26 Julho, 2010
Por tão pouco
O Senhor ensina no evangelho: vigiai, permanecendo atentos contra toda malícia e cobiça. Guardai-vos de todas as ansiedades deste mundo e dos cuidados desta vida.Portanto que nenhum dos irmãos, não importando para onde vá, leve consigo, receba ou tenha recebido qualquer forma de dinheiro ou de moeda, quer seja para vestuário, livros ou para o pagamento de qualquer trabalho – de fato, não por qualquer razão, a não ser por uma necessidade evidente de irmãos enfermos; porque não devemos de modo algum pensar que moeda ou dinheiro tenham utilidade maior do que pedras. O diabo quer cegar aqueles que desejam dinheiro e moedas ou consideram-nos melhores do que pedras. Nós, que abandonamos todas as coisas, tenhamos então cuidado para não perder o reino do céu por tão pouco.
Se encontrarmos moedas em algum lugar, não prestemos mais atenção a elas do que ao pó que pisamos com os pés, pois “vaidade das vaidades, e tudo é vaidade”. Se, por acaso e Deus não o permita, acontecer de algum irmão coletar ou carregar moeda ou dinheiro, a não ser pela supramencionada necessidade dos enfermos, que todos os irmãos passem a considerá-lo um irmão enganador, um apóstata, um ladrão, um assaltante e como aquele que levava a bolsa de dinheiro, a não ser que sinceramente se arrependa.
Que os irmãos de modo algum recebam, combinem de receber, coletem ou combinem de coletar dinheiro para colônias de leprosos ou moedas para qualquer outra casa ou lugar, e que não acompanhem ninguém que esteja pedindo dinheiro ou moedas para tal lugar. Porém os irmãos podem prestar para esses lugares outros serviços não contrários à nossa vida com a benção de Deus. Os irmãos podem pedir coisas que venham atender uma necessidade manifesta dos leprosos, mas devem tomar muito cuidado com o dinheiro. Semelhantemente, que todos os irmãos cuidem para não passar pelo mundo tendo como objetivo o sórdido lucro.
São Francisco de Assis, Regula non-bullata (1221)
17 Julho, 2010
Diálogo inter-religioso: o que eu tenho com isso?

Em se tratando de teologia, eu me sinto como o Belchior, célebre compositor cearense em um de seus clássicos, “Apenas um Rapaz Latino-Americano”: “Por favor, não saque a arma no saloon: eu sou apenas o cantor!”.
Ocorre que eu vivo num mundo interconectado, integrado, multiplural. E, acima de tudo, como ser humano sou livre para expressar meus pensamentos e sentimentos relacionados à vida, a Deus e ao próximo. E a partir disso, concluo: a hegemonia política do cristianismo é passado.
A força de sua mensagem, pra mim, permanece intocável. Amor sem medida, misericórdia, compaixão, generosidade, fome e sede de justiça. Em se tratando de instituição religiosa, no entanto, há muito os representantes oficiais da fé cristã têm perdido credibilidade e relevância. E nós muitas vezes confundimos Cristo com cristianismo, o que se trata de um pecado quase imperdoável.
Thomas Merton (1915-1968), sobre quem escrevi em meu livro “Somos Um”, foi um monge católico que bebeu na fonte da mística cristã em São João da Cruz e que no fim da vida promoveu o diálogo interreligioso com monges tibetanos, não para renegar sua fé, mas entendendo que sua herança cristã de dois milênios e o que ele não tinha a pretensão de conhecer por completo no tempo de uma única existência, poderiam beneficiar-se do diálogo com outra herança igualmente rica, uma vez que Deus não é cristão, kardecista, muçulmano, adepto das religiões afro, hindu, e a grandeza de seu mistério é simplesmente insondável.
Eu tenho a nítida sensação e a firme convicção de que o futuro da fé e a força da mensagem cristã passam por uma atitude de abertura ao diferente, uma postura de abnegação e de serviço ao outro, seja este quem for.
Ainda sonho com um mundo melhor. E um mundo melhor significa diálogo.
“Mas se depois de cantar
Você ainda quiser me atirar
Mate-me logo
À tarde, às três
Que à noite eu
Tenho um compromisso
E não posso faltar...”
• Jorge Camargo, mestre em ciências da religião, é intérprete, compositor, músico, poeta e tradutor. www.jorgecamargo.com.br
Ocorre que eu vivo num mundo interconectado, integrado, multiplural. E, acima de tudo, como ser humano sou livre para expressar meus pensamentos e sentimentos relacionados à vida, a Deus e ao próximo. E a partir disso, concluo: a hegemonia política do cristianismo é passado.
A força de sua mensagem, pra mim, permanece intocável. Amor sem medida, misericórdia, compaixão, generosidade, fome e sede de justiça. Em se tratando de instituição religiosa, no entanto, há muito os representantes oficiais da fé cristã têm perdido credibilidade e relevância. E nós muitas vezes confundimos Cristo com cristianismo, o que se trata de um pecado quase imperdoável.
Thomas Merton (1915-1968), sobre quem escrevi em meu livro “Somos Um”, foi um monge católico que bebeu na fonte da mística cristã em São João da Cruz e que no fim da vida promoveu o diálogo interreligioso com monges tibetanos, não para renegar sua fé, mas entendendo que sua herança cristã de dois milênios e o que ele não tinha a pretensão de conhecer por completo no tempo de uma única existência, poderiam beneficiar-se do diálogo com outra herança igualmente rica, uma vez que Deus não é cristão, kardecista, muçulmano, adepto das religiões afro, hindu, e a grandeza de seu mistério é simplesmente insondável.
Eu tenho a nítida sensação e a firme convicção de que o futuro da fé e a força da mensagem cristã passam por uma atitude de abertura ao diferente, uma postura de abnegação e de serviço ao outro, seja este quem for.
Ainda sonho com um mundo melhor. E um mundo melhor significa diálogo.
“Mas se depois de cantar
Você ainda quiser me atirar
Mate-me logo
À tarde, às três
Que à noite eu
Tenho um compromisso
E não posso faltar...”
• Jorge Camargo, mestre em ciências da religião, é intérprete, compositor, músico, poeta e tradutor. www.jorgecamargo.com.br
Ao Contrário
"Não devemos acreditar em Jesus dependendo de se os profetas anteriores falaram a respeito dele; ao contrário, devemos crer que os profetas são profetas na medida em que aquele que é o Cristo endossa o que eles disseram."
Tiago, filho de Alfeu,
nas Homilias de Pseudo-Clemente (século III)
Tiago, filho de Alfeu,
nas Homilias de Pseudo-Clemente (século III)
13 Julho, 2010
O Deus conosco
Jesus é Deus conosco, Emanuel. O grande mistério de Deus ao se tornar humano é seu desejo de ser amado por nós. Ao se tornar uma criança vulnerável, completamente dependente de cuidado humano, Ele quer eliminar toda a distância entre o humano e o divino.
Quem pode ter medo de uma pequena criança que precisa ser alimentada, cuidada, ensinada e guiada? Normalmente falamos de Deus como o Deus onipotente, Todo-Poderoso, de quem dependemos totalmente.
Mas Ele quis se tornar o Deus não-onipotente, todo-vulnerável, que depende completamente de nós. Como podemos ter medo de um Deus que deseja ser "Deus conosco" e que nos tornemos "Nós-com-Deus"?
Quem pode ter medo de uma pequena criança que precisa ser alimentada, cuidada, ensinada e guiada? Normalmente falamos de Deus como o Deus onipotente, Todo-Poderoso, de quem dependemos totalmente.
Mas Ele quis se tornar o Deus não-onipotente, todo-vulnerável, que depende completamente de nós. Como podemos ter medo de um Deus que deseja ser "Deus conosco" e que nos tornemos "Nós-com-Deus"?
Henri Nouwen
11 Julho, 2010
Igreja
Igreja é um lugar onde o Pai se sente em casa,
Onde é adorado pelo que é e não pelo que pode,
Onde é obedecido de coração e não por constrangimento,
Onde o seu reino é manifesto no amor, na solidariedade, na fraternidade e serviço ao outro,
Onde o ser humano se perceba em casa e seja a casa de Deus e do outro,
Onde Jesus Cristo é o modelo, o desejo e o caminho,
Onde a graça é o ambiente, o perdão a base do relacionamento e o amor a sua cimentação.
Onde o Espírito Santo está alegre pela liberdade que desfruta para gerar e expressar a Cristo,
Onde Ele vê os seus dons serem usados para edificar, provocar alegria e servir ao próximo,
Onde todos andam abraçados,
Onde a dor de um é a dor de todos,
Onde ninguém está só,
Onde todos têm acesso ao perdão, à cura de suas emoções, à amizade e a ser cada vez mais parecido com Cristo,
Onde os pastores são apenas ovelhas-exemplo e não dominadores dos que lhes foram confiados,
Onde os pastores são vistos como ovelhas-líder e não como funcionários a serem explorados.
Onde não há gente nadando na riqueza enquanto outros chafurdam na miséria,
Onde há equilíbrio, de modo que quem colheu demais não esteja acumulando e quem colheu de menos não esteja passando necessidades.
Enfim, a comunidade do reino de Deus,
Onde aparece a humanidade que a Trindade sonhou,
Onde a cidade encontra paradigmas.
Onde o livro texto é a Bíblia.
Ariovaldo Ramos
Onde é adorado pelo que é e não pelo que pode,
Onde é obedecido de coração e não por constrangimento,
Onde o seu reino é manifesto no amor, na solidariedade, na fraternidade e serviço ao outro,
Onde o ser humano se perceba em casa e seja a casa de Deus e do outro,
Onde Jesus Cristo é o modelo, o desejo e o caminho,
Onde a graça é o ambiente, o perdão a base do relacionamento e o amor a sua cimentação.
Onde o Espírito Santo está alegre pela liberdade que desfruta para gerar e expressar a Cristo,
Onde Ele vê os seus dons serem usados para edificar, provocar alegria e servir ao próximo,
Onde todos andam abraçados,
Onde a dor de um é a dor de todos,
Onde ninguém está só,
Onde todos têm acesso ao perdão, à cura de suas emoções, à amizade e a ser cada vez mais parecido com Cristo,
Onde os pastores são apenas ovelhas-exemplo e não dominadores dos que lhes foram confiados,
Onde os pastores são vistos como ovelhas-líder e não como funcionários a serem explorados.
Onde não há gente nadando na riqueza enquanto outros chafurdam na miséria,
Onde há equilíbrio, de modo que quem colheu demais não esteja acumulando e quem colheu de menos não esteja passando necessidades.
Enfim, a comunidade do reino de Deus,
Onde aparece a humanidade que a Trindade sonhou,
Onde a cidade encontra paradigmas.
Onde o livro texto é a Bíblia.
Ariovaldo Ramos
24 Junho, 2010
O Livro dos livros e nós
Durante a infância e parte da adolescência eu ouvia as leituras na missa dominical, cuja liturgia era em latim, que sempre começavam com a expressão: “Naquele tempo”. E eu, naquela época, não entendia muito o que se lia. Chega minha prima, nas férias, engatinhando na alfabetização, com um Evangelho de Mateus que recebera de uma vizinha. Após o almoço, eu, mais velho, lia um capítulo por dia. Chega minha tia de um colégio de freiras. Verifica a edição da Sociedade Bíblica, versão João Ferreira de Almeida. Inquisitorial, pergunta sobre a autorização de alguma autoridade da Igreja de Roma: “Tem Imprimatur? Tem Reimprimatur? Tem Nihil Obstat? Não tem? Vai para o fogo". E, naqueles tempos pré-Concílio Vaticano II, rasga o livrinho e em um “ato de fé” o queima no fogão de carvão lá de casa, no interior de Alagoas. Não posso me esquecer das labaredas azuis.Estou com 14 anos. Um marceneiro adventista, o Josué Clementino, me pede para recitar os Dez Mandamentos. Eu o fiz, segundo o que tinha estudado no Catecismo do Padre Álvaro Negromonto. Ele abre a Bíblia de edição católica Padre Figueiredo. Me manda ler o capítulo vinte do livro de Êxodo. Surpreso, vejo que não confere. Tinha saído um mandamento, e o outro desdobrado em dois para fechar em dez. “Como pode uma instituição alterar o texto dado por Deus nas Tábuas da Lei?” Josué me desafia a estudar a Bíblia, e por dois anos faço um curso bíblico por correspondência, escondido da minha mãe.
Vou completar 17 anos. Igreja Presbiteriana Central de Garanhuns, PE. Aula de escola bíblica dominical. Meu professor era o advogado Urbano Vitalino, meu avô. Tema: “As viagens de Paulo no livro dos Atos dos Apóstolos”. “Viajo” junto, empolgado.
E assim, aos poucos, a Bíblia foi chegando em minha vida. Do meu primeiro salário, dei o dízimo e comprei uma Bíblia. Meu primeiro sermão foi pregado no Dia da Bíblia, em 1963 (19 anos).
Hoje me alegro com o fato de que o Brasil é campeão em venda de Bíblias. Muito vendida, menos lida, pouco obedecida.
Estou em uma igreja (a Anglicana) que afirma a autoridade da Bíblia como Palavra de Deus!
• Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife.
Assinar:
Postagens (Atom)

