações do Cristo de Deus, que também estaria presente nos fundadores das grandes religiões.

Para tantos cristãos nominais ou superficiais, a chegada do Messias pouco mais é do que um fato histórico ou uma tradição cultural, não gerando o compromisso da vida nova de doação.

O Secularismo vai mais além, e quer eliminar o Natal como parte da própria cultura. Nero redivive!

Por outro lado, para milhões de pobres, explorados, marginalizados, excluídos, discriminados, mesmo em uma sociedade que se pretende parte da Cristandade, a vinda do Messias não lhes significou qualquer "boa nova", nem lhes trouxe "grande alegria".

O Messias já veio ou o Messias ainda virá?

O Advento é um tempo de aprofundamento espiritual, de espera, de apontar para os feitos de Deus, a expectativa da chegada do Messias, e a chegada da Era Messiânica, do início do tempo novo, do tempo diferente.

Que o Espírito do Messias nos anime nessa esperança!

Robinson Cavalcanti

A oração simples

05 Dezembro, 2007

Não existe oração errada. Aliás, a oração errada é aquela que não é feita. A Bíblia Sagrada ensina que se deve orar a respeito de tudo. Orar por qualquer motivo, qualquer hora, qualquer lugar, sempre que o coração não estiver em paz. Tão logo o coração experimente apreensão, preocupação, medo, angústia, enfim, seja perturbado por alguma coisa, a ação imediata de quem confia em Deus é a oração.

O apóstolo Paulo diz que não precisamos andar ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, com ação de graças, devemos apresentar nossos pedidos a Deus, tendo nas mãos a promessa de que a paz de Deus que excede todo o entendimento, guardará nossos sentimentos e pensamentos em Cristo Jesus (Filipenses 4.6,7). A expressão “coisa alguma” inclui desde uma vaga no estacionamento do shopping center quanto o fechamento de um negócio, o desejo de que não chova no dia da festa quanto a enfermidade de uma pessoa querida.

Esta experiência de oração é chamada de oração simples: orar sem censura filosófica ou teológica, orar sem se perguntar “é legítimo pedir isso a Deus?” ou “será que Deus se envolve nesse tipo de coisa?”. Simplesmente orar.

A garantia que temos quando oramos assim é a paz de Deus em nossos corações e mentes. A Bíblia não garante que Deus atenderá nossos pedidos exatamente como foram feitos: pode ser que a vaga no estacionamento não seja encontrada e que chova no dia da festa. A oração não se presta a fazer Deus trabalhar para nós, atendendo nossos caprichos e provendo o nosso conforto. Já que a causa da oração simples é a ansiedade, a resposta de Deus é a paz. O resultado da oração não é necessariamente a mudança da realidade a respeito da qual se ora, mas a mudança da pessoa que ora. A mudança da situação a respeito da qual se ora é uma possibilidade, a mudança do coração e da mente da pessoa que ora é uma realidade. Deus não prometeu dizer sim a todos os nossos pedidos, mas nos garantiu dar paz e nos conduzir à serenidade. Não prometeu nos livrar do vale da sombra da morte, mas nos garantiu que estaria lá conosco e nos conduziria em segurança através dele.

O maior fruto da oração não o atendimento do pedido ou da súplica, mas a maturidade crescente da pessoa que ora. Na verdade, a estatura espiritual de uma pessoa pode ser medida pelo conteúdo de suas orações. Assim como sabemos se nossos filhos estão crescendo observando o que nos pedem e o que esperam de nós, podemos avaliar nosso próprio crescimento espiritual através de nossos pedidos e súplicas a Deus. As orações revelam o que realmente ocupa nossos corações, o que realmente é objeto dos nossos desejos, o que nos amedronta, nos desestabiliza e nos rouba a paz.

O apóstolo Paulo diz que quando era menino, falava como menino, pensava como menino e raciocinava como menino. Mas quando se tornou homem, deixou para trás as coisas de menino (1Coríntios 13.11). Não existe oração certa e errada. Mas existe oração de menino e oração de homem. Oração de menina e oração de mulher. A diferença está no coração: coração de menino e de menina, ora como menino e menina. A nossa certeza é que Deus também gosta de crianças.

Ed René Kivitz

Armagedon humano?

04 Dezembro, 2007

Os atuais cenários sombrios sobre o futuro do sistema-vida e especificamente da espécie humana permitem que biólogos, bioantropólogos e astrofísicos aventem o possível desaparecimento da espécie homo sapiens/demens ainda neste século. Aduzem argumentos que merecem ponderação. O mais robusto parece ser aquele da superpopulação articulada com a dificuldade de adaptação às mudanças climáticas. Na escala biológica verifica-se um crescimento exponencial. A humanidade precisou um milhão de anos para alcançar em 1850 um bilhão de pessoas. Os espaços temporais entre os índices de um crescimento a outro diminuem cada vez mais. De 75 anos - de 1850 a 1925 - passaram para 5 anos de diferença. Prevê-se que por volta de 2050 haverá dez bilhões de pessoas. É triunfo ou dano?

Lynn Margulis e Dorian Sagan, notáveis microbiólogos, no conhecido livro Microcosmos (1990) afirmam com dados dos registros fósseis e da própria biologia evolutiva que um dos sinais do colapso próximo de uma espécie é sua rápida superpopulação. Isso pode ser comprovado por micro-organismos colocados na cápsula Petri (placa redonda com colônias de bactérias e nutrientes). Pouco antes de atingirem as bordas da placa e se esgotarem os nutrientes, multiplicam-se de forma exponencial. E de repente morrem. Para a humanidade, comentam eles, a Terra pode mostrar-se idêntica a uma cápsula Petri. Com efeito, ocupamos quase toda a superfície terrestre, deixando apenas 17% livre: desertos, floresta amazônica e regiões polares. Estamos chegando às bordas físicas da Terra. Há explosão demográfia e decrescimento dos meios de vida num planeta limitado. Sinal precursor de nossa próxima extinção?

O prêmio Nobel em medicina, Christian de Duve, sustenta que estamos assistindo a sintomas que precederam no passado as grandes dizimações. Normalmente desaparecem por ano 300 espécies vivas porque chegaram ao seu climax evolucionário. Dada a pressão industrialista global sobre a biosfera estão desparecendo cerca de 3.500. Um desastre biológico. Será que agora não chegou a nossa vez?

Carl Sagan, já falecido, via no intento humano de demandar à Lua e enviar naves espaciais como o Voyager 1 para fora do sistema solar, a manifestação do inconsciente coletivo que pressente o risco da extinção próxima. A vontade de viver nos leva a excogitar formas de sobrevivência para além da Terra. O astrofísico Stephen Hawking fala da possivel colonização extrasolar com naves, espécie de veleiros espaciais, impulsionadas por raios laser que lhes confeririam uma velocidade de trinta mil quilômetros por segundo. Mas para chegar a outros sistemas planetários teríamos que percorrer bilhões e bilhões de quilômetros, necessitando pelo menos de um século de tempo. Ocorre que somos prisioneiros da luz, cuja velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo é até hoje insuperável. Mesmo assim só para chegar a estrela mais próxima – a Alfa do Centauro – precisaríamos de quarenta e três anos, sem ainda saber como frear essa nave a esta altíssima velocidade.

Tais reflexões nos permitem falar de um possível Armagedon humano. Este representa um desafio para as religiões que vêem o fim da espécie como obra do Criador e não da atividade humana. Para o Cristianismo a morte coletiva, mesmo induzida, não impede o triunfo final da vida pela via da ressurreição e da transfiguração de toda a criação por Deus.

Leonardo Boff

Paz

03 Dezembro, 2007

"Todos gostaríamos de ver o mal erradicado da história, porém, o
que nem sempre nos damos conta, é que o mal não é uma entidade, o mal é um comportamento, uma intenção, uma motivação...

Dia de calor escaldante, como era próprio da região desértica do oriente médio, dois soldados sarracenos (muçulmanos) postados em posição de guarda, num acampamento de seu exército, observam que, ao longe, vem se aproximando um monge cristão, trocam sorrisos matreiros e, num ato que parecia ensaiado, soltam os dois cães, treinados para matar, que tinham. presos pela coleira, ao lado de cada um respectivamente. Os cães furiosos se lançam em direção do pobre frade, porém, para surpresa dos soldados, ao aproximarem-se do religioso, repentinamente, tornam-se dóceis, submetendo-se aos gestos carinhosos do estranho que, sozinho, maltrapilho, caminhava em direção daquele acampamento. Era Francisco de Assis, que, no período das cruzadas, foi para a região do conflito, numa corajosa e solitária tentativa de demonstrar que a fé cristã não era o que os cruzados estavam praticando, e que o seu método era sempre a paz.

Francisco estava certo, uma fé que quer conquistar corações jamais pode usar a força para a obtenção de seus propósitos. Como disse o fundador e mantenedor dessa fé: "Bem aventurado os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus."

Todos gostaríamos de ver o mal erradicado da história, porém, o que nem sempre nos damos conta, é que o mal não é uma entidade, o mal é um comportamento, uma intenção, uma motivação, portanto, para que Deus erradique o mal, há que escolher entre duas possibilidades: Ou mata todos os maldosos ou os converte. Deus escolheu, pelo menos, em relação aos homens, a conversão. A conversão pressupõe diálogo, interesse, sensibilidade para com o outro. As pessoas se convertem diante do amor e da razão, a força é, na maioria das vezes, irracional. Além do que, a força evoca a punição. Alguém poderia dizer que ninguém sentiria falta dos maus, se Deus os destruísse. Porém, diante da santidade de Deus não há quem não seja mal. Logo, não escaparia ninguém, nem nós que já temos um pacto com Deus.

O cristianismo não tem outro caminho senão o da paz; não tem outra retaguarda senão a intercessão; não tem outro método senão a pregação; não tem outra forma de pregar senão vivendo, para, em vivendo o que prega, poder pregar o que vive. Como disse o próprio Francisco: "Prega o tempo todo, se necessário, usa as palavras." Isso vale para qualquer relacionamento, o que significa que pastores que usam de constrangimentos para pastorear, como o fato de ser ungido por Deus para aquela função, ou qualquer outra forma de coerção, estão atentando contra a mensagem e a prática do evangelho. A arma que os pastores e líderes podem usar, com legitimidade, é a autoridade moral, fruto de uma vida exemplar. Qualquer ato que não nasça da paz e nela desemboque atenta contra a Palavra de Cristo.

Líderes cristãos, no curso da história, tem cometido essa incompreensão a um custo incalculável, foi assim nas cruzadas; na inquisição; na guerra contra os protestantes; na colonização das Américas, da Oceania e da África. A história, também, tem registrado omissões desastrosas por parte de segmentos cristãos, que foram decisivas para os eventos em curso. Parte considerável dos cristãos alemães se omitiram frente a Hitler, dos italianos frente a Mussolini, dos portugueses frente a Salazar, dos espanhóis frente a Franco, dos brasileiros frente a ditadura militar e, agora, dos estadunidenses frente o que a Bush tem feito no Iraque. Não importa em quantas outras coisas ele tenha acertado, esse novo senhor da guerra tem vendido a idéia de se estar em guerra pelos valores cristãos. Dizem que ele ora,e eu não duvido, mas o fariseu que, segundo Jesus, disse DE SI PARA CONSIGO MESMO, graças te dou oh! Pai, também pensava estar orando, às vezes nossa oração também soa assim; e, não podemos nos esquecer: "nem todo o que diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino de Deus, mas, todo aquele que faz a vontade de meu Pai". Disse-o Jesus.

Sabe de uma coisa, ninguém briga por Deus, a gente guerreia por nossos desejos, por nossa ganância, enfim, por impublicáveis motivos. Por Cristo, por Deus, a gente perdoa, ama, abraça, restaura, ajuda, socorre, alimenta, sustenta, enfim, abençoa.

Cristãos, resistam aos senhores da guerra, jamais admitamos que um ser humano, sequer, seja derrubado em nome de Jesus de Nazaré, o Cristo, o Filho do Deus vivo, que não julgou por usurpação o ser igual a Deus, mas