À espera do pai

03 Outubro, 2008

Assisti algumas vezes o filme do cineasta brasileiro Walter Salles, Central do Brasil. Trata-se da história comovente de um menino, órfão de mãe no Rio, cujo pai vive no Nordeste, marcineiro mas entregue ao alcoolismo. Uma ex-professora primária que escrevia cartas a pedido de analfabetos lhe serve de guia. O menino quer porque quer conhecer o pai distante. A professora o acompanha numa viagem atribulada até identificar a casa onde o pai vivia no sertão nordestino. Ao chegar, descobre que o pai saira em busca do filho no Rio. Imenso qüiproquô: o filho sai do Rio e vai em busca do pai no Nordeste e o pai sai do Nordeste e vai em busca do filho no Rio. A história termina num impasse. Ninguém encontra ninguém. Mas ambos ficam esperando.

Esse filme, premiado pelo mundo afora, representa uma brilhante metáfora da figura do pai ausente e do filho abandonado. Todos dizem ao menino que o pai não vale nada. Mas não importa. Ele corre atrás do arquétipo do pai. E o arquétipo é uma força poderosa que move as pessoas em busca do pai real. Nele quer encontrar o herói, a referência básica, o sentido de orientação, o respeito aos diferentes e o aprendizado de limites necessários para a convivência.

Se o filho precisa de orientação, o pai sente o dever de oferecê-la. Só nesta conjunção entre a necessidade de um e o dever do outro, se dá e se criam as condições para uma educação adequada do filho, até ser pai de si mesmo.

Hoje há um sofrido eclipse da figura do pai. Por força do trabalho e de injunções sociais, ele está largamente ausente de casa. O filho sente um vazio que ninguém pode preencher. O conhecido psiquiatra infantil Donald R. Winnicott nos mostrou detalhamente como funciona a lógica psíquica nos dois a três primeiros anos de vida de uma criança. Primeiro, comparece a influência da mãe que lhe garante o sentimento de acolhida e de amor incondicional. Daí resulta a auto-estima e a segurança da criança. Em seguida, surge a figura do pai. Ele é a ponte entre o universo familiar e o mundo dos outros e da sociedade em geral. A criança entra num processo de estresse e de medo. Deixa o útero aconchegante da família e ingressa num mundo onde há diferenças, normas e conflitos. É função do pai ajudar o filho a fazer bem esta travessia, na qual deve sentir-se seguro, reconhecer e respeitar limites e acolher normas que lhe permitem conviver pacificamente com os outros.

Hoje ambos, pais e filhos, se encontram em crise. O filho espera o pai que não vem ou que saiu de cena ou que foi substituído pelo herói mais próximo. Este pode ser um professor, um tio querido e até um chefe do tráfico local, portador de arma pesada, capaz de enfrentar a policia e de matar. O filho sem a figura interior do pai-herói, tende a imitar a estes ou padece de um vazio oceânico. Sente-se perdido, sem rumo na vida, psiquicamente desestruturado.

O pai que sente, em seu íntimo, seu dever de pai, percebe-se desarmado, vencido por outros concorrentes, enfraquecido em sua honra porque se encontra desempregado e considerado um perdedor. É um anti-heroi. Como pode preencher a necessidade arquetípica do filho que quer ver nele o herói corajoso e vencedor?

Ambos estão à espera um do outro com sofrimento e infinita saudade. Agora entendemos a verdade de Telêmaco filho de Ulisses, na Odisséia de Homero: ”Se aquilo que os mortais mais desejam, pudesse ser conseguido num abrir e fechar de olhos, a primeira coisa que eu pediria aos deuses, seria a volta de meu pai”. É um clamor por um rumo na vida.

Pai, volte de pressa. Como no filme, teu filho te necessita e te espera com um olhar longo e saudoso no ponto de ônibus.

Leonardo Boff

Oswaldo Montenegro - Metade

O Molusco e a Reforma

A crise do mercado financeiro, fundamentalismo e visão sistêmica.

02 Outubro, 2008

O mundo foi surpreendido, nesta segunda-feira, com a rejeição, por parte da Câmara dos Deputados dos Estados, do pacote econômico de 700 bilhões de dólares proposto pelo governo Bush para enfrentar a crise que está abalando o mercado financeiro global. A surpresa foi grande porque no domingo à noite tinha sido anunciado ao mundo que as lideranças do partido democrata e do republicano tinham chegado a um acordo junto com os representantes do poder executivo para aprovar o projeto. Com a rejeição, o mercado financeiro mundial entrou em pânico, e a bolsa de Nova Iorque teve a maior baixa da sua histórica, causando, só na segunda-feira, uma perda em torno de 1,2 trilhão de dólares no valor de mercado das ações.
Ninguém tinha certeza de que esse pacote colocaria um fim à crise, mas todos estavam de acordo que era necessário fazer algo nessa direção para evitar um mal pior. Se há um consenso entre os economistas, é o de que ninguém sabe o tamanho e as causas dessa crise, que é a maior desde a grande depressão de 1929. Esse desconhecimento é também um retro-alimentador da crise, pois em estado de insegurança e de desconfiança mútua todas as instituições financeiras se retraem e não emprestam dinheiro para ninguém. Com isso, o fluxo de dinheiro - o óleo que possibilita o funcionamento das engrenagens do capitalismo - cessa, as empresas produtivas e financeiras começam a ter sérios problemas de fluxo de caixa, os títulos financeiros são desvalorizados e, com isso, o patrimônio das instituições financeiras, que garantia os seus débitos, diminui criando desequilíbrios financeiros da instituição e do próprio sistema. Tudo isso agrava ainda mais a crise financeira.

Se a confiança no sistema financeiro não for restaurada urgentemente e o crédito circular novamente, a crise pode arrastar muito mais empresas, do setor financeiro e produtivo, podendo levar o mundo a uma grande depressão econômica. Isso afetaria também milhões de pessoas que tem dinheiro investido ou depositado nessas instituições financeiras (bancos, cadernetas de poupança, fundos de investimento, etc.) ou quem tem planos de aposentadoria (que geralmente tem uma parte significativa dos seus fundos investida no mercado financeiro), sem falar no desemprego.

Se a situação é tão grave, por que a maioria da câmara rejeitou o plano? Por parte dos republicanos (dois terços votaram contra), o principal argumento foi: o pacote de intervenção do Estado na economia é um passo em direção ao socialismo, e é preferível passar dificuldades econômicas, até mesmo a fome, do que abandonar o princípio da liberdade do mercado! Isto é, a defesa absoluta da ideologia do "mercado livre" das intervenções do Estado - o que pode ser considerado uma forma de fundamentalismo econômico - foi uma das causas da crise e da própria rejeição do pacote. Fundamentalistas religiosos ou econômicos, de direita ou de esquerda, são coerentes em uma coisa: não importa a realidade da vida ou as condições históricas objetivas, é preciso reafirmar a todo custo a "verdade" em que acreditam ou pelo qual lutam.

Por parte dos democratas que votaram não, o principal argumento foi: o dinheiro seria usado para ajudar os ricos banqueiros, ao invés de ser usado para beneficiar o povo. Porém, quando a crise é sistêmica, como a atual, não se pode isolar uma parte do resto do sistema. Isto é, a recusa em ajudar salvar o sistema financeiro, em nome de defender o interesse do povo, afeta também o povo, que tem seu dinheiro depositado ou investido nos bancos, que tem suas poupanças ou fundos de aposentadoria investidos nesse sistema, e/ou que tem os seus empregos em empresas que depende do fluxo de crédito do sistema financeiro. A visão que contrapõe os ricos X pobres funciona enquanto a crise não afeta o sistema como um todo. Mas quando a crise é sistêmica, é preciso assumir uma visão estratégica sistêmica para ação.

Ninguém sabe como e quando essa crise vai ser superada. Quase todos os economistas estão de acordo que essa crise não será a última e que o sistema financeiro mundial será modificado após a atual crise. Outra quase certeza: essa não é a última crise do capitalismo, isto é, o sistema capitalista global terá fôlego para se refazer dessa crise. O que nós podemos aprender dessa crise? Pelo menos duas coisas: a) fundamentalismo econômico, político ou religioso, de direita ou esquerda, pode satisfazer os egos dos seus "profetas’ e ter muitos seguidores, mas a realidade cobrará o seu preço; b) grandes crises e grandes processos de transformação social precisam ser entendidos em termos sistêmicos, pois as visões que focam nas contradições dualistas, como ricos X pobres, não dão conta dessas situações.

Jung Mo Sung

Realidade...

Ana Carolina - Só de sacanagem (Por favor vejam!)

Protegendo a infância para proteger tudo

30 Setembro, 2008

Assim também o Pai de vocês, que está no céu, não quer que nenhum destes pequeninos se perca. MT 18.14 A infância não deve ser protegida apenas por causa da fragilidade física e emocional do ser humano nesse período, mais que isso, é na infância que o ser humano mais que aprender a ser gente, aprende a amar ser gente. Quando se aprende a amar ser gente, aprende a amar tudo o que nos cerca e nos permite ser gente. Aprende-se que fazemos parte de algo maior que nós, e que, por sermos os seres mais dotados de inteligência do planeta, recai sobre nós a grande responsabilidade por sua manutenção e por sua qualidade de existência. Quando se aprende a amar ser gente, aprende-se a amar gente, a nos vermos como uma grande família, onde todos devem trabalhar pelo bem de todos, com uma visão comunitária de qualidade de vida. Quando se aprende a amar ser gente, passa-se a desejar ser gente cada vez melhor, e, então, passa-se a procurar os melhores exemplos de gente para se imitar, gente como Jesus de Nazaré, por exemplo. E essa busca pela excelência do Ser eleva a qualidade de tudo o que está à nossa volta, e de todos os nossos relacionamentos. Há muito que fazer, não apenas para tirar as crianças do trabalho infantil, mas para garantir-lhes educação e recreação de qualidade, saúde física e emocional, o que passa necessariamente pela distribuição de renda e pela adequada prestação de serviços por parte do estado, de modo que seus pais possam viver com dignidade, a família possa ser preservada e o carinho tenha espaço para crescer, porque, como diz o ditado popular: "quando a miséria entre pela porta, o amor pula pela janela", não há paz onde não há dignidade financeira, emocional e física. A igreja pode e tem ajudado, principalmente, na questão emocional, mas nada substitui o papel do Estado no que tange a justiça social e a qualidade de serviços públicos. Precisamos construir uma Nação e um Estado onde as crianças amem ser gente.

Ariovaldo Ramos

The Corrs - "Everybody Hurts"

O segredo de agradar a Deus.

29 Setembro, 2008

"Portanto, vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu
vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz"
Eclesiastes 9.7.

José Fulano de Tal morreu ontem. Pobre homem! Consciente dos seus deveres, nunca atrasou no relógio de ponto. Jamais perdeu um trem. Era impensável que acelerasse no sinal amarelo. Correto, pagou todas as suas prestações na data exata. Vestiu a mesma camisa até puir o colarinho. Sempre elegeu o candidato que votou. Leu o jornal diariamente. Teve um enterro comedido, sem muita emoção, parecido como a sua existência.

José Fulano de Tal foi assíduo membro de uma igreja. Submeteu-se aos regulamentos e exigências de sua religião - seu maior desejo na vida era agradar a Deus. Trabalhou incansavelmente nos mutirões do bairro. Contribuiu com entidades filantrópicas. Em sua última jornada, os amigos, parentes e curiosos caminharam circunspetos pelas alamedas do cemitério. Despediam-se de um homem que não conseguiu viver.

José Fulano de Tal deveria ter aprendido que para viver, basta gostar, mas gostar mesmo, de poesia. No poema, a palavra ganha ritmo para sincronizar-se com o pulsar do universo. E nessa magnífica, porém silenciosa palpitação, ressoa a voz do Divino.

José Fulano de Tal deveria ter aprendido que para viver, basta achar tempo para ouvir música. Quando melodia e rima se acasalam, nasce a sublime sonoridade do Paraíso. O Pai Eterno sorri quando seus filhos se aquietam para escutar os artesãos dos salmos, dos noturnos, das toadas, dos réquiens, das cantatas, das óperas, das polcas, do samba, dos hinos, dos recitais, dos corais, do jazz, da bossa-nova.

José Fulano de Tal deveria ter aprendido que para viver, basta amar os livros. É prazeroso para Deus, ver os filhos transcendendo para mundos imaginários através da prosa, da narrativa. Os romances dissecam a alma humana, enaltecem a virtude, expõem a crueldade e quando não sofrem censura, descrevem a realidade crua da vida.

José Fulano de Tal deveria ter aprendido que para viver, basta transformar cada refeição em um ágape, cada aperto de mão em uma aliança e cada abraço em uma declaração de amor.

José Fulano de Tal deveria ter aprendido que para viver, basta deixar-se conduzir por um vento desatento, rumo ao horizonte inatingível; e esperar por um porvir insubstancial. Já que Deus gosta de prados selvagens e de matas sem cercas, viver é arriscar-se. Deus sabe desenhar o arco-íris com as gotas do ribeiro que despenca no precipício. Portanto, só vive quem não teme esvaecer.

José Fulano de Tal deveria ter aprendido que para viver, basta gostar de vinho, de doce de leite, de tapioca com manteiga, de filme de amor, de esporte, de meia hora de sono extra no feriado, de bolo de milho, de cafuné, de beijo, de viagem de férias com dois dias sobrando para descansar do descanso.

José Fulano de Tal deveria ter aprendido que para viver, basta chamar Deus de Pai ou de Mãe.

Ricardo Gondim

Campanha...

Comercial JAPP chocolate bar - Muito engraçado!

Igreja: Oásis, Deserto ou Campo de Batalha?

27 Setembro, 2008

Aos 64 anos de idade, tendo me integrado à vida eclesiástica desde a infância, me vem à mente – pela própria experiência –, três imagens do que pode representar para um fiel a comunidade de fé: um oásis, um deserto, ou um campo de batalha.

Sinto-me abençoado, porque a primeira imagem foi aquela por mim vivenciada em mais de dois terços da minha existência. Aos 6 anos, com as classes de preparação para a Primeira Comunhão, passei a me integrar à vida da Paróquia de Santa Maria Madalena, em União dos Palmares, Alagoas, dirigida pelo austero, sábio e humano monsenhor Clóvis Duarte. Meu primo Gerilo era seminarista, e eu fui me entrosando com outras crianças, depois adolescentes, jogava futebol no campinho atrás da Igreja, fui ficando assíduo às missas dominicais (diárias nas férias) e a outras atividades religiosas e sociais. Minha vida passou a girar em torno da Paróquia, sem me descuidar dos estudos e do bate bola. Meus últimos dois anos como católico romano praticante foi na Capela de Fátima, do Colégio Nóbrega, dos jesuítas, onde estudava, no Recife. Tive minhas crises religiosas, passei por uma experiência pessoal de conversão aos 16 anos, deixei a Igreja de Roma aos 18, mas a memória da vida paroquial permanece, até hoje, como positiva. Como comunidade de fé, foi meu primeiro oásis.

Foi muito boa a experiência da primeira Igreja protestante que freqüentei: a Presbiteriana Central de Garanhuns, PE, dirigida, então, pelo Rev. Henrique Guedes, quando aluno interno do Colégio XV de Novembro. Quando deixei a Igreja de Roma, me filiei à Paróquia de Casa Amarela, Recife, da Igreja Luterana (IELB), (reverendos Vilfredo Becker e Geraldo Stanke), onde permaneci por doze anos, aprendendo a Bíblia, a Sã Doutrina, a História da Igreja, a Ética Cristã em um ambiente fraterno e de muito respeito pela individualidade e pela privacidade de cada fiel. Ali integrei o Conselho, fui evangelista, candidato às Sagradas Ordens, com um mínimo de tensões, e muita alegria espiritual. Como o culto luterano era pela manhã, nas noites dos domingos freqüentava a Primeira Igreja Presbiteriana (Rev. Benedito Matos) e a Igreja Batista da Capunga (Pr. Munguba Sobrinho). Nas férias escolares, uma outra Igreja "complementar" era a Batista de União dos Palmares, onde colaborava, eventualmente, com a Batista Renovada e a Adventista do Sétimo Dia. Isso permaneceu até eu me formar. Foram todas, abençoados oásis para mim!

Durante dez anos e meio (1968-1978) fui assessor da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABU), viajando por vários Estados, ministrando em uma ampla gama de Igrejas de várias denominações, ou visitando-as em um trabalho de "relações públicas". Foi um tempo de muito trabalho e de muitas bênçãos. Quando aluno de mestrado no Rio de Janeiro (1974-1975), já saindo da Igreja Luterana (por divergências tópicas) Miriam e eu nos congregamos na Igreja Batista de Icaraí, em Niterói (Pr. Josué dos Santos), chamada carinhosamente pelos muitos estudantes que a freqüentavam de "Igrejinha". A essa altura já estava envolvido com a Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL), a Aliança Evangélica Mundial (WEF) e com o Movimento de Lausanne (LCWE). Foram novos oásis!

Regressei ao Recife (1976) continuando como assessor da ABU, me filiei à Paróquia da Santíssima Trindade, da então Igreja Episcopal Brasileira (IEB) (Rev. Paulo Garcia, pastor; Revmo. Edmundo K Sherril, Bispo), vivendo sua primeira "dispensação" a evangélica. Miriam havia se filiado à Igreja Batista da Capunga (Pr. Manfred Grellert). E, por alguns anos, cada um ia para sua Igreja pela manhã, e alternávamos os domingos à noite. De fato, estávamos em duas Igrejas, e sem problemas. Como assessor da ABU continuava meu périplo, e, nesse tempo, guardo gratas recordações da Igreja Evangélica Pentecostal "O Brasil Para Cristo", de Boa Viagem (Pr. José Alves), aonde íamos alguns sábados à noite, participando, inclusive, de pregações ao ar livre na praça do aeroporto.

Na Igreja Anglicana fui Leitor (Ministro Leigo), professor de Escola Bíblica Dominical, membro de Junta Paroquial, postulante e candidato às Sagradas Ordens, e, finalmente, clérigo ordenado, como Diácono (1984), e Presbítero (1985). A essa altura, já estava com 41 anos de idade, e somente havia conhecido oásis eclesiásticos. Ao mesmo tempo, todo o ensino que eu tinha na cabeça sobre "tribulações" e "aflições" apenas se referia ao "mundo", nunca à Igreja. Tempo inocente. Tempo de muito idealismo e otimismo. Mas... e, há sempre um "mas"... em breve conheceria o "deserto".

Robinson Cavalcanti

Um dia - Mário Quintana (Legendado)

25 Setembro, 2008

Ateus batem na porta das religiões

Se há alguém que nos pode relatar com seriedade o estado da vida na Terra, especialmente, na perspectiva do aquecimento global, esse é Edward O. Wilson (*1929), um dos maiores biólogos vivos, introdutor da palavra biodiversidade. Seu livro A criação. Como salvar a vida na Terra (Companhia das Letras,2008) representa um apelo preocupado, diria, até desesperado para que façamos esforços ingentes e coletivos para sairmos da crise que nós próprios criamos. A Terra, em sua longa história, conheceu 5 grandes dizimações, a última no final da Era Mesozóica (dos répteis), há 65 milhões de anos, na qual todos os dinossauros desapareceram. Deu lugar à Era Cenozóica (a nossa, dos mamíferos). Entre uma dizimação e outra, a Terra precisou de dez milhões de anos para se autoregenerar.

Segundo Wilson, nos últmos séculos, os seres humanos, no seu afã de construir bem estar e de se enriquecer, exploraram de forma tão persistente e sistemática o planeta Terra, que começou, como conseqüência, a sexta extinção em massa. Abstraindo dos meteoros rasantes que devastaram o planeta mais ou menos a cada cem milhões de anos, a Terra nunca conheceu um ataque tão poderoso como o que está ocorrendo atualmente. Diz-nos Wilson:”no momento, a taxa global de extinção das espécies supera o nascimento de novas espécies numa proporção de pelo menos cem por um e logo vai aumentar para dez vezes mais do que isso”(p.98).
O causador desta desvastação é o ser humano que se transformou numa verdadeira força geofísica destruidora: alterou a atmosfera e o clima da Terra, difundiu milhares de substâncias químicas tóxicas pelo mundo inteiro, represou quase todos os rios, transformou quase todas as terras em aráveis estando hoje vastamente desertificadas e nos encontramos perto de esgotar a água potável.

Sabemos que é a biodiversidade, especialmente, dos microorganismos, bactérias, fungos, pequenos invertebrados e insetos que garante as condições para que nossa vida humana possa continuar. Nós dependemos totalmente deles. A continuar nossa prática biocida, a partir dos meados deste século, começará a dizimação de nossa própria espécie. Ela não estará na lista das condenadas à extinção? Desta vez não dá para esperar dez milhões de anos para a Terra recuperar seu equilíbrio perdido. Nós temos que ajudá-la, do contrário, Gaia nos expulsará como um corpo letal.

É neste contexto que Wilson propõe Uma Aliança pela Vida. Convoca as duas forças que para ele são as mais poderosas do mundo: a ciência e a religião. Seu livro é na verdade uma carta aberta a um pastor evangélico, convidando-o a somar forças, a desmontar preconceitos, a construir valores que possam salvar a vida. Wilson se confessa um não crente, digamos um ateu, mas que fala sempre com reverência de Deus. Vai bater na porta da Igreja para pedir socorro. Diante de um perigo global, anulam-se as diferenças. Desta vez crente e não crente terão o mesmo destino. Mas ambos podem trabalhar juntos porque“os que hoje vivem na Terra têm de vencer a corrida contra a extinção das espécies, ou então serão derrotados – derrotados para sempre; eles conquistarão honrarias eternas ou o desprezo eterno”(p.115).

Ciência e religião devem mudar. A ciência até hoje não respeitou a alteridade dos seres. Colocou-se acima, dominando-os. A religião não se livrou ainda de seu fundamentalismo na leitura dos textos sagrados. Mantendo sua fé, pode reconhecer a evolução das espécies. Ela contribui com a reverência diante da grandeur do universo e com respeito diante de todas as formas de vida. Essa atitude converte o poder em proteção e cuidado. Essa aliança sagrada poderá salvar a vida ameaçada.

Leonardo Boff

Prosperidade