Faça valer...

27 Fevereiro, 2010

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltavam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me diante de invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral ou semelhante bobagem, seja ela qual for.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, que defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado de Deus.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. O essencial faz a vida valer a pena. Basta o essencial!

Rubem Alves

Ascenção sem trégua das testemunhas

26 Fevereiro, 2010

O verdadeiro gancho entre a conclusão do evangelho de Lucas e a abertura do livro de Atos dos Apóstolos não está na promessa do derramamento do Espírito (Lucas 24:49, Atos 1:4,5) nem na ascensão de Jesus (Lucas 24:51, Atos 1:9). Para Lucas, autor dos dois livros, o elo espiritual entre as atividades de Jesus e as iniciativas dos apóstolos pode ser expresso numa única palavra-chave: testemunhas.

Os primeiros parágrafos de Atos são uma recapitulação estendida das cenas finais de Lucas. Jesus reitera que os apóstolos permaneçam em Jerusalém até que “recebam poder do alto”, depois do que deverão “ser minhas testumunhas em Jerusalém, Samaria e até o confim mais remoto da terra”.

A chave para a compreensão desta ênfase está nos versos finais do evangelho de Lucas. Jesus, ressucitado, apresenta-se de forma palpável aos discípulos (“vejam, um fantasma não têm carne e osso, como vocês vêem que eu tenho”) e come com eles. Então, antes de partir, o rabi da Galiléia explica-lhes uma última parábola, a sua. Pela interpretação da Escritura, Jesus demonstra que Moisés, Salmos e os Profetas declaravam de antemão tudo que de fato sobreveio ao Filho do Homem na terra, particularmente seu suplício e ressurreição.

– E disso tudo – ele conclui, – vocês são testemunhas. (v.48)

Vocês são testemunhas. Sejam testemunhas. Este é o fio, puxado da conclusão do seu evangelho, que Lucas estende, como se verá, de ponta a ponta da parte dois.

É necessário observar que Mateus e Marcos imprimem outra ênfase a esta mesma cena final. A última ordem-chave de Jesus, na pena desses evangelistas, não está em “sejam testemunhas”, mas em façam discípulos – isto é, “saiam pelo mundo fazendo seguidores, ensinando-os a colocar em prática tudo que tenho ordenado a vocês”.

E “ser testemunhas” pode não ser o mesmo que “fazer discípulos” – ou, pelo menos, as duas coisas foram historicamente interpretadas como distintas. Na prática lemos as duas ordens como essencialmente diferentes, ao ponto de representarem para nós heranças contraditórias.

Cristãos de todas as estirpes acabaram seguindo a herança “sejam testemunhas” de Lucas, de Atos e de Paulo (ou pelo menos aquilo que julgamos ser a herança deles), em detrimento do “façam discípulos” de Mateus e Marcos. Para nós, propagar o evangelho diz muito mais respeito a “testemunhar do que Deus fez por nós” do que “ensinar as pessoas a colocar em prática o que Jesus ensinou”.

Resta ponderarmos como seria o mundo se tivéssemos seguido esta segunda herança, mais radical, ao invés da primeira. Ou, ainda mais importante, ponderar se de fato existe alguma diferença entre as duas.

O livro de Atos pode conter, paradoxalmente, as duas respostas.

Paulo Brabo

Canção do dia de sempre...

Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

Mário Quintana

Vinicius de Moraes - "Soneto de Separação"

23 Fevereiro, 2010

Retr(atos)

Falai de Deus

20 Fevereiro, 2010

"Falai de Deus com a clareza
da verdade e da certeza:
com um poder

de corpo e alma que não possa
ninguém, à passagem vossa,
não O entender.

Falai de Deus brandamente,
que o mundo se pôs dolente,
tão sem leis.

Falai de Deus com doçura,
que é difícil ser criatura:
bem o sabeis.

Falai de Deus de tal modo
que por Ele o mundo todo
tenha amor

à vida e à morte, e, de vê-Lo,
O escolha como modelo superior.

Com voz, pensamentos e atos
representai tão exatos
os reinos seus

que todos vão livremente
para esse encontro excelente.
Falai de Deus"

Cecília Meireles

Céu e Inferno

O inferno de Deus não requer o esplendor do fogo. Quando o juízo final retumbar nas trombetas e a terra publicar as suas entranhas e as nações ressurgirem do pó para acatar a Boca inapelável, os olhos não verão os nove círculos da montanha invertida; nem a pálida pradaria de asfódelos perenes, onde a sombra do arqueiro persegue a sombra da corça, eternamente; nem a loba de fogo que no piso inferior dos infernos muçulmanos é anterior a Adão e aos castigos; nem metais violentos, nem sequer a treva visível de John Milton. Um odioso labirinto de tríplice ferro e fogo doloroso não oprimirá as almas atônitas dos réprobos.

Tampouco o fundo dos anos guarda um remoto jardim. Deus não precisa para alegrar os méritos do justo de esferas de luz, concêntricas teorias de tronos, potestades e querubins, nem o espelho ilusório da música nem as profundidades da rosa nem o esplendor desafortunado de um só de seus tigres, nem a delicadeza de um pôr-do-sol amarelo no deserto nem o sabor antigo e natal da água. Em sua misericórdia não há jardins nem luz de uma esperança ou de uma recordação.

Na janela de um sonho vislumbrei os prometidos Céu e Inferno: quando o juízo retumbar nas trombetas últimas e o planeta milenar for obliterado e bruscamente cessar o Tempo, as efêmeras pirâmides de cores e linhas do teu passado definirão na treva um rosto adormecido, imóvel, fiel, inalterável (talvez o da amada, quem sabe o teu) e a contemplação desse imediato rosto incessante, intato, incorruptível será, para os réprobos, Inferno; para os eleitos, Paraíso.

Jorge Luis Borges, Poemas (1954)

Libertação...

19 Fevereiro, 2010

A Sociedade Mundial da Cegueira

18 Fevereiro, 2010

O poeta Affonso Romano de Sant'Ana e o prêmio Nobel de literatura, o português José Saramago, fizeram da cegueira tema para críticas severas à sociedade atual, assentada sobre uma visão reducionista da realidade. Mostraram que há muitos presumidos videntes que são cegos e poucos cegos que são videntes.

Hoje propala-se pomposamente que vivemos sob a sociedade do conhecimento, uma espécie de nova era das luzes. Efetivamente assim é. Conhecemos cada vez mais sobre cada vez menos. O conhecimento especializado colonizou todas as áreas do saber. O saber de um ano é maior que todo saber acumulado dos últimos 40 mil anos. Se por um lado isso traz inegáveis benefícios, por outro, nos faz ignorantes sobre tantas dimensões, colocando-nos escamas sobre os olhos e assim impedindo-nos de ver a totalidade.

O que está em jogo hoje é a totalidade do destino humano e o futuro da biosfera. Objetivamente estamos pavimentando uma estrada que nos poderá conduzir ao abismo. Por que este fato brutal não está sendo visto pela maioria dos especialistas nem dos chefes de Estado nem da grande mídia que pretende projetar os cenários possíveis do futuro? Simplesmente porque, majoritariamente, se encontram enclausurados em seus saberes específicos nos quais são muito competentes mas que, por isso mesmo, se fazem cegos para os gritantes problemas globais.

Quais dos grandes centros de análise mundial dos anos 60 previram a mudança climática dos anos 90? Que analistas econômicos com prêmio Nobel, anteviram a crise econômico-financeira que devastou os países centrais em 2008? Todos eram eminentes especialistas no seu campo limitado, mas idiotizados nas questões fundamentais. Geralmente é assim: só vemos o que entendemos. Como os especialistas entendem apenas a mínima parte que estudam, acabam vendo apenas esta mínima parte, ficando cegos para o todo. Mudar este tipo de saber cartesiano desmontaria hábitos científicos consagrados e toda uma visão de mundo.

É ilusória a independência dos territórios da física, da química, da biologia, da mecânica quântica e de outros. Todos os territórios e seus saberes são interdependentes, uma função do todo. Desta percepção nasceu a ciência do sistema Terra. Dela se derivou a teoria Gaia que não é tema da New Age; mas, resultado de minuciosa observação científica. Ela oferece a base para políticas globais de controle do aquecimento da Terra que, para sobreviver, tende a reduzir a biosfera e até o número dos organismos vivos, não excluídos os seres humanos.

Emblemática foi a COP-15 sobre as mudanças climáticas em Copenhague. Como a maioria na nossa cultura é refém do vezo da atomização dos saberes, o que predominou nos discursos dos chefes de Estado eram interesses parciais: taxas de carbono, níveis de aquecimento, cotas de investimento e outros dados parciais. A questão central era outra: que destino queremos para a totalidade que é a nossa Casa Comum? Que podemos fazer coletivamente para garantir as condições necessárias para Gaia continuar habitável por nós e por outros seres vivos?

Esses são problemas globais que transcendem nosso paradigma de conhecimento especializado. A vida não cabe numa fórmula, nem o cuidado numa equação de cálculo. Para captar esse todo precisa-se de uma leitura sistêmica junto com a razão cordial e compassiva, pois é esta razão que nos move à ação.

Temos que desenvolver urgentemente a capacidade de somar, de interagir, de religar, de repensar, de refazer o que foi desfeito e de inovar. Esse desafio se dirige a todos os especialistas para que se convençam de que a parte sem o todo não é parte. Da articulação de todos estes cacos de saber, redesenharemos o painel global da realidade a ser compreendida, amada e cuidada. Essa totalidade é o conteúdo principal da consciência planetária, esta sim, a era da luz maior que nos liberta da cegueira que nos aflige.

Leonardo Boff

Pesca(ria)...

17 Fevereiro, 2010