Pentecostal, não esotérico!

20 Setembro, 2007

Marcus e eu tremíamos. Diante do austero Conselho da nossa igreja, respondíamos sobre nossa recente experiência pentecostal. Em oração, eu e ele havíamos falado em línguas estranhas; experimentado o que os teólogos chamam de “glossolália”. Há vinte e cinco anos, a questão carismática havia rachado muitas igrejas batistas, presbiterianas e metodistas. Alguns líderes de nossa igreja não queriam correr riscos. Sentamos em um semi círculo e, seguindo todos os trâmites canônicos da denominação, foi-nos cobrada uma nova profissão de fé. Ficava patente para nossos inquiridores que não só criamos como também éramos pentecostais. A morna madrugada cearense se arrastava pesada quando, exaustos, percebemos que não havia reconciliação. Acabamos forçados a pedir afastamento da igreja. Passados tantos anos, nossos traumas foram curados. Desde então, a minha primeira e tão querida igreja mudou muito. Alguns elementos pentecostais que provocaram nossa exclusão foram incorporados à sua liturgia; há mais abertura doutrinária também. Duvido que hoje fossemos julgados com tanto rigor. Ironicamente, agora escrevo questionando sobre novas práticas e posicionamentos teológicos no pentecostalismo. Percebo um neo-carismatismo brasileiro muito diferente do que conheci.Acredito que muitas igrejas, identificadas hoje como pentecostais, estão teologicamente muito próximas de um misticismo pagão. Distantes da teologia clássica, incorporaram valores de uma espiritualidade esotérica. Com certeza, há fortes segmentos de um novo pentecostalismo que não caminham com o que a igreja primitiva chamava de “doutrina dos apóstolos”. Urge mostrar que é possível ser pentecostal sem ser esotérico.Recentemente, aguardava minhas malas na esteira de um determinado aeroporto. Uma senhora evangélica me abordou afirmando que se dispunha a orar por uma pessoa amiga. Pediu-me que intermediasse o encontro. Respeitosamente, respondi-lhe: -Lamento, mas não tenho acesso a essa pessoa. De pronto, ela me respondeu: -Pedi seu auxílio porque sei que posso ajudar. Depois, acrescentou: -Desenvolvi uma técnica de oração que, tenho certeza, dará certo. Em sua sentença, percebi os perigos que ameaçam os evangélicos brasileiros. Esse conceito de técnica é mais pagão que bíblico.O paganismo se firma na premissa de que há energias soltas no cosmo. O aprendizado de técnicas e rituais capacitam as pessoas a instrumentarem essas energias em seu próprio benefício. O pagão prescinde de relacionamentos com a divindade. Seu deus pode ser indiferente e frio. Basta que se canalizem essas forças autônomas e até a divindade se obrigará a elas. Igrejas que ensinam aos seus crentes orações prontas, valem-se de amuletos e divulgam métodos para “conseguir” bênçãos de Deus, não são pentecostais ou evangélicas, mas versões cristianizadas do esoterismo do fim de século. Meus primeiros passos nas igrejas pentecostais foram intensos. Atravessávamos madrugadas “buscando” a Deus. Quantas vezes, encharcando o chão de lágrimas e suor, suplicávamos com fervor que a sua vontade se cumprisse em nossas vidas. Algumas vezes, exagerávamos. Recordo-me de um amigo que, de rosto em terra, afirmava que preferia morrer a sair daquela reunião sem ser tocado pelo Espírito Santo. Em muitos sítios evangélicos hoje, a atitude parece ser outra. Resumem-se em desenvolver fórmulas de alcançar milagres. Infelizmente são poucos os eventos organizados para que as pessoas simplesmente busquem ser cheias de Deus. Questiono se ainda há espaço para oração em que não se desejam resultados práticos, apenas estar mais perto de Jesus.A possibilidade de ser tocado pelo sobrenatural empolgou meus anos juvenis. Lembro-me que eu relegara ao passado a possibilidade de milagres acontecerem. Foram os pentecostais que me lembraram que podemos não apenas testemunhar, como experimentar o toque sobrenatural do Espírito Santo. Disseram-me que o seu poder me revestiria de virtude e que eu, a partir daquela experiência, seria consumido por um novo zelo missionário. Busquei e pedi que Deus me enchesse do seu poder porque desejava testemunhar dele com novo ardor. Senti-me invadido pelo transcendente em um culto de vigília promovido por nosso grupo da Aliança Bíblica Universitária. Meus objetivos de vida mudaram.As religiões místicas também buscam experiências sobrenaturais. Não contesto que o fenômeno das línguas estranhas também já se evidenciou em alguns redutos espíritas. O argumento pentecostal é que o contato sobrenatural do Espírito Santo impulsiona para missões. A experiência pagã com o sobrenatural é ensimesmada. Deus não nos toca, não nos plenifica e não nos revela o transcendente somente para nos arrepiar. O esotérico busca paz; quer sentir-se melhor sem compromisso para o serviço. O cristão busca servir; quer ser instrumento capaz nas mãos de Deus. Devemos olhar com cautela as reuniões em que as pessoas são arrebatadas, jogadas ao chão, tomadas de riso e de choro sem desdobramentos posteriores no servir ao próximo. Alcebíades Pereira Vasconcelos, pastor e pensador pentecostal, escreveu: ”Também a unção do Espírito Santo nos enche de poder para testemunhar...Cheios do Espírito, podemos anunciar o Evangelho de poder, a tempo e fora de tempo (2 Tm 4.1-5)...Inflamados por esse fogo, seguiremos avante dando testemunho a pequenos e a grandes (At 26.22) daquilo de que somos testemunhas, a saber, da ‘razão de ser de nossa fé’”.Aquela reunião em que me confrontavam sobre a autenticidade de minha experiência com os dons do Espírito Santo, permanece vívida em minha memória. Ainda inexperiente e sem muita bagagem teológica eu não sabia argumentar o que me sucedera. Entretanto, estava consciente que minha vida havia mudado. O toque de Deus gerara em mim novos valores. O pentecostalismo sempre creu que o poder do Espírito Santo e santidade são inseparáveis. Donald Gee, inglês e precursor da teologia pentecostal afirmou: “Não há base bíblica para crer que um avivamento que só recebe o Espírito Santo como inspirador da Palavra ou da ação, e não da santificação pessoal também, continue no seu poder. ‘Entristecer’ o Espírito de Deus por falta de santificação (Ef. 4.30) com certeza termina também na ‘extinção’ do Espírito de Deus na sua manifestação (1 Ts 5.19). O plano divinamente equilibrado revelado no Novo Testamento é onde o Espírito Santo se assemelha na origem tanto do fruto como do dom; e para as duas fases da nossa redenção Ele é bem vindo e obedecido”. Neste crepúsculo secular experimenta-se um avivamento de um misticismo pós-moderno. Tenho um amigo que estudou com um professor de lógica na faculdade de Filosofia que lecionava segurando um cristal. Sabe-se de ex-militantes da Teologia de Libertação profundamente envolvidos com um panteísmo que os inspira a adorar a “mãe terra”. Há evangélicos crendo em “mau olhado”, amuletos e no poder de um copo d’água ungido. Com tanta abertura para o transcendente, convém lembrar que é possível crer na contemporaneidade dos dons do Espírito Santo, cura divina, milagres, anjos e exorcismos, sem ser esotérico. Basta não abandonar a Bíblia como única regra de fé e prática. Continuaremos fieis ao cristianismo histórico, se nossos cultos buscarem nos levar a um relacionamento mais profundo e verdadeiro com Deus; nossa fé desdobrar se em serviço e a expressão de nossa vida cristã estiver marcada por caráter e não sucesso. A identidade evangélica no próximo milênio, dependerá de nossa habilidade em distinguir uma coisa da outra.

Que Deus nos ajude.

Ricardo Gondim

O tesouro do túmulo

18 Setembro, 2007

“Então, o que devo fazer com Jesus”?
Pilatos perguntou primeiro, mas todos nós temos perguntado depois.
É uma pergunta justa. Uma pergunta necessária. O que é que você faz você com um homem assim? Ele se chamou de Deus, mas usou as roupas de um homem. Ele se chamou o Messias, mas nunca comandou um exército. Ele foi considerado como rei, mas sua única coroa foi de espinhos. Pessoas o veneraram como real, contudo seu único manto foi costurado com escárnio.
Não é de se admirar que Pilatos ficou confuso. Como você explica um homem assim?
Uma maneira é por uma caminhada. A caminhada dele. A última caminhada dele. Siga os passos dele. Fique na sombra dele. De Jericó até Jerusalém. Do templo para o jardim. Do jardim até o julgamento. Do palácio de Pilatos até a cruz de Gólgota. Olhe ele caminhando – indignado para o templo, cansado para Getsêmani, atormentado pela Via Dolorosa. E poderosamente para fora do túmulo desocupado.
Testemunhando o caminho dele, reflita sobre o seu, porque todos nós temos nosso próprio caminho para Jerusalém. Nosso próprio caminho pela religião oca. Nossa própria descida pela ladeira estreita da rejeição. E cada um de nós, como Pilatos, temos que lançar um veredicto sobre Jesus.
Pilatos ouviu a voz das pessoas e deixou Jesus para percorrer o caminho só. Será que nós vamos?
Eu espero que plantado permanentemente em sua alma esteja o momento em que o Pai lhe tocou na escuridão e lhe levou pelo caminho da liberdade. É uma memória como nenhuma outra. Porque quando ele liberta você, você está realmente livre.
Posso lhe contar minha história?
Uma aula da Bíblia numa pequena cidade ao leste do Texas. Eu não sei o que era mais notável, que um professor estava tentando ensinar o livro de Romanos para um grupo de meninos de dez anos de idade, ou que eu me lembro do que ele disse.
A sala de aula era de tamanho médio, uma das cerca de doze numa igreja pequena. Minha banca estava toda riscada e com chiclete grudado em baixo. Havia cerca de vinte delas, embora só uns quatro ou cinco estivessem ocupados.
Todos nós sentamos no fundo da sala, querendo parecer sofisticados demais para estar interessados. Calças jeans engomadas. Tênis da moda. Era verão e o sol que descia lentamente pintava a janela de ouro.
O professor era um homem sério. Eu ainda lembro da barriga dele aparecendo em baixo do terno que ele nem faz mais questão de tentar abotoar. A gravata dele acaba a meio caminho. Ele tem um sinal preto na testa, uma voz macia, e um sorriso amável. Embora ele não tenha nada a ver com as crianças de 1965, ele não sabe disso.
As anotações dele estão empilhadas em um pódio debaixo de uma Bíblia preta pesada. Ele está de costas para nós e o terno dele sobe e desce enquanto ele escreve no quadro. Ele fala com paixão genuína. Ele não é um homem dramático, mas esta noite ele está fervoroso.
Só Deus sabe por que eu o ouvi naquela noite. O texto dele era Romanos capítulo seis. O quadro-negro ficou coberto com diagramas e palavras longas. Em algum momento no processo de descrever como Jesus entrou no túmulo e depois saiu, aconteceu. A jóia da graça foi erguida e virada para que eu pudesse vê-la de um ângulo novo... e tirou minha respiração.
Eu não vi um código moral. Eu não vi uma igreja. Eu não vi os dez mandamentos ou demônios infernais. Eu vi meu Pai entrar na minha noite escura, me despertar do meu sono, e suavemente me guiar – não, me carregar para a liberdade.
Eu não disse nada a meu professor. Eu não disse nada a meus amigos. Eu nem sei se falei qualquer coisa a Deus. Eu não sabia o que dizer. Eu não sabia o que fazer. Mas para tudo que eu não sabia, havia um fato do qual eu estava absolutamente seguro: eu queria estar com ele.
Eu falei para meu pai que eu estava pronto para entregar a minha vida a Deus. Ele pensou que eu era muito jovem para tomar esta decisão. Ele perguntou o que eu sabia. Eu lhe falei que Jesus estava no céu e eu queria estar com ele. E para meu pai aquilo era o bastante.
Até hoje eu fico em dúvida se meu amor já foi tão puro quanto naquela hora. Eu tenho saudades da certeza da minha fé principiante. Se você tivesse me falado que Jesus estava no inferno, eu teria concordado em ir. Confissão pública e batismo vieram naturalmente para mim.
Você vê, quando seu Pai vem lhe libertar de escravidão, você não faz perguntas; você obedece instruções. Você segura a mão dele. Você caminha o caminho. Você deixa para trás a escravidão. E você nunca, nunca esquece.
Minha oração é que você nunca esqueça de seu caminho ou do dele: O caminho final de Jesus de Jericó para Jerusalém. Porque foi este caminho que lhe garantiu liberdade.
O passeio final dele pelo templo em Jerusalém. Foi neste caminho que ele denunciou a religião oca.
O passeio final dele para o Monte das Oliveiras. Porque foi ali que ele prometeu voltar e levá-lo para casa.
E o caminho final dele do palácio de Pilatos para a cruz de Gólgota. Pés descalços e ensangüentados se esforçam para subir um estreito caminho pedregoso. Mas igualmente vívida como a dor da viga atrás as suas costas dilaceradas, é a visão que ele tem de você e ele caminhando juntos.
Ele podia ver a hora em que ele entraria em sua vida, em seu quarto escuro lhe despertando do seu sono para lhe guiar à liberdade.
Mas o caminho não terminou. A viagem não está completa. Há mais um caminho que deve ser trilhado.
“Eu voltarei,” ele prometeu. E para provar isso ele rasgou em dois o véu do templo e estourou os portões da morte. Ele voltará.
“Aquele que nos resgatou voltou!” nós vamos clamar.
E a viagem terminará e nós tomaremos nossos lugares no banquete dele. . . para sempre. Te vejo à mesa.


Max Lucado

O nevoeiro do coração partido

17 Setembro, 2007

É um nevoeiro escuro que aprisiona furtivamente a alma e se recusa a ir embora. É uma neblina silenciosa que esconde o sol e chama as trevas. É uma nuvem pesada que não honra qualquer hora nem respeita quem quer que seja. Depressão, desânimo, desapontamento, dúvida... todos são companheiros desta presença temida.
O nevoeiro do coração partido desorienta a nossa vida. Ele torna difícil ver o caminho. Abaixe as suas luzes. Limpe o pára-brisa. Ande mais devagar. Faça o que quiser, nada ajuda. Quando este nevoeiro nos rodeia, nossa visão fica bloqueada e o amanhã está para sempre distante. Quando esta escuridão ondulada nos envolve, as palavras mais sinceras de ajuda e esperança não passam de frases vazias.
Se você já foi traído por um amigo, sabe o que estou dizendo. Se já foi abandonado por um cônjuge ou um pai, já viu esse nevoeiro. Se já colocou uma pá de terra sobre o caixão de um ente querido ou ficou vigiando junto ao leito de alguém que ama, você reconhece também esta nuvem.
Se já esteve neste nevoeiro, ou está nele agora, pode estar certo de uma coisa — não se encontra sozinho. Até o mais esperto dos capitães da marinha já perdeu o rumo ao aparecer essa nuvem indesejada. Como disse certo comediante: "Se os corações partidos fossem anúncios, todos apareceríamos na televisão."
Faça um retrospecto dos últimos dois ou três meses. Quantos corações partidos encontrou? Quantos espíritos feridos teve ocasião de observar? Quantas histórias de tragédias chegou a ler?
Minha própria reflexão é cautelosa:
- A mulher que perdeu o marido e o filho num terrível acidente automobilístico.- A atraente mãe de três crianças que foi abandonada pelo cônjuge.- O garoto atropelado e morto por um caminhão de lixo, quando saía do ônibus da escola. A mãe, que o esperava, testemunhou a tragédia.- Os pais que encontraram o filho adolescente morto na floresta atrás de sua casa. Ele se enforcara com o próprio cinto numa árvore.
A lista continua indefinidamente. Tragédias nebulosas. Como cegam nossa visão e destroem os nossos sonhos. Esqueça todas as grandes esperanças de alcançar o mundo. Esqueça todos os planos de mudar a sociedade. Esqueça todas as aspirações de mover montanhas. Esqueça tudo isso. S6 me ajude a atravessar a noite.
O sofrimento do coração partido.
Venha comigo assistir aquela que foi talvez a noite mais enevoada da história. A cena é muito simples, você vai reconhecê-la rapidamente. Um bosque de oliveiras retorcidas. O chão coberto de pedras grandes. Um muro baixo de pedras. Uma noite escura, muito escura.
Veja agora o quadro. Olhe atentamente através da folhagem sombria. Vê aquela pessoa?
Vê aquela figura solitária? O que ele está fazendo? Deitado no chão. O rosto manchado de terra e lágrimas. Os punhos batendo no solo. Os olhos arregalados com o estupor do medo. O cabelo emaranhado por causa do suor salgado. Será aquilo sangue em sua testa?
Esse é Jesus. Jesus no Jardim do Getsêmani.
Você talvez tenha visto o retrato clássico de Cristo no jardim. Ajoelhado junto a uma grande rocha. Um alvo manto. Mãos pacificamente unidas em oração. Um olhar sereno em seu rosto. Um halo sobre a sua cabeça. Um raio de luz do céu, iluminando seu cabelo castanho dourado.
Eu não sou artista, mas posso dizer-lhe algo. O homem que pintou esse quadro não usou o evangelho de Marcos como modelo. Veja o que Marcos escreveu sobre aquela noite penosa:
"Então, foram a um lugar chamado Getsêmani; ali chegados, disse Jesus a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou orar. E, levando consigo a Pedro, Tiago e João, começou a sentir-se tomado de pavor e de angústia. E lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai.
E, adiantando-se um pouco, prostrou-se em terra; e orava para que, se possível, lhe fosse poupada aquela hora. E dizia: Aba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres.
Voltando, achou-os dormindo; e disse a Pedro: Simão, tu dormes? Não pudeste vigiar nem uma hora? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.
Retirando-se de novo, orou repetindo as mesmas palavras. Voltando, achou-os outra vez dormindo, porque os seus olhos estavam pesados; e não sabiam o que lhe responder.
E veio pela terceira vez e disse-lhes: Ainda dormis e repousais! Basta! Chegou a hora; o Filho do Homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos! Eis que o traidor se aproxima."[1]
Observe estas frases: “Começou a sentir-se tomado de pavor e de angústia.” “Minha alma está profundamente triste.” “E, adiantando-se um pouco, prostrou-se em terra.”
Este parece um quadro de um Jesus santo, repousando na palma de Deus? De modo algum. Marcos usou tinta preta para descrever esta cena. Vemos um Jesus agonizante, lutando e se esforçando. Vemos um "homem de dores".[2] Vemos um homem enfrentando o medo, em luta com os compromissos e ansiando por alívio.
Vemos Jesus no nevoeiro de um coração partido.
O escritor de Hebreus iria dizer mais tarde, "Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte".[3]
Que descrição! Jesus sofrendo. Jesus às portas do medo. Jesus não está revestido de santidade, mas de humanidade.
Da próxima vez que o nevoeiro o envolver, você faria bem em lembrar-se de Jesus no jardim. Da próxima vez em que pensar que ninguém compreende, releia o capítulo 14 de Marcos. Da próxima vez que a autopiedade o convencer de que ninguém se importa, vá visitar o Getsêmani. E da próxima vez em que ficar imaginando se Deus realmente percebe a dor que prevalece neste poeirento planeta, ouça-o suplicando entre as árvores retorcidas.
Este é o meu ponto. Ver Deus desse modo faz maravilhas em relação ao nosso próprio sofrimento. Deus jamais foi tão humano quanto nessa hora. Deus jamais esteve mais próximo de nós do que quando sofreu. A Encarnação jamais foi tão cumprida quanto no jardim.
Como resultado, o tempo passado no nevoeiro da dor poderia ser o maior dom de Deus. Poderia ser a hora em que finalmente vemos nosso Criador. E verdade que no sofrimento Deus se assemelha mais ao homem; talvez em nosso sofrimento possamos ver a Deus como nunca antes.
Da próxima vez em que você for chamado para sofrer, observe. Talvez esse seja o ponto mais próximo em que vai estar de Deus. Preste muita atenção. Pode muito bem ser que a mão que se estende para guiá-lo para fora do nevoeiro esteja traspassada.

Max Lucado

Atire a primeira pedra

14 Setembro, 2007

Quem estiver sem pecado, que atire a primeira pedra... Lembrei desta frase ao saber da absolvição do senador Renan Calheiros na última quarta-feira. Atolado num mar de acusações que vão desde envolvimentos com lobistas de empreiteiras, desvios de verbas públicas, crescimento vertiginoso e mal explicado do patrimônio pessoal, fraudes fiscais e contábeis, mentiras ao fisco e à Polícia Federal, utilização de “laranjas” para esconder negociatas ilícitas, abuso de autoridade e poder, enfim uma lista inconcebível para qualquer cidadão, mais ainda ao presidente do Senado, a casa maior do poder legislativo da República, não há outra explicação para que tenha sido evitada sua cassação senão a máxima estabelecida por Jesus: o Senado é uma casa onde macacos não criticam o rabo dos outros porque têm vergonha dos seus próprios rabos.O senador Renan Calheiros sabe demais. Sabe dos pecados e crimes de tantos outros senadores, sabe dos expedientes dos que se locupletam no exercício do poder: compra de votos, beneficiamento de empresas, manipulação de verbas orçamentárias, recebimento de doações para “fundos de campanha”, comércio de concessões de veículos de mídia, sistemas de corrupção, loteamentos de estatais, “caixas dois”, os “por fora” das privatizações, além das escapadelas hedonistas dos engravatados da corte. Fosse escrever na areia, o senador Renan Calheiros encheria o chão com um triller de romances ilícitos, negócios espúrios, crimes grotescos, expondo a podridão dos bastidores do poder que nada mais são do que reflexo e expressão dos lixos guardados nom porão da alma humana conquistada pela diabólica trindade dinheiro, sexo e poder.Não me admira que os senadores tenham escolhido a escuridão de uma seção secreta com o manto para uma votação secreta não menos tenebrosa: “as pessoas preferem a escuridão porque fazem o que é mau. Os que fazem o mal odeiam a luz e fogem dela para que ninguém veja as coisas más que fazem”, diz a Bíblia Sagrada (João 3.19,20 – BLH). Escondidos nas trevas, os homens maus são incapazes de promover processos de justiça, primeiro porque não têm autoridade moral para executá-los, mas também e principalmente porque temem a exposição de sua própria impiedade, vivem aterrorizados pela possibilidade de que sua vergonha seja exibida pelas esquinas, vire manchete de jornais, capas de periódicos, corpos nus em revistas de fetiche.Ao denunciar o pecado dos impiedosos apedrejadores Jesus pretendia convocar todos à dignidade humanizadora, fraterna, conciliadora, mostrando que a culpa e a vergonha não são purgadas pelo achincalho, o enxovalho e a pena capital em praça pública, mas pela outorga mútua da compaixão e da misericórdia, própria dos que enxergam as sombras de suas próprias almas e estendem a mão e se irmanam na súplica para sejam guiados ao caminho da luz.A proposta cristã da recusa ao apedrejamento não é uma licença para a manutenção de um sistema imundo perpetuado por almas sujas. A proposta cristã para que ninguém atire a primeira pedra é a afirmação de que ninguém precisa temer vir para a luz: a confissão a Deus não implica colocar a cabeça na guilhotina, mas o abrir do coração para que o poder de Deus anule a força da maldade, o perdão de Deus anule poder da culpa e da vergonha, e o amor de Deus se derrame sobre todos, para que se tornem desnecessários os bodes expiatórios e os processos vitimários. Jesus pretendia que os homens soltassem as pedras para que tivessem as mãos livres para receber perdão e amor, e pudessem se abraçar em justa e fraterna comunhão. Os senadores brasileiros que soltaram as pedras o fizeram por outras razões: ficaram com as mãos livres para agarrar as pontas do manto da escuridão a fim de que pudessem permanecer escondidos nas trevas e continuassem a fazer o mal.


Ed René Kivitz

Vergonha Nacional!!!

13 Setembro, 2007

Ah Brasilzinho miserável! Não encontro outra palavra a não ser: Vergonha. Quanta desfaçatez, quanta falta de dignidade, quanto cinismo. Este país se amarra a um destino mesquinho e se condena a um futuro medíocre como uma republiqueta de quinta categoria.
O distanciamento da classe política dos verdadeiros dramas nacionais, com sua locupletação desavergonhada, com sua cara de pau deslavada e na defesa dos seus interesses mais ordinários, causa asco. Estou com náuseas, com vertigens, subitamente atacado por uma labirintite somática. A nação paga salários astronômicos a uma corja política que só se preocupa em defender seus comparsas; isso adoece qualquer um.
Que tipo de lição meus netos podem aprender com a ética que emana das instituições mais altas da sociedade? A dos ministros do Supremo Tribunal Federal que confessam sentenciar com a espada na garganta? A dos deputados federais que inocentam seus pares e ainda se rebolam num escárnio ritmado? A dos senadores que recebem propina, vendem suas consciências e vinculam seus votos a troco de migalhas? As crianças brasileiras vão crescer com a noção de que oportunismo, achincalhe e pura falta de vergonha na cara servem de trampolim para quem busca se dar bem na vida.
Saibam os senhores senadores, deputados e outras classes políticas, que os trabalhadores honrados e sofridos do Brasil lhes detestam. Não desejaríamos desonrar nossa mesa partindo o pão na companhia de vocês (recuso-me a chamar-lhes de excelências).
Confesso meu sentimento de impotência diante dessa máquina bem azeitada que permite que as oligarquias suguem meu sangue em forma de impostos. Eles são absolutamente nojentos porque enriquecem com o suor de mulheres desdentadas e com os calos do trabalho infantil.
Sem pejo moral, inocentaram um culpado porque são corporativistas sem honra. Confesso que não sei como reagir ao que foi decidido no Senado senão engrossar o coro dos descontentes.Tenho ímpetos de pesar a mão no que escrevo; quase usei expressões chulas. Quero praguejar e amaldiçoar as estruturas satanizadas dessa politicagem brasileira.
Doze de setembro de 2007 ficará marcado como um dia muito triste e muito embaraçoso. Que Deus tenha misericórdia dos brasileiros.


Ricardo Gondim

Uma maluquice

11 Setembro, 2007

Assim de repente, como no poema do Vinicius, tenho vontade de endoidecer. Semelhante ao rei Davi que se fez de doido penso em cuspir marimbondos, chutar o pau de barraca, gritar impropérios, esmurrar ponta de faca. Assaltam-me surtos de indignação e nem sei porque, dá vontade de zombar dos discursos religiosos carolas e desmascarar a desfaçatez dos hipócritas de plantão que se julgam guardiões do Templo.
Não tenho sangue de barata. Leio o jornal todo dia e não suporto mais essa imprensa marrom, chapa branca, sei lá qual a cor, sempre plastificada e sempre ordinária, contente de narrar o cotidiano a partir do viés dos seus ricos proprietários. Não suporto mais a frieza como se noticia o descaso de doentes nos corredores dos hospitais, a morte de crianças em UTI mal aparelhadas, os acidentes em estradas mal sinalizadas e esburacadas, a mais uma rebelião em alguma cadeia superlotada. Não agüento mais assistir o abismo social afastando os dois Brasis que compõem a minha pátria.
Dos escombros de minha decepção, do fundo de minha tristeza, tenho ímpetos religiosos anarquistas; uma vontade louca de expor como as igrejas funcionam dentro da lógica do mercado; como os pastores se enxergam como CEO’s e tratam os auditórios como clientes.
O cristianismo latino americano funciona como negócio que vende gato por lebre. Ilusão é comercializada como se fosse esperança; milagres são prometidos como trampolim para quem deseja ascender socialmente, bênção é mercadejada como solução para as mais diversas dificuldades: promove casamento, valida divórcios; cura caroços inexistentes pelo corpo, faz passar no vestibular e resolve causas na justiça.
Pergunto a esses embusteiros televisivos por que não resolvem os impasses globais. Por que não trazem a paz nos morros do Rio de Janeiro? Sonho com algum evangelista de renome conseguindo acabar com as chacinas das periferias de São Paulo. Por favor, algum apóstolo, por favor, insisto, desbarate com seu poder espiritual a rede de prostituição infantil do Nordeste, especialmente em minha terra.
Sei que não basta ficar com os olhos vermelhos. É preciso fazer alguma coisa. Assim, porei o resto de energia que me resta a serviço da justiça. Não continuarei a postergar a vida para depois da morte; minha pregação consistirá numa convocatória para que os cristãos comecem a adensar o Reino de Deus aqui na terra.. Não adianta cultivar uma expectativa de um mundo futuro melhor enquanto o que se vive aqui e agora continua tão péssimo.


Ricardo Gondim

Conte Comigo

10 Setembro, 2007

1. 40 é o número natural entre 39 e 41.
2. Em inglês, 40 (forty) é o único número cujas letras aparecem em ordem alfabética.
3. 40 é a soma dos primeiro quatro números pentagonais
4. 40 é o menor número n com exatamente 9 soluções para a equação φ(x) = n.
5. 40 é o sétimo número abundante.
6. 40 é o número de ladrões do bando de Ali-Babá.
7. 40 é o número atômico do zircônio.
8. 40 negativos é a temperatura em que graus Fahrenheit e Celsius são idênticos.
9. Choveu quarenta dias durante o Dilúvio.
10. E quarenta noites.
11. Isaque tinha quarenta anos quando casou-se com Rebeca.
12. Os espias exploraram a Terra Prometida por 40 dias.
13. Israel peregrinou no deserto por 40 anos.
14. Moisés tinha 40 anos quando fugiu do Egito.
15. Voltou para libertar o povo 40 anos depois.
16. E morreu 40 anos depois.
17. De acordo com o Midrash, Moisés passou três períodos de quarenta dias no Monte Sinai.
18. Eli foi juiz de Israel por quarenta anos.
19. Saul reinou por quarenta anos.
20. Davi reinou por quarenta anos.
21. Salomão reinou por quarenta anos.
22. Jesus foi tentado no deserto por quarenta dias.
23. E quarenta noites.
24. Jesus subiu ao céu 40 dias depois da ressurreição.
25. A Quaresma são os 40 dias que antecedem a Páscoa.
26. A punição impingida pelo Sinédrio consistia de 40 chibatadas (das quais apenas 39 eram aplicadas).
27. Maomé tinha 40 anos quando recebeu a primeira revelação de um anjo.
28. Khadijah tinha 40 anos quando casou-se com Maomé.
29. Nos países muçulmanos os mortos são normalmente lamentados por 40 dias.
30. Um período de quarentena tem às vezes mais, às vezes menos do que quarenta dias.
31. Jonas pregou em Nínive que a cidade seria destruída dali a quarenta dias.
32. 40 é uma canção do U2, do álbum War, de 1983.
33. Por 40 dias o gigante Golias provocou os israelitas antes de ser derrotado por Davi.
34. A vodka russa tem 40% de teor alcoólico.
35. WD-40 é o nome de um lubrificante.
36. A tradição russa diz que um fantasma permanece no lugar em que morreu por quarenta anos.
37. O rabi Akiva, o maior expositor da Torá Oral, começou a aprender hebraico aos 40 anos de idade.
38. Em muitas culturas, especialmente nas semíticas, 40 é usado no lugar de “muitos, incontáveis”.
39. A vida começa aos 40.
40. Você vai ouvir essa última frase mais do que 40 vezes no dia em que completá-los.

Paulo Brabo

Perfume de mulher

08 Setembro, 2007

De repente entra na sala uma mulher de reputação pra lá de duvidosa e caminha segura na direção de Jesus. Sem a menor cerimônia, ajoelha-se atrás dele e lava-lhe os pés com lágrimas. Usa os cabelos como toalha, e derrama sobre os pés secos o perfume que enche a casa de cheiro de cabaré. Jesus não se faz de rogado: entrega os pés aos beijos da mulher.
Os estreitos de plantão não perdem tempo. Criticam o desperdício de perfume, sugerindo que poderia ser transformado em pão para os pobres, e fazem questão de anunciar em alto e bom som que se trata de uma mulher de péssima reputação, pecadora, disseram. Por trás das palavras a respeito da mulher está uma implícita condenação a Jesus: se fosse profeta saberia que a mulher não presta; se fosse sério não se deixaria tocar daquele jeito; se fosse dos nossos condenaria a mulher de vida fácil.
Mas Jesus é diferente. Não é dos nossos. Jesus aceita o perfume das prostitutas. Já consigo ouvir a observação dos estreitos de hoje: é verdade, mas a mulher abandonou aquela vida... Sei não. Tudo quanto Jesus lhe diz é “seus pecados estão perdoados”, pois a demonstração de amor estava proporcional ao alívio da culpa: a quem muito é perdoado, muito ama. E Jesus se despede da mulher: “Sua fé a salvou, vá em paz”.
Via de regra os beatos não aceitam o perfume das pecadoras. E quando aceitam querem se certificar de que já mudaram de vida ou pretendem mudar. Essa é a face mais sombria do cristianismo institucionalizado: impor sua moral, enclausurar o amor de Deus e a graça do Cristo. Será o caso de “deixarmos” que a graça faça seu caminho dentro das pessoas, e as pessoas façam seu caminho por dentro da graça? Será que conseguimos acreditar que Deus trata com os pecadores, e o faz aceitando seu perfume? Ou preferimos controlar os pecadores, exigindo que se enquadrem em nossas estreitas molduras morais, em vez de lhes dar espaço para a transformação de dentro para fora?
Onde foi que esconderam o Deus que aceita o perfume das meretrizes?


Ed René Kivitz

Eu também não te condeno

06 Setembro, 2007

Pode procurar que você não vai achar. Não importa aonde vá, estou absolutamente convencido de que há duas coisas que você nunca vai achar. Você pode correr o mundo e o tempo, e tenho certeza que jamais conseguirá achar alguém que não se envergonhe de algo em seu passado. Para qualquer lugar que você vá, lá estarão elas, as pessoas que gostariam de apagar um momento, uma fase, um ato, uma palavra, um mínimo pensamento. Todo mundo tenta disfarçar, e certamente há aqueles que conseguem viver longos períodos sem o tormento da lembrança. Mas mesmo estes, quando menos esperam são assombrados pela memória de um ato de covardia, um gesto de pura maldade, um desejo mórbido, um abuso calculado, enfim, algo que jamais deveriam ter feito, e que na verdade, gostariam de banir de suas histórias ou, pelo menos, de suas recordações.Isso é uma péssima notícia para a humanidade, mas uma ótima notícia para você: você não está sozinho, você não está sozinha. Inclusive as pessoas que olham em sua direção com aquela empáfia moral e sugerem cinicamente que você é um ser humano de segunda ou terceira categoria, carregam uma página borrada em sua biografia, grampeada pela sua arrogância e selada pelo medo do escândalo, da rejeição e da condenação no tribunal onde a justiça jamais é vencida. Você não está sozinho. Você não está sozinha. Não importa o que tenha feito ou deixado de fazer, e do que se arrependa no seu passado, saiba que isso faz de você uma pessoa igual a todas as outras: a condição humana implica a necessidade da vergonha.A segunda coisa que você nunca vai encontrar é um pecado original. Não tenha dúvidas, o mal que você fez ou deixou de fazer está presente em milhares e milhares de sagas pessoais. Não existe algo que você tenha feito ou deixado de fazer que faça de você uma pessoa singular no banco dos réus – ao seu lado estão incontáveis réus respondendo pelo mesmíssimo crime. Talvez você diga, “é verdade, todos têm do que se envergonhar, mas o que eu fiz não se compara ao que qualquer outra pessoa possa ter feito”. Engano seu. O que você fez ou deixou de fazer não apenas se compara, como também é replicado com absoluta exatidão na experiência de milhares e milhares de outras pessoas. Isso significa que você jamais está sozinho, jamais está sozinha, na fila da confissão.Talvez por estas razões, a Bíblia Sagrada diz que devemos confessar nossas culpas uns aos outros: os humanos não nos irmanamos nas virtudes, mas na vergonha. Este é o caminho de saída do labirinto da culpa e da condenação: quando todos sussurrarmos uns aos outros “eu não te condeno”, ouviremos a sentença do Justo Juiz: “ninguém te condenou? Eu também não te condeno”.É isso, ou o jogo bruto de sermos julgados com a medida com que julgamos. A justiça do único justo reveste os que têm do que se envergonhar quando os que têm do que se envergonhar desistem de ser justos.

Ed René Kivitz

Venha o teu Reino

Imaginemos agora que ouvimos um soldado, entre esses cristãos combatentes, fazendo a oração do Pai Nosso.
Pai nosso, diz ele – Ah, desgraçado insensível! Você pode chamá-lo de pai quando está prestes a cortar a garganta do seu irmão?
Santificado seja o teu nome – Como pode o nome de Deus ser mais impiamente profanado do que pelo mútuo assassinato sangrento entre vocês, seus filhos?
Venha o teu reino – Você ora para que o seu reino venha, ao mesmo tempo em que se empenha em estabelecer um despotismo terreno, pelo derramamento de sangue dos filhos e súditos de Deus?
Você ousa dizer O pão nosso de cada dia nos dá hoje quando irá, no momento seguinte talvez, queimar a plantação dos seu irmão, preferindo perder a possibilidade de beneficiar-se dela você mesmo a permitir que ele desfrute dela sem ser molestado?
Com que cara você pode dizer Perdoa as nossas dívidas assim como perdoamos aos nossos devedores quando, muito longe de perdoar o seu irmão, você vai, com toda a presteza possível, assassiná-lo a sangue frio, por uma suposta transgressão que é, no final das contas, imaginária?
Você se permite deplorar o perigo da tentação, você que, não sem grande perigo para você mesmo, está fazendo tudo que pode para colocar o seu irmão em perigo?
Você merece por acaso ser livrado do mal, quer dizer, do ser maligno, a cuja ânsia você se submete e por cujo espírito você é agora conduzido, ao planejar o pior mal possível para o seu irmão?



Erasmo de Rotterdam

Deus não liga muito para o que oramos

05 Setembro, 2007

Pensei algo sobre Deus que me tem feito muito bem. Deus não leva muito a sério o que pensamos e dizemos. Não pode. Pensamos e falamos com tanta imprecisão que se o Altíssimo considerasse nossas orações e intenções estaria com sérias dificuldades em sua misericórdia. Seria o colapso da misericórdia divina ou da existência humana. Na maravilhosa e citadíssima parábola do Filho Pródigo, há essa manifestação da indiferença amorosa de Deus. O filho que abandonou a casa do Pai para prodigalizar seu egoísmo, gastando tudo o que tinha, retorna com um pedido na ponta da língua: Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teu empregados’. A reação do Pai é uma indicação incontestável de como Deus reage às nossas expectativas e súplicas. Ao tentar dizer o que queria ao Pai, o filho pródigo-culposo teve sua fala pulverizada pela indiferença bondosa do pai: ‘Mas o Pai disse aos servos: Ide depressa, trazei a melhor túnica e revesti-o com ela, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o novilho cevado e matai-o; comamos e festejemos, pois este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado!’ De tanto que ama não dá para levar a sério o que diz o filho. Sua alma culpada e instável torna suas palavras impotentes para comunicar o que realmente precisa. Outro episódio que sugere com força essa desconsideração divina com nossas orações é o que descreve os conflitos de Jonas. Debatendo-se com a tarefa de profetizar à Nínive, o profeta vai parar no ventre de um grande peixe. De lá clama por livramento. De volta à vida, Jonas prega a condenação da cidade que quer ver destruída. Nínive se arrepende de sua maldade e Deus se arrepende de a ter levado a sério. Não mais será destruída a Nínive detestada pelo profeta. Em crise com a incoerente misericórdia divina, Jonas parece reivindicar que Deus o leve a sério e a sua lógica de justiça. Sua queixa é a de ver um Deus mais bondoso e propenso a perdoar que justo e disposto a punir. Parece não levar tanto a sério a vida incerta da pessoa humana.
Jonas ora de novo. Agora pede a morte. Alguns dias depois de pedir a vida. Quer viver quando suas expectativas ainda podem se cumprir. Quer morrer quando se vê impedido de impor sua lógica ao mundo. Quer viver quando Deus ainda pode ser dobrado à sua teologia. Quer morrer quando sua teologia é relativizada pelo próprio Deus.
Deus relativiza suas compreensões teológicas quando faz a brincadeira da aboboreira. Cresce em um dia para dar conforto, morre no outro para afligir. Do jeito que é a vida. Do que jeito que é a alma humana.
Vejo Deus agachado às angústias de Jonas. Parece convidar Jonas para entender seu coração. ‘Você acha razoável sentir pena de uma planta pela qual nada fez e não entende porque eu sinto pena de cento e vinte mil almas confusas de Nínive?’ Se nem as orações de Jonas e nem seus conceitos teológicos conseguem não ser contraditórios, como poderia Deus levar suas súplicas e teologia muito a sério?
Desconfio que foi por isso que Paulo disse aos Romanos que por não sabermos orar como convém, Deus ora em nós. Para nos levar a sério, Deus precisa não levar muito a sério nem o
que pensamos nem o que oramos.

Elienai Cabral Junior

Chega de promessa de benção - Ricardo Gondim

Não dá mais para agüentar tanta promessa de bênção. Enche ter de ouvir pastores oferecendo os mais ricos votos de felicidade e proteção divina a cada culto. Ser abençoado tornou-se quase uma obsessão evangélica nacional. Promete-se tanta riqueza, saúde física e felicidade que, pelo número de campanhas de oração realizadas, o Brasil já deveria ter melhorado em algum dos índices de qualidade de vida das Nações Unidas; com algum alívio na distribuição de renda ou menos fila nos ambulatórios públicos.Chega de promessa de bênção. A espiritualidade cristã com suas orações, ritos e expectativas não gira em torno da vontade de ganhar o benefício celestial. A ênfase dos Evangelhos não se resume a um só tema. Jesus lembrou Seus primeiros discípulos que antes de se preocuparem em salvar a vida, eles precisariam estar dispostos a perdê-la (Marcos 8:35). A grandeza de uma causa não é determinada pelo que seus seguidores ganham ao segui-la, mas pelo preço que estão dispostos a pagar por ela. Chega de promessa de bênção. Os auditórios lotados de pessoas ávidas por receber mais favor divino favorecem o egocentrismo. Quanto mais se promete, mais se quer receber. Esse caminho não tem fim. O Salmo 106 narra o comportamento dos judeus no período da sua libertação do cativeiro egípcio. Depois de sucessivos milagres, o povo parecia não se saciar, sempre exigindo mais. Esse fascínio pela próxima intervenção transformou-se em cobiça, e o versículo 15 trás uma dura sentença: “[Deus] concedeu-lhes o que pediram, mas fez definhar-lhes a alma.” Chega de promessa de bênção. A Bíblia não pode ser encolhida a uma caixinha de afirmações otimistas. Para continuar com seu discurso de caráter prático, a maioria dos pastores só cita textos tirados do Antigo Testamento e, ainda, do período judaico anterior ao exílio. Os sermões que procuram enfatizar bênçãos deixam de lado os textos contundentes do Novo Testamento em que os cristãos são convocados a viverem em um mundo cruel e doloroso. Jesus não tentou dourar a pílula e nem encobriu a verdade: “No mundo, passais por aflições” (João 16:33). Paulo advertiu a Igreja a não se imaginar numa redoma de prosperidade: “E, tendo anunciado o Evangelho naquela cidade e feito muito discípulos, voltaram... fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, por meio de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (Atos 14:21-22). Jesus revelou à igreja de Esmirna, no Apocalipse, o teor de sua missão: “Não temas as coisas que tens de sofrer” (Apocalipse 2:10).Chega de promessa de bênção. Quem se obriga verbalmente a dar tudo, se adorado, é o diabo, nunca Deus (Mateus 4:9). A espiritualidade judaico-cristã não se estabelece sobre utilitarismos. Deus não quer adoração por aquilo que Ele dá, mas por quem Ele é. No livro de Jó, Satanás fez uma acusação gravíssima contra Deus. Ele tentou incriminar Jeová por só ser amado por Seus filhos por suborno: “Porventura, Jó debalde teme a Deus?” (Jó 1:9). A narrativa poética do livro inteiro deixa claro que o Senhor não era amado por Suas inúmeras bênçãos sobre a vida e a família de Jó que, pobre, ainda pôde exclamar: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!” (Jó 1:21).Chega de promessa de bênçãos. A virtude cristã que se deve buscar prioritariamente é justiça. No Sermão da Montanha, os que tiverem fome e sede de justiça serão fartos (Mateus 5:6). Quando o cristianismo destaca a promoção da justiça, todas as demais bênçãos se tornam secundárias (Mateus 6:33). Aliás, não existe pregação legitimamente evangélica sem a busca do direito: “O reino de Deus não é comida, nem bebida, mas justiça e paz e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14:1). Antes de quererem para si a benevolência do Senhor, os crentes deveriam almejar a promessa de Isaías 61:3: “A fim de que se chamem carvalhos de justiça, plantados pelo Senhor para a sua glória.” A Igreja Evangélica cresce velozmente no Brasil, mas será que percebeu todas as implicações do que significa seguir a Cristo?

O tempo e a eternidade - Ed René Kivitz

04 Setembro, 2007

Trabalhar é cooperar com Deus para colocar ordem no caos. Na verdade, qualquer boa ação é um gesto solidário ao coração de Deus, que sempre desejou que esse mundo fosse um jardim. Dizem que quem não faz parte da solução, faz parte do problema, e, nesse caso, todo cristão deve agir como parte da solução para que o caos social, político, econômico, ético e ecológico seja revertido o máximo possível. Existe uma lógica para isso. Aliás, uma lógica que nem todo cristão alcança.Por exemplo, quem acredita que haverá um dia quando Jesus substituirá esse mundo por um novo e uma nova terra, não tem muita razão para trabalhar para que este mundo seja melhorado e transformado. Por que gastar tempo, recursos e dedicar a vida a manter e aperfeiçoar algo que vai acabar? Talvez, no mínimo para evitar que o caos inviabilize nossa vida nesse mundo ou acabe batendo à nossa porta: até quem pensa que esse mundo vai acabar mesmo não deseja ficar sem água, ter um filho vítima da violência urbana ou ser usurpado por um governo corrupto. Talvez para anunciar que o reino de Deus virá em breve, e que é bom que as pessoas comecem a se preparar para viver nele, que, aliás, já dá os seus sinais. De fato, cuidar do mundo enquanto vivemos nele e promover sinais históricos do reino de Deus na história são duas excelentes razões para que todo cristão se comprometa a cooperar com Deus para colocar ordem no caos.Mas, consideremos uma terceira razão. E se o novo céu e a nova terra não forem "outro mundo", mas esse mundo, levado, por Deus, à sua plenitude? E se nosso trabalho e boas ações repercutirem na eternidade como matéria prima que Deus usa para a transformação desse mundo em novo céu e nova terra? Você já imaginou a possibilidade de que, assim como você vive para sempre, seu trabalho e suas boas obras também subsistam por toda a eternidade, e que os sinais históricos do reino de Deus não cairão no vazio do nada, mas continuarão testemunhando a graça e a glória de Deus para todo o sempre?Jesus disse que as pessoas abençoadas por nós na história nos receberão na eternidade. Paulo, apóstolo, disse que no juízo final Deus colocaria fogo na casa que construímos na história e preservaria apenas o que fosse ouro, prata e pedras preciosas. João, apóstolo, disse que a Nova Jerusalém desce do céu: desce para onde? O "fim do mundo" no Novo Testamento é mais parecido com uma mudança de tempo ou era (este século e o vindouro) do que uma mudança de endereço ou lugar. Os rabinos acreditam que "as boas ações dos homens são as sementes que Deus usa para plantar as árvores do paraíso". É possível que não estejam muito longe de ter razão.

Fé - Ed René Kivitz

Geralmente se diz que fé é acreditar em Deus.Ou ainda que fé é acreditar que Deus tudo pode.As duas definições, entretanto, nada nos acrescentam, pois esse tipo de fé até mesmo o diabo tem.Gosto da definição de Rob Bell:fé é acreditar que Deus acredita em você. Essa foi a experiência de Pedroquando pediu que Jesus o chamasse paraandar sobre as águas. E Jesus o chamou, isto é,pronunciou uma palavra de ordem a seu respeito. Pedro saiu do barco e caminhou sobre as águas.Mas em dado momento prestou atenção no vento, e duvidou.Começou a afundar e clamou por socorro:“Senhor, salva-me! ”Pedro não duvidou de Jesuse nem de seu poder de salvar. Então, duvidou de quê? Duvidou de si mesmo. Duvidou de que seria capaz de cumprira palavra de Jesus pronunciada a seu respeito. Fé não é acreditar que Deus tudo pode. Fé é acreditar que“tudo posso naquele que me fortalece”. Quem acredita que Deus tudo pode e nada faz,tem fé sem obras, e fé sem obras é fé morta. Hebreus 11 é chamado de “galeria dos heróis da fé”. Ali estão registrados os exemplos de fé. Não são pessoas que apenas acreditaramem Deus ou no fato de que Deus tudo pode.São pessoas que, porque acreditaram em Deus, e no fato de que Deus tudo pode, deixaram sua zona de confortoe se arremessaram a andar com Deus, obedecendo as ordens de Deuse perseguindo as promessas de Deus. Fé é acreditar que
Deus acredita em você.

Faça Valer

Quero que me digam que eu tentei ser direito e caminhar ao lado do próximo.Quero que vocês possam mencionar o dia em que tentei vestir o mendigo, tentei visitar os que estavam na prisão, tentei amar e servir a humanidade.Sim , se quiserem dizer algo, digam que eu fui um arauto: um arauto da justiça, um arauto da paz, um arauto do direito.Todas as outras coisas triviais não têm importância.Não quero deixar nenhuma fortuna. Eu só quero deixar uma vida de dedicação!E isto é tudo o que eu tenho a dizer:

Se eu puder ajudar alguém a seguir adiante,
Se eu puder animar alguém com uma canção,
Se eu puder mostrar a alguém o caminho certo,
Se eu puder cumprir o meu dever cristão,
Se eu puder levar a salvação para alguém,
Se eu puder divulgar a mensagem que o Senhor deixou......
então a minha vida terá valido a pena!

[Martin Luther King Jr.]

Como seria a vida se Deus não existisse - Ricardo Gondim

03 Setembro, 2007

Não há maior dificuldade existencial do que os silêncios divinos. O “Deus abscondito” representa o mais gigantesco enigma filosófico e teológico. Um nó górdio que ninguém desata.
O relato bíblico não é homogêneo. Tanto a narrativa judaica como as propostas mais conceituais e doutrinárias das epístolas cristãs revelam que Deus elege tempos e hierarquiza anos. Há períodos da história em que sua presença é mais marcante. Em outros, exuberante. Contudo, os hiatos de sua ausência se alongam por períodos que parecem não ter mais fim. Deus é mais ausente que presente.
É duro pensar, pior afirmar, mas algumas pessoas não representarão absolutamente nada na trama humana; sequer serão conhecidas. Milhões morrem anônimos. Para a enorme maioria, o papel mais importante que desempenharão consistirá em sobreviver e cuidar dos que os sucederem; e estes repetirão o mesmo roteiro.
A vida da grande maioria se desenrolará sem milagres, sem intervenções sobrenaturais e sem a presença transcendente de Deus. Eles terão que trabalhar de sol a sol para comer, viverão à mercê das pestes e pragas, precisarão lutar contra as inclemências do clima. Sujeitos, inclusive, a acidentes naturais como ciclones, tufões e terremotos.
Cada um deve viver seu dia a dia com a certeza da existência de Deus, porém sabendo que ele não alterará, indiscriminadamente, a ordem que ele mesmo estabeleceu. Cada um precisa orientar sua vida e valores, se esforçando para controlar os perigos existenciais, criar, escrever e transcender como se Deus não existisse.
Cada um deve fazer o que é reto não porque existe um Deus que fiscaliza do alto do céu, mas porque a virtude conspira a favor da vida e do bom convívio entre os humanos. Ninguém deve orientar seus valores porque está sendo, por assim dizer, monitorado pelo grande olho divino, mas porque existe virtude intrínseca nos comportamentos que exigem obrigação de todos.
Cada um deve encarar os silêncios divinos não como descaso, mas como espaço para a liberdade. Viver, portanto, é uma aventura sem garantias. Não é possível uma existência bonita, criativa sem abrir mão de uma obsessiva necessidade de segurança. É pobre buscar construir diques que represem as águas das tempestades; erguer fossos para que possíveis inimigos não invadam os castelos; esterilizar todos ambientes para que doenças não se alastrem. Como é fútil acreditar que existe um futuro sem ameaças.
Resta aprender a viver sem a pretensão de engomar o mundo e retirar dele seus percalços. Resta recusar a religião que tenta transformar Deus numa divindade que premia os que merecem com um “algo mais” que ajuda a contornar os perigos da vida com suas vicissitudes. Resta desaprender o desejo de ser feliz. Resta abrir mão de querer salvar a vida, pois os que tentaram se condenaram a perambular, sem jamais conseguir viver.
A propósito disso, lembro-me de uma história extraordinária, que descreve o diálogo entre uma freira americana cuidando de leprosos no Pacífico e um milionário texano. O milionário, vendo-a tratar daqueles enfermos miseráveis, disse: "Irmã, eu não faria isso por dinheiro nenhum no mundo”. E ela respondeu: "Eu também não, meu filho"